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André Pomponet

Transporte de qualidade exige mais que ônibus novo

André Pomponet - 24 de Fevereiro de 2016 | 13h 19
Transporte de qualidade exige mais que ônibus novo

Em meados de janeiro a frota de ônibus novos, pertencente às empresas vencedoras da licitação ocorrida ano passado, começou a circular com estardalhaço pelas ruas da Feira de Santana. Dizia-se – com razão – que pela primeira vez o feirense dispunha de uma frota inteira de veículos totalmente novos para circular pela cidade. Nesse sentido, não restam dúvidas que houve um avanço elogiável em relação à triste realidade que sempre caracterizou o transporte coletivo no município, sobretudo nos últimos anos. Afinal, o feirense vinha penando há tempos circulando em veículos velhos e malcuidados.

A disponibilidade de veículos novos é uma das medidas mais importantes para garantir o mínimo de dignidade ao transporte público em qualquer lugar pretensamente civilizado. No entanto, ao contrário do que alguns podem imaginar, não é a única iniciativa e, isoladamente, por si só, é incapaz de assegurar o funcionamento exitoso do sistema. É a percepção que parece estar faltando na Feira de Santana.

Essencialmente, o município convive com um conjunto de problemas estruturais no transporte público sobre o qual a oferta de ônibus novos não produz nenhum efeito: terminais e demais equipamentos – como os pontos de ônibus – precários e mal conservados; roteiros equivocados, que não atendem às demandas dos usuários; quantidade de ônibus insuficiente, sobretudo em bairros periféricos; vias de circulação em situação precária; e valores das tarifas elevados.

Há anos os chamados terminais de integração na Feira de Santana apresentam condições deploráveis: sujeira, insegurança, sanitários interditados, assentos quebrados e estruturas danificadas, o que torna penosa a permanência dos feirenses nesses espaços. Isso sem contar os prolongados descansos autoconcedidos por motoristas e cobradores quando chegam aos terminais. Pelas ruas, os pontos não oferecem o mínimo de conforto ao passageiro, isso quando os vândalos não se dedicam a danificar o que existe.

Outra grande queixa dos feirenses é o roteiro das linhas: trajetos irracionais somam-se à concentração de veículos por determinadas vias do centro da cidade – como a avenida Senhor dos Passos – e, por outro lado, equipamentos essenciais à vida da cidade, como a Rodoviária, contam com o fluxo de pouquíssimos ônibus. Essa distribuição irracional dos roteiros leva o feirenses a extensos deslocamentos ou à espera de mais um ônibus para chegar ao destino.

Mais problemas

A oferta limitada de ônibus é outro problema que, embora parcialmente atenuado nos últimos dias, continua causando transtornos. O drama é maior exatamente nos bairros periféricos e densamente povoados – como os conjuntos populares que surgiram nos últimos anos –onde as esperas se arrastam, intermináveis, sobretudo nos fins semana. Para quem tem compromissos, então, é ainda pior.

 É justamente a limitação na oferta do transporte coletivo que alimenta o transporte clandestino, alvo de intensas – e justas – reclamações dos empresários. O transporte clandestino, a propósito, é uma chaga que remonta aos anos 1990 e que, sabe Deus o porquê, prefeito e secretário nenhum consegue erradicar. Precariedade na oferta do transporte convencional e prodigalidade da fiscalização constituem os principais combustíveis que induzem o feirense a recorrer à frota alternativa.

Por fim, é necessário reconhecer que os reajustes cada vez mais constantes na tarifa são um grande estímulo à queda no número de passageiros. Afinal, o País atravessa uma crise econômica intensa que, só no ano passado, varreu quase sete mil empregos no município. Não haveria, portanto, momento mais impróprio para penalizar a população com passagens mais caras. Quem pode, compra uma dessas motonetas e sai adoidado, contribuindo para tornar o trânsito feirense ainda mais infernal.

Há, ainda, um elemento que não se relaciona diretamente à política de transporte público, mas que produz efeitos sensíveis sobre esta: o estado de conservação das ruas e avenidas da cidade. Há bairros cujas vias são um imenso suceder de crateras; na zona rural, basta uma chuva para determinados trechos ficarem intransitáveis. Não é à toa que as fotos de ônibus quebrados são tão comuns nas redes sociais.

Essas questões mostram que a oferta de um sistema de transporte público de qualidade vai além da oferta de uma frota de ônibus inteiramente nova. Noutras palavras, o debate segue necessário, sobretudo em ano de eleição.

 

 



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