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André Pomponet

Os cheiros do verão baiano

André Pamponet - 09 de novembro de 2020 | 13h 33
Os cheiros do verão baiano
Num ano remoto, bem no começo da adolescência, passei parte do verão em Salvador. No sítio amplo conheci familiares, fiz muitas amizades e, até hoje, guardo ternas e inesquecíveis recordações daqueles dias. Foi lá que se fixaram, para mim, os cheiros do verão. Cheiros tropicais, intensos, sensuais até: das mangas maduras, convidativas, nas inúmeras mangueiras; das jacas moles, cor de ouro, partidas e consumidas com voracidade; e dos cajus vermelhos e amarelos, de sabor suave, que pendem graciosamente dos cajueiros.
 
Desde então, à medida que o verão se aproxima, as lembranças desses cheiros se ativam nas circunstâncias mais inesperadas. Nesta semana de trovoadas que apenas se insinuam aqui na Feira de Santana – mas que caem rijas, caudalosas, Bahia afora – a nebulosidade, a brisa úmida e a expectativa muda que dança na atmosfera despertaram, mais uma vez, essas recordações.
 
Peguei-me matutando: será que os cajueiros já floriram no rural feirense? Soube que sim. Nos janeiros fartos a fruta abunda nos baldes e cestos nas frenéticas artérias do centro da cidade e no Centro de Abastecimento, sempre agitado. Nas cozinhas, o caju torna-se matéria-prima para sucos e doces e, pelos botequins feirenses, os devotos da caninha endereçam olhares ternos para a fruta que contracena tão bem com a aguardente.
 
São mais escassas as soberbas jaqueiras aqui na Feira de Santana. Mas a fruta é comum nas feiras-livres, nos mercadinhos de bairro. A jaca dura é vendida em fatias. Afinal, as famílias encolheram e poucos dão conta de tanta fartura. Muitos enjoam, jaca exige paladar afinado. Lembro que, naquele verão longínquo, comíamos jaca logo cedo, sob a sombra generosa de uma jaqueira qualquer que, generosamente, cedia seus frutos...
 
E as mangueiras? As mangueiras que teimam em muitos quintais feirenses oferecem sombra farta, frutos saborosos e abrigo para os pássaros. Às vezes ouve-se até um sabiá magistral numa destas árvores. E o feirense, enlevado, reconecta-se àquela paz que só a natureza proporciona. Noto que muitas mangueiras estão florindo e, nalgumas delas, os frutos, bem miúdos, já desabrocham.
 
Mas nada me reconecta tanto com o passado como aqueles momentos que sucedem uma trovoada. Sobretudo essas de começo de tarde. Permanece, no ar, um cheiro intenso de terra molhada; a temperatura amena – que dura só alguns instantes e é cariciosa – dá uma tênue sensação de leveza; e o canto dos pássaros – inspirados nos meses ensolarados – completa o cenário. Mas tudo é muito breve, como os mais magníficos espetáculos da natureza.
 
Apesar das chuvas intensas que caíram sobre toda a Bahia, a Feira de Santana só registrou chuva miúda. Nada daquelas trovoadas temíveis, tão aguardadas pelos sertanejos e que, por instantes, permitem esse alumbramento efêmero que é a conexão consigo mesmo e com as mais doces recordações do passado...


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