Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • 55 75 99801 5659
  • Feira de Santana, sexta, 05 de março de 2021

Saúde

Falta de insumos da China pode representar ameaça às vacinas do Butantan e da Fiocruz

18 de janeiro de 2021 | 14h 46
Falta de insumos da China pode representar ameaça às vacinas do Butantan e da Fiocruz
Foto: Reprodução

“Depois da festa da aprovação das vacinas, a ressaca da realidade cobra seu preço no Instituto Butantan e na Fundação Oswaldo Cruz”. Colunista da Folha de São Paulo, Igor Gielow chama a atenção do país para um problema iminente, em um momento de risco de colapsos sucessivos, pela explosão do número de casos e pela escassez de vagas em hospital e de outros insumos médicos, como o que ocorreu no Amazonas, semana passada, com a falta de cilindros de oxigênio, problema que levou à morte muitos pacientes.

Segundo o jornalista, os centros de imunizantes estão em alerta, em função do represamento de insumos para os fármacos, promovido pelo governo chinês. Em São Paulo, por exemplo, o estoque de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), princípio ativo da CoronaVac, só permitirá a formulação e o envase até o fim de janeiro. No Rio de Janeiro, ele lembra que a situação é bem pior: a entrega do insumo necessário à produção da vacina da AstraZeneca, desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, nem começou. O produto é esperado desde o final do ano passado.

Na tarde de ontem (17), São Paulo deu início à imunização com a CoronaVac (17), momentos depois de a Agência Nacional de Vigilância (Anvisa) aprovar o uso emergencial dos dois fármacos. O Ministério da Saúde acabou adiantando o início da imunização, por pressão dos governos estaduais. O ato foi simbólico e a distribuição nacional, conforme o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, já começou, o que pode permitir a alguns estados começar a aplicação da vacina até o fim da tarde desta segunda-feira (18).

Segundo Gielow, no Butantan, há hoje as 6 milhões de doses (1,5 milhão ainda a rotular) da CoronaVac, parte delas em seringas prontas, vindas da China. A outra parte foi formulada e envasada em ampolas no próprio Butantan. “Além disso, há insumos que totalizam mais 4,8 milhões de doses até 31 de janeiro. Depois disso, sem reposição, é seca. A última remessa de insumos que chegou ao país foi na virada do ano”, alerta o articulista.

O contrato de quase R$ 500 milhões, firmado entre São Paulo e a Sinovac, prevê um total de 46 milhões de doses até abril. O acordo inclui a opção de negociar mais 15 milhões, além da transferência de tecnologia para a fabricação do IFA no Brasil. Também foi acertado que mais 11 mil litros do insumo chegariam ao Brasil este mês. A quantidade é suficiente para produzir, aqui, cerca de 18,3 milhões. A carga, no entanto, está parada no aeroporto de Pequim. A liberação envolve diplomatas e o escritório de São Paulo em Xangai. E a expectativa é de que seja dividida em dois, para acelerar os trâmites.

Igor Gielow diz que, na Fiocruz, a situação é desalentadora. A fundação também tem um contrato, que prevê a aquisição de 100,4 milhões de doses e também a transferência de tecnologia do IFA, para a produção da vacina de Oxford. O Governo Federal se comprometeu a pagar R$ 1,9 bilhão. O problema é que a primeira carga, de 1 milhão de doses, era esperada para dezembro e foi adiada para 12 de janeiro, mas, até o momento, não chegou. “Contratualmente, metade das 100,4 milhões de doses deveria chegar ao país até abril e o resto até junho, para garantir vacinação até a produção nacional começar”, lembrou.

No Butantan, a situação é, teoricamente, menos complicada porque há a independência de produzir vacinas, a partir do zero, localmente. O jornalista salienta que os dois institutos preveem que isso ocorrerá a partir de meados do ano, mas observa que nenhum fala sobre o assunto. Isto por questões diplomáticas, uma vez que a embaixada do Brasil em Pequi foi acionada, na tentativa de elucidar as razões para a retenção das cargas.

A Folha de S.Paulo informa que procurou a Embaixada da China, mas não obteve resposta, até o momento. Segundo pessoas familiarizadas com o problema, ouvidas pelo jornal, ainda não há uma explicação clara. Entretanto, as suposições recaem sobre pressões nacionalistas acerca da vacina, que estariam ocorrendo na China. O cenário, conforme Gielow, não difere muito do que tornou a operação de trazer 2 milhões de doses prontas da vacina de Oxford da Índia “um vexame” diplomático.

O colunista ressalta que, apesar de já ter vacinado 10 milhões de pessoas com três imunizantes autorizados para uso emergencial, desde julho passado, incluindo a CoronaVac, a China tem a maior população do mundo, algo em torno de 1,4 bilhão de habitantes. Por isso, apesar ter controlado com mais sucesso a pandemia, que surgiu em seu território, no fim de 2019, o país asiático registra um percentual de vacinados ainda baixo: apenas 0,7% da população. Para se ter uma ideia, Nos Estados Unidos, seu maior rival geopolítico, 4,3% dos moradores já receberam algum tipo de imunizante, desde o início de sua campanha de vacinação, em 14 de dezembro de 2020.

O motivo da pressão, na China, também se deve ao ressurgimento de focos da doença em províncias do norte do país. “Como no caso indiano, que lançou sua campanha de vacinação enquanto o governo Bolsonaro adesivava um avião para ir buscar doses que não estavam disponíveis, o argumento de proteção nacional primeiro pode falar mais alto”, destacou Gielow, lembrando ainda que, de acordo com a Anvisa, a China produz 35% dos insumos farmacêuticos usados no Brasil e que a Índia, por sua vez, fabrica 73%.

A Folha de S.Paulo enfatiza que a escassez das vacinas contra a Covid-19 irá acentuar a discussão sobre a aplicação das doses, tema que já vem sendo analisado, há duas semanas, pelo governo paulista e que chegou a ser aventado pelo diretor do Butantan, Dimas Covas. Isto porque os imunizantes da Sinovac e da AstraZenenca necessitam de duas doses. Contudo, pesquisas recentes mostram que a eficácia do fármaco chinês aumenta se houver intervalo maior do que os 14 dias previstos entre as aplicações. A empresa fala em 70% de cobertura, percentual que se assemelha ao da concorrente.

No Reino Unido, a campanha da vacina de Oxford caminha no mesmo sentido. Segundo Igor Gielow, outros países europeus já adotaram a tática para o imunizante da Pfizer. “Maior espaço significa usar mais doses para mais pessoas, esticando prazos de entrega de novos lotes”, concluiu.


 



Saúde LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

CHARGE DO BOREGA

As mais lidas hoje