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  • Feira de Santana, quarta, 25 de novembro de 2020

César Oliveira

O burrego de Irará e as obras viciadas

César Oliveira - 20 de novembro de 2020 | 14h 59
O burrego de Irará e as obras viciadas

Meu pai fez muitas coisas: foi comprador de  fumo, fez trabalho de empreitada, foi administrador de fazenda, salgou couro, foi açougueiro, e,  por fim, fazendeiro.  De tanto salgar couro o  sal roeu todas as suas unhas, motivo pelo qual sempre me lembro dele, de sua tatuagem da escassez,   como o homem das unhas de sal. De algum modo, ainda que sendo  menos que ele, sou seu legado. Sempre somos um legado, até quando falhamos.

Não sei quantas coisas sou, tenho, ou carrego, disso tudo, para o bem e para as minhas limitações, mas tínhamos um gosto em comum: carne de carneiro. Não com esse nome de carret, dos franceses esnobes, mas de um carneiro novo, um burrego, que ele gostava de comprar em Irará. Dizia que o clima favorecia carne de criação por lá, motivo pelo qual, de Jeep, e depois de Rural, íamos no sábado de manhã, bem cedo, à feira daquela cidade. No mercado municipal ele conhecia, e era conhecido, de quase todos,  e escolhia sabendo o que fazia. Costela, um coxão inteiro, que minha mãe- com maestria de cozinheira falada e refalada- fazia.

O coxão, preparado de véspera, lentamente assado ao forno, tem uns segredos para o tempero ficar na carne – e não vou entregar assim de bandeja- que só ela sabe, e ainda faz.  A carne vinha à mesa, desmanchando, de modo que nem precisava da faca para separar, de tão macio, tenro, capaz de converter abstêmios em glutões.  A crosta, em cima, era uma assinatura. E ainda  tinha o meninico, o sarapatel- que de tudo o carneiro produz delícias-  que ela explorava ao máximo. Acho que era do tempo que se conquistava o homem pela barriga. Hoje, em verdade-  nada contra- temos outros considerandos e atrativos.

Quando fui passando para a maioridade continuei indo com ele só que dirigindo a Rural e depois uma Belina. A estrada ainda era de terra, o carro sem ar, e íamos resfolegando na poeira, no cascalho, subindo e descendo o vidro quando passávamos pelas marinetes da Irará Transporte, de Reginaldo, um amigo dele, e na qual viajei muito entre sacos de feijão, galinha, gaiola, bocapiu, rolo de fumo, cabaça, e tudo mais que pudesse viajar naqueles ônibus, inclusive duzentos passageiros em pé, embarcados em duzentas paradas.

Com o progresso a estrada foi asfaltada, mas era desses asfaltos biodegradáveis, que enriquecem donos de borracharias, empresas de engenharia, e governantes, com seus contratos. Pois então, dia de ira de meu pai era quando íamos de Coração de Maria a Irará e o asfalto parecia uma tábua de tiro ao álvaro,  de tanto buraco. Com a paciência que lhe era peculiar e um método pedagógico próprio de ensinar o filho ele me cobria de impropérios cada vez que eu caia em um buraco, sendo burro, o mínimo, o que, refletindo hoje, e considerando o que já fiz, o deixa coberto de razão.

Com o tempo eu próprio  já escolhia o carneiro,  e isso, certamente,  é um incontestável atestado de maturidade e maioridade, pois, não é qualquer preparo que permite a sabedoria de identificar um burrego verdadeiro e não levar gato por lebre, ou botox por gatinha.

Pois bem, há mais de 50 anos vamos para as bandas do Irará, aos sábados- um gosto que minha mãe conservou-  em busca de um sabor da  memória, depois que ele se foi,  e a cada chuva, ano após ano, o asfalto derrete e esburaca do mesmo jeito, como atualmente,  mostrando que parece haver coisas que nunca mudam: o carneiro do Irará e as obras  viciadas.



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