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André Pomponet

O preço salgado da carne suína no Centro de Abastecimento

André Pamponet - 29 de outubro de 2020 | 14h 26
O preço salgado da carne suína no Centro de Abastecimento
– Antes eu ‘matava’ seis porcos. Agora só dois e olhe lá. A situação começou a piorar depois da pandemia. Mas acho que, lá para janeiro, o preço começa a baixar.
 
Não, não há nenhum engano na frase. A demanda por carne suína caiu, mas os preços dispararam. A lição é de um antigo comerciante ali do Centro de Abastecimento e das feiras-livres da Feira de Santana. Antes da pandemia, o preço da linguiça de porco ou da salpresa, a carne suína salgada, estava em R$ 22. Agora, não sai por menos de R$ 30.
 
Ele explica que o produto vem de Minas Gerais. Além de atender mercados Brasil afora, os fornecedores exportam. E encontraram na China um lucrativo mercado em 2020. É que lá uma doença exigiu o sacrifício de parte do efetivo no começo do ano. Assim, os chineses foram forçados a importar o produto, inclusive do Brasil. Como a oferta não se ampliou, os preços explodiram. Pior para quem compra em real.
 
Nosso interlocutor, porém, não domina esses detalhes. Mas conhece o mercado e projeta que, no começo do ano que vem, os preços tendem a cair. O que o incomoda são as perspectivas sombrias para o mercado interno. Afinal, o Brasil vai enveredar por 2021 com milhões de desempregados, renda achatada e sem o auxílio emergencial. Para piorar tudo, a Covid-19 segue na praça.
 
O preço da carne-seca – o jabá do nordestino ou a charque do sulista – também subiu: R$ 33, com expressiva variação nos balcões do Centro de Abastecimento. O baiano, que gosta de incrementar o feijão com um pedaço de carne salgada, está penando para manter o hábito. A escalada dos preços, porém, não se limita às carnes, irradiando-se por boa parte dos alimentos que compõem a cesta básica.
 
Parte do problema se deve às condições atípicas de 2020, com essa pandemia que, até agora, não arrefeceu. Mas a crença pueril nos mecanismos do “deus mercado” e a bruta incompetência da trupe de Jair Bolsonaro, o “mito”, potencializaram o desastre. É o caso do arroz: ao abrir mão dos estoques reguladores, o governo alavancou a abrupta oscilação de preços, penalizando o consumidor. Graças à ignorância e, claro, à crença cega na badalada “mão invisível” do imortal economista escocês Adam Smith.
 
A turma do Planalto Central – aquela que dispõe de faustosos almoços garantidos – tem um singelo consolo na ponta da língua: lá na frente, os preços caem. Mas, e quem não tem poupança e precisa se alimentar aqui e agora? Para esses, provavelmente, vale a grotesca recomendação do “mito”: “Vá comprar na Venezuela”. Noutras palavras: o pobre que se exploda, como diria Justo Veríssimo, a personagem do genial Chico Anysio.
 
O brasileiro costuma cultivar a crença de que “tudo se ajeita”. Esse “tudo”, obviamente, não abarca este governo de destrambelhados. Os dois próximos anos – aqueles da apoteótica campanha reeleitoral do “mito” – serão duríssimos para o brasileiro médio, que não conta com político amigo para empregá-lo, nem teve “mérito” para amealhar fortuna antes da Covid-19.
 
Mas tudo pode piorar. É que, mais à frente, querem plebiscito para mudar a Constituição de 1988. Afinal, segundo a turma do “Centrão”, o brasileiro tem muito direito e pouco dever...


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