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André Pomponet

O debate amarrotado das “grandes obras”

20 de julho de 2015 | 17h 48
O debate amarrotado das “grandes obras”

            Um debate recorrente no Brasil é sobre a realização de “grandes obras”. Governante que almeja a consagração precisa realizar uma grande obra e, se possível, batizá-la generosamente com o próprio nome, ainda que terceiros assumam a condição de “laranjas” propondo a homenagem para insinuar uma difusa “vontade popular”. O fato é que político que deixa o cargo e não lega um grande hospital (ainda que não funcione) uma nova escola (mesmo que a preocupação com a qualidade da educação seja mínima) uma ponte (ainda que ligue o nada a lugar algum) ou, pelo menos, uma praça na periferia (mesmo que sirva apenas como ponto de referência para clientes de traficantes de drogas) fracassou redondamente.

             Idéias do gênero eram muito cabíveis quando o Brasil ingressou no século XX e ainda era, praticamente, apenas uma grande fazenda para a produção de café, cacau, borracha e outros produtos menos rentáveis. A urbanização acelerada e a industrialização que se seguiram à década de 1930 impunham maciços investimentos em infraestrutura, como ferrovias, rodovias, portos, aeroportos e equipamentos urbanos para acolher a população migrante.

            Data desse período a escola política “populista”. Dela derivaram políticos que cultivaram a fama de arrojados, empreendedores e visionários, dedicados à construção do Brasil do futuro. Os reprovados na escola “populista” formularam uma versão vulgar, mas eleitoralmente bastante eficiente, do “rouba, mas faz”.

            Com o congelamento das relações políticas decorrente da Ditadura Militar, o Brasil emergiu, em 1985, ainda imaturo politicamente, sujeito aos surrados pregões que os herdeiros do regime militar resgataram no pré-1964.

 

            Benefícios

 

            Muito mais carente da universalização de políticas públicas que propriamente de infindáveis “grandes obras” – que às vezes nem se justificam – o brasileiro vive refém desse discurso, mesmo que os benefícios sejam flagrantemente questionáveis. É o caso da açudagem do semiárido, que só beneficiou os grandes fazendeiros. É o caso citado dos hospitais e escolas vistosos, mas que não dispõem de médicos ou não oferecem ensino de qualidade.

            A lógica vai também em direção à iniciativa privada: concebem-se grandiosas “políticas industriais”, com atração de grandes empresas que recebem muitos incentivos, oferecem escassos empregos e pagam poucos impostos. No entanto, vai pro rol das grandes realizações tocadas por políticos audazes e intrépidos.

            O passar dos anos, porém, amarrotou o discurso e a prática. E o brasileiro – o nordestino em particular – se vê sem qualificação, sem acesso aos direitos sociais elementares e perdido em meio à moribunda retórica das “grandes obras”.

 

            Caminho

 

            Somente com a maturidade política que a continuidade democrática confere, é que a sociedade vai comparando melhor teoria e prática, discurso e realidade. Não é à toa que o Brasil mais conservador e patriarcal vai cedendo espaço, recuando para os grotões, restringindo-se ao eleitorado menos esclarecido e mais vulnerável ao assistencialismo. Essa tem sido a realidade dos últimos anos.

            Mais adiante, caminharemos na direção de compreender plenamente que as “grandes obras” não são mais os prédios imponentes, os monumentos inúteis ou o asfalto em vielas sem saneamento. As políticas públicas (saúde, educação, saneamento, acesso à cultura e ao trabalho digno) serão promovidas à condição de “grandes obras”, colocando o Brasil, enfim, nos trilhos do desenvolvimento.

            Se houvesse renovação política, menos corrupção e maior consciência da população, teríamos atingindo esta nova consciência muitos anos antes, diminuindo a distância que nos separa de países onde os direitos sociais estão consolidados de fato.

            



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