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André Pomponet

O choro da confraria dos sem-voto

André Pamponet - 24 de novembro de 2020 | 14h 33
O choro da confraria dos sem-voto
Neste Brasil de pouca inteligência e de muita truculência dos últimos tempos, virou moda candidato derrotado contestar resultado de eleição. A Feira de Santana não fica atrás: aqui a confraria dos sem-voto chora e range os dentes desde a eleição municipal passada. O que se vê, Brasil afora, são infundadas suspeitas sobre as urnas eletrônicas, sobre o sistema de totalização, sobre a lisura do processo. Os mais anacrônicos querem voto impresso para conferência – ou para controle dos amigos milicianos – como se faz, por exemplo, no jogo do bicho. Tudo choro de perdedor.
 
O sujeito esfalfa-se distribuindo dezenas de milhares de “santinhos”; desperdiça litros de saliva catequizando eleitor reticente; gasta fortunas bancando diárias para panfleteiros, financiando bandeiraços; e o despropósito investido em combustível, marmita, água, material de campanha? Muitos enxergam que esse esforço hercúleo tem que ser, necessariamente, recompensado. De preferência, com votação consagradora.
 
Isso se o eleitor traiçoeiro não enganasse candidato crédulo. E o eleitor baiano, então, é catedrático em desfaçatez. A solicitude, a cortesia, a simpatia, muitas vezes, são expedientes para encurtar a conversa e livrar-se da xaropada; entusiásticas declarações de apoio costumam embutir sádica falsidade; e até a disciplina simulada de quem se empenha na campanha como cabo eleitoral não passa de ardil para enganar os postulantes mais ingênuos.
 
Aqueles inocentes que aguardavam uma enxurrada de sufrágios – e que ainda estão aí, imersos na enganosa aclamação das ruas – são burlados nessa azáfama e precisam esfriar a cabeça, recapitular a campanha, desfazer ilusões. Há algo mais cruel que aquele otimismo insensato do eleitor? Quando o candidato se vai, tome comentário jocoso. Que dizer das adesões vibrantes de obscuras lideranças de bairro? Quando se apura, o sujeito tem só meia-dúzia de votos. Isso quando tem...
 
A situação nem nova é. No remoto outubro de 1958 o cronista Rubem Braga escreveu um texto primoroso comentando a candidatura de um amigo. O título é “Bilhete a um candidato”. Nele, o sujeito discorria, otimista, sobre os prováveis 3 mil votos que o levariam à Câmara Municipal do Rio de Janeiro naquele ano. Pelos seus cálculos, romperia a marca sem dificuldades. Irônico, Braga admitiu que nem mesmo ele votou no amigo. Mas deixou um recado consolador, que reproduzo:
 
“Vou lhe dizer uma coisa com toda a franqueza: foi melhor assim. Melhor para você. Essa nossa Câmara Municipal não era mesmo lugar para um sujeito decente como você! É super desmoralizada. Pense um pouco e me dará razão”.
 
Leiam o texto de Rubem Braga disponível na Internet, prezados candidatos, que ruminam, agora, suas mágoas. Leiam e reflitam sobretudo sobre este parágrafo derradeiro porque, talvez, ressoe como lenitivo em vossos corações...


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