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Saúde

Cloroquina passa a status de ineficácia comprovada contra Covid-19; conselhos médicos pedem notificação de quem recomenda

21 de janeiro de 2021 | 18h 54
Cloroquina passa a status de ineficácia comprovada contra Covid-19; conselhos médicos pedem notificação de quem recomenda
Foto: Agência O Globo

O uso da hidroxicloroquina para tratar a Covid-19 acaba de ganhar um novo status: de medicamento “sem eficácia comprovada” passou a ser designado como fármaco de “ineficácia comprovada”. Segundo o colunista Rafael Garcia, do jornal O Globo, isto se deve ao protagonismo do remédio em uma infinidade de ensaios clínicos fracassados.

No Brasil, por causa dos resultados negativos, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e um grupo de ex-presidentes do Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgaram cartas, na semana passada, pedindo que as direções atuais das entidades notifiquem os médicos que ainda pregam o uso da cloroquina e de seus derivados, normalmente receitadas no contexto do que o Governo Federal chama de “tratamento precoce”.

Segundo outra reportagem de O Globo, apesar de Eduardo Pazuello ter negado, em cadeia nacional, que ele e o Ministério da Saúde não indicam o fármaco, o órgão disponibilizou uma plataforma para orientar médicos a prescreverem medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina a pessoas com sintomas de Covid-19, desde bebês a adultos. O site desmente, portanto, a afirmação do ministro de que nunca indicou ou autorizou sua pasta a indicar medicamentos contra Covid-19.

O jornal explica que a ferramenta, denominada TrateCOV, possibilita que profissionais de saúde reportem os sintomas. E, ao final, orienta que os médicos iniciem o que a pasta chama de “tratamento precoce”, com a prescrição dos medicamentos, que não têm eficácia comprovada contra a doença. A recomendação do aplicativo para tratamento com esses medicamentos foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

A título de comprovação, o Globo simulou os dados de um paciente na plataforma, reportando os sintomas da doença. No final do processo, o TrateCOV orientou o início do “tratamento precoce”. No entendimento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entretanto, não existe medida terapêutica cientificamente comprovada contra Covid-19. Desse modo, não é possível falar em “tratamento precoce” nem indicar remédios específicos.

De acordo com Rafael Garcia, o infectologista Mauro Schechter, que também é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse que os mais robustos estudos clínicos apontaram, em uníssono, para o fracasso da hidroxicloroquina contra a Covid-19. O médico, que vem compilando literatura técnica sobre o tema desde o início da pandemia, afirma que esse assunto está esgotado. “Eu desconheço qualquer outra droga cuja ineficácia tenha sido comprovada e que tenha sido alvo de tanta insistência em testes clínicos depois”, observou.

OMISSÃO – Conforme o articulista, com diversas sociedades médicas e centros de referência emitindo recomendações contrárias ao uso da droga, infectologistas brasileiros reclamam de omissão por parte do CFM. Esse não agir tem argumento: o de que médicos são autônomos para prescrever medicamentos a seus pacientes. Baseado nisso, o órgão de classe não emitiu recomendação contrária nem tem notificado médicos que adotaram a prática.

A prerrogativa, entretanto, não convence os ex-gestores do Conselho Federal de Medicina. A carta assinada por cinco deles chama o órgão à razão. “Conclamamos, por ser um imperativo ético, que o CFM oriente a população médica (...) evitando o uso de condutas terapêuticas sem respaldo científico; bem como a disseminação de informações falsas sobre a doença”, diz o documento.

PRESSÃO – Nos Estados Unidos, diz o articulista, um exemplo tem sido adotado para exercer pressão sobre as entidades de classe e autoridades sanitárias: o painel de revisão dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). O parecer atualiza, semanalmente, as recomendações, com base na literatura médica vigente. “O painel recomenda contra o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina, com ou sem azitromicina, para o tratamento de pacientes com Covid-19”, indica a versão mais recente do documento.

De acordo com O Globo, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), que emite recomendações para a sua especialidade médica, nominou as drogas que descarta. O último protocolo da entidade é claro quanto à não existência de fármacos e terapias precoces para a doença provocada pelo novo coronavírus: “A SBI não recomenda tratamento farmacológico precoce para COVID-19 com qualquer medicamento (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina,  azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal, dióxido de cloro), porque os estudos clínicos randomizados com grupo controle existentes até o momento não mostraram benefício”.

A infectologista Raquel Stucchi, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), disse que o CFM precisa deixar claro o que tem de evidência científica. Ela também condena a omissão do órgão em relação à questão. Para a docente, como já não há mais dúvida sobre a eficácia da cloroquina, sua prescrição não se trata mais de uma questão de autonomia profissional de indivíduos médicos.

VIOLAÇÃO ÉTICA – Ainda segundo o Globo, o infectologista Mauro Schechter levanta ainda uma questão importante: o problema da publicidade médica. Ele diz que muitos médicos que pregam abertamente o uso da cloroquina contra Covid-19 incorrem em violação de um artigo do Código de Ética da profissão, que versa contra a publicidade de terapias.

O jornalista Rafael Garcia destaca que se, de um lado, os conselhos sofrem pressão da comunidade médica para endurecer posição contra a cloroquina, por outro o Ministério da Saúde continua apregoando o uso do medicamento. Ele salientou que o jornal procurou o CFM, mas que a entidade não se manifestou sobre a questão específica da punição ética aos médicos, limitando-se a citar um dos pareceres emitidos no ano passado: “até o momento, não existem evidências  robustas  de  alta  qualidade  que  possibilitem  a  indicação  de  uma  terapia farmacológica específica para a Covid-19”.

O Cremesp, por sua vez, informou que vem combatendo tratamentos sem eficácia. A entidade citou sua condenação a um “soro da imunidade” anunciado como panaceia. No entanto, disse estar de acordo com o salvo-conduto dado, pelo CFM, a médicos que prescrevem hidroxicloroquina, sob a alegação de “excepcionalidade” da pandemia, o que resulta em não punição por infração ética. “No que diz respeito à publicidade, é vedado ao médico a divulgação de tratamentos sem comprovação científica, o sensacionalismo e a autopromoção”, afirmou a entidade, salientando que “ao divulgar informações sobre tratamento para a Covid-19, o médico deve estar atento aos limites da publicidade”.

Conforme a reportagem, o Cremesp afirmou que já abriu sindicâncias para apurar alguns casos que configuram comunicação indevida. O órgão não deu detalhes, uma vez que os processos correm em sigilo.



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