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Cultura

Morre Caculé, uma das figuras mais populares de Feira; ambulante é mais uma vítima da Covid-19

Ísis Moraes - 12 de janeiro de 2021 | 17h 19
Morre Caculé, uma das figuras mais populares de Feira; ambulante é mais uma vítima da Covid-19
Foto: Rachel Pinto/Acorda Cidade

Morreu, por volta das 5 horas da manhã desta terça-feira (12), José Pergentino da Silva, mais conhecido como Caculé. Uma das figuras mais populares de Feira de Santana, ele se dedicava a vender todo tipo de utensílios domésticos, caminhando, incansavelmente, pelo centro comercial.

Coisa rara é encontrar um morador da cidade que não saiba quem foi Caculé. Com seu chapéu e carregado com baldes, bacias, pentes, peneiras, vasos de planta, colheres de pau, tudo amarrado e pendurado ao corpo, o mercador perambulava entoando pregões, filosofando, proferindo adivinhações e cheirando rapé, produto medicinal, composto por pó de tabaco e de outras ervas, ao qual os mais velhos atribuem a capacidade curativa de doenças das vias respiratórias.

CURTA-METRAGEM – Caculé tinha todo um ritual de uso do rapé. Imagem, aliás, imortalizada, pelo cineasta feirense Volney Menezes, no curta “Caculé, o homem do rapé”, produção de cinco minutos que registra um fragmento da oralidade de um dos personagens mais conhecidos das ruas de Feira. No vídeo, o ambulante conta que ganhou esse apelido por falar “mais do que a nega do leite” e que, com o tempo, ninguém lembrava mais o nome dele.

De fato, Caculé “falava pelos cotovelos”. A política era um dos seus assuntos favoritos, mas também tinha fama de adivinhar o passado, o presente e o futuro. Em uma reportagem de 2017, publicada no Acorda Cidade, Rachel Pinto destacou que a conversa de Caculé era tanta, que, em determinado momento, chegava a ficar incompreensível.

“Em alguns minutos de bate-papo, ele dispara informações sobre todos os assuntos. Caculé sabe sobre história, cultura e todo o noticiário de jornal. Mas, o que ele mais gosta mesmo é de falar sobre política, Feira de Santana e fazer suas adivinhações”, relatou, salientando que, com tanto assunto, Caculé até se esquecia de vender seus produtos, qualquer um ao preço de “5 conto”, como gostava de dizer.

ADIVINHAÇÕES – Sobre pressagiar a vida das pessoas, ele falava que recebia orientações dos espíritos, já que se dizia médium de nascença, mas há quem diga que ele contava a mesma história a todo mundo, principalmente sobre o interlocutor ter uma bisavó índia e ser muito desconfiado, porém com variações, conforme lembra a jornalista.

Mas, na política de Feira, pelo menos, Caculé parece ter acertado. Na referida reportagem, ele disse: “Zé Ronaldo quer sair pro Senado, mas eu não sei se ele vai não. Porque eu acho que aqui ele não tem voto para Senado não. Agora pra deputado ele ganha. “Colbertzinho”, futuramente, vai ser o prefeito da Feira, agora ele não é como o pai”.

Natural da Paraíba, Caculé morava no bairro Queimadinha, em Feira de Santana, há muitos anos. Chegou aqui aos dez anos de idade e dizia gostar muito da cidade. “Entre tantas curiosidades e relatos engraçados, a simplicidade de Caculé e suas marcas da idade e da vida deixam transparecer a sua identidade de trabalhador, de gente que acorda cedo todos os dias e que caminha pela cidade, levando Feira de Santana no coração, bons sentimentos e muito bom humor”, definiu Rachel Pinto, lembrando que “Caculé é gente que escolheu Feira de Santana para viver, trabalhar e é também parte do nosso patrimônio histórico e cultural”.

Caculé foi mais uma vítima da Covid-19. Segundo a família, ele contraiu o vírus em dezembro de 2020 e foi internado com fortes dores no abdômen, tosse e falta de ar. Esta madrugada, porém, o ambulante não resistiu às complicações da doença e deixou Feira de Santana órfã de sua graça, histórias e mistérios.



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