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  • Feira de Santana, sábado, 27 de fevereiro de 2021

André Pomponet

Dois dedos de prosa sobre o Brasil do futuro

André Pomponet - 16 de fevereiro de 2021 | 12h 11
Dois dedos de prosa sobre o Brasil do futuro

– Para que tanto papel?

E ficou, por alguns instantes, observando a banca multicolorida, repleta de publicações. Revistas de moda, de culinária, de esportes, de decoração e arquitetura, de receitas, de telenovelas. Afora os jornais, com suas fotos e manchetes, empilhados, comunicando acontecimentos, requisitando atenção. Havia também livros numa prateleira, plastificados, anunciando filósofos, grandes pensadores, coisas assim. “Gente diabólica”, murmurou e foi se afastando.

Na lateral da banca, uns livros com capas sanguinolentas, mulheres seminuas, títulos chamativos em vermelho, em azul. Romances. Best Sellers. Romances? Aquilo era pornografia, bastava olhar a capa. Volumosos, tinham muitas páginas, muita coisa escrita. Para quê aquilo? Moças que lessem iam desembestar, querer ser iguais aos homens. E os rapazes? Iam virar comunistas, subversivos, defender revoluções, invejar a riqueza dos ricos.

Parou no meio-fio da avenida Getúlio Vargas. E ficou aguardando uma brecha para atravessar. A luz do sol naquele começo de manhã se refletia num átimo sobre o dorso dos automóveis que avançavam velozmente. Aproveitou para examinar as fachadas das lojas, os letreiros coloridos.

– Isso aí é que é leitura com utilidade!

Letreiro de loja, placa em esquina, os panfletos que se distribuíam pelas esquinas tinham sua utilidade. Informavam, esclareciam. Mas essa coisa de muito papel, de muita leitura, era inútil. Nem bíblico aquilo era. Tudo bem que a Bíblia tinha muita palavra, mas era diferente. É a Palavra de Deus. E todo mundo lia devagar, um versículo ou outro, nada de gastar vista, lacrimejar, se arriscar em muito debate, muita especulação.

– Mesmo que leitura demais endoida!

É o caso de muitos maconheiros. E também dessa turma de universidade, que fala muito e ninguém entende. Para quê tanta palavra, tanta conversa, tanto discurso, Deus do céu? Escola devia ser só para aprender a fazer conta, ler um bilhete, garatujar umas linhas, ler um versículo da Bíblia. É assim que qualquer país prospera. Tempo demais em escola devia ser aproveitado para o trabalho, para já ir aprendendo um ofício, uma profissão.

Estudar só para ser médico, engenheiro, profissão prática. Nada de teorias, de ideologias. Essas coisas são perigosas.

– Bom dia para você!

No cruzamento da Getúlio Vargas com a Barão do Rio Branco o sinal fechou. Aproveitou, então, para atravessar a avenida, ziguezagueando entre os automóveis retardatários. O vento suave e os passos apressados sacudiam um pouco a saia comprida, farfalhuda. O coque, hirto. Para onde ia com tanta pressa? Para uma consulta médica, no oculista. Estava enxergando pouco, precisava trocar os óculos.

Ah!



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