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César Oliveira- Crônicas

Saborearte

César Oliveira - 04 de dezembro de 2020 | 20h 54
Saborearte

Tenho alguns vícios confessáveis. Ler e comer. Um, para alimentar o espírito, o outro, para saciar os instintos. Não necessariamente nessa ordem de preferência ou  intenções. Afinal, ainda que haja a navalha do peso,  ameaças apocalípticas  do colesterol e  da medicina,  comer  continua a ser  ritual de importância quase divina.  Não me refiro à comida da sobrevivência, mas à supérflua. Aquela,  ingerida  para satisfazer as células bestiais que anseiam o requinte de uma especiaria indiana, a festa dos sentidos causada por um creme de maracujá, servida em um prato largo, com  calda quente  e canela nas bordas,  a excitação diante de ostras gratinadas, ou de um Tiramissu. 

Até mesmo  a simplicidade de uma salada de melancia com creme de leite, do tomate batizado por manjericão, um peixe fresco assado na telha, na  praia,  ou o doce de tomate de minha mãe. Fraquejo, ainda, diante das tentações  da carne- e mente quem diz que a carne é fraca- e os molhos que adornam as massas com sabores de todas as latitudes. Como não faço restrições, nada a declarar contra o baião de dois, o mangalô,   a farofa de banana, o meninico de carneiro, ou a maniçoba de um domingão qualquer. Mas é que falamos aqui de outro clima, contexto e apetite. 

Comer é arte que vai além do mastigar automático dos maxilares. E, quem assistiu  Festa de Babette, sabe a magia de um banquete especial. Comer exige abnegação, entrega, sensibilidade. Desprendimento. Deve-se comer, buscando tudo, menos saciar a fome. Quem come para matar a fome não tem tempo para decifrar  as nuances de um tempero, de uma erva escondida por trás de muitos outros sabores, nem traduzir a alquimia das combinações. E Shakespeare já dizia, ou devia ter dito: “ Deus, está nos detalhes” É preciso, portanto, comer como quem ora, estando certo que comer começa muito antes do primeiro garfo adentrar o espaço sagrado de sua boca.  Comer envolve a iluminação local, a música, o tom do atendimento- não excessivamente íntimo, não irritantemente impessoal-, a decoração que  ameniza os olhos, a temperatura ambiente, por vezes desconfortável,  e o delicadíssimo cuidado com a limpeza e os toilletes.

A bebida deve ser um enlace que aguça e atiça os instintos para o ritual da alimentação, sempre, se possível, com a  companhia desejada. Embora estejamos longe do tempo em que se conquistava um homem pelo estômago, havendo fartura de argumentos mais prazerosos e tentadores, um jantar perfeito pode ser a passagem secreta para uma noite inesquecível e a posse definitiva da  alma e corpo do amado ou amada.  Nada deve destoar, pois os sentidos devem estar todos atendidos, para que você dedique seu humor e percepções exclusivamente à comida. Ah, mas há ainda a comida. Que deve ser satisfatória no trivial- qualidade mínima- e insuperável quando for ousadia. 

Um bom restaurante precisa não cometer pecados no deja vu e ser tão sedutor, quando inova,  como um decote feminino cortado na medida precisa. Aquele que sugere anatomia de beleza impensável, mas não revela tudo,  deixando parte da descoberta a quem lhe toma. As poções não devem deixar a impressão que somos um consumidor lesado, nem o prato deve demorar o tempo de uma gestação. A comida, entretanto, não deve apenas ter conteúdo. É preciso que tenha também beleza. Ainda que não artesanal como na cozinha japonesa-  que muito  se preocupa com a estética- mas deve ser ornamentada o suficiente para demonstrar engenhosidade e arte, pois  não se deve esquecer que o restaurante tem que  atender não só ao corpo, mas essencialmente ao espírito. Aliás, a ciência já sabe que a primeira fase da digestão - dita cefálica- começa antes que se coma o alimento. Não é a toa que andamos por aí a dizer que fulano ou fulana, nos deixa com água na boca.

Enfim, os orientais homenageiam seus mortos com comida, mas, eu, ocidental, pecador,  me rendo mesmo é  a celebração da vida. À mesa.



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