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  • Feira de Santana, segunda, 21 de setembro de 2020

André Pomponet

É tempo de pipa nos céus da Feira

André Pamponet - 07 de agosto de 2020 | 14h 24
É tempo de pipa nos céus da Feira
É tempo de pipa nos céus da Feira de Santana. Aqui, da janela de isolado social, acompanho o balé destes brinquedos no céu da Queimadinha. É melhor vê-los nas tardes de sol: multicoloridos, produzem um contraste vivo com a amplidão e o azul da amplidão. Mas tem chovido muito e, em boa parte dos dias, o céu é um teto baixo de nuvens cor de chumbo, com seus crepúsculos castanhos. Até quando o sol aparece, muitas vezes, há nuvens – pardacentas, encardidas – que diminuem a visibilidade do espetáculo. Mas, mesmo assim, acompanho-o nos momentos de ócio.
 
Noutros tempo existia a raia – artefato semelhante, mas quadrangular – e, o que vejo, à distância, assemelha-se muito àquelas pipas graúdas que se empinam nos céus encardidos das grandes metrópoles. São até mais belas e imponentes e, sob o balanço do vento, bailem com a mesma graça. As caudas – o termo “técnico” dos tempos de infância escapou-me aqui – que auxiliam na navegação aérea são portentosos e dançam, elegantes, com o sopro da brisa.
 
As pipas não desbravam o céu solitárias: há, sempre, várias contracenando num balé ininterrupto. A brincadeira – que atrai crianças e adolescentes entusiasmados – não se esgota com as pipas no céu: há, ali, uma batalha ferrenha, que muitas vezes só termina quando há apenas uma delas no céu. É o que, noutros tempos, se chamava de “toque”: a batalha que só termina quando uma pipa se desprende no ar, melancolicamente, levada pelo vento, com a linha cortada pela linha mais afiada de outra pipa.
 
É o “tempero” que faz as linhas se romperem quando se entrelaçam. “Tempero” é uma mistura de cola e vidro pisado, aplicado nas linhas. Apesar da competição, os meninos que se movem, ágeis, sobretudo divertem-se, mesmo quando se enredam numa dessas disputas que elevam, às nuvens, gritos, impropérios e interjeições, no tom feliz e despreocupado da infância.
 
Nessas disputas, quando uma das pipas se desgarra, um enxame de garotos corre, veloz, para recolher o brinquedo. Alguns recorrem a cabos de vassoura e pedaços de pau para levar vantagem sobre aqueles que só dispõem das próprias mãos ávidas. Quem perde no “toque” não requisita a pipa de volta e aceita o revés. Esse é um dos códigos misteriosos que rege o lúdico ofício de empinar pipas.
 
O espetáculo que, às vezes, acompanho, nos finais de tarde – entardeceres castanhos e amarelados se sucedem, conforme a disposição das nuvens no céu de inverno feirense – traz recordações muito vívidas da minha infância. É que, menino, fui entusiasmado pelas raias, no começo do distante ano de 1986. Foi tempo de raia de janeiro a março. Ficava na rua da Palma, lá no Sobradinho, empinando, acompanhando os “toques”, até que a noite caía e ficava impossível manter o artefato no céu com a escuridão.
 
Ouvíamos, então, o coaxar dos sapos e das jias nos brejos miúdos que os olhos d’água formavam. Num, bem mais amplo – de lá, avistávamos a saída da Feira-Serrinha, para além do casario das Baraúnas de Cima, numa época de poucas casas – havia misteriosas taboas, que despertavam nossas imaginações infantis. Alguns asseveravam que, ali, encafuavam-se perigosas cobras d’água. No céu de verão, estrelas cintilavam, vívidas, mesmo com a iluminação urbana.
 
Uma intensa – inesquecível – sensação do que é a liberdade ficou como legado daquelas tardes, que nem foram tantas. Mas tudo era tão profundo que equivalia a uma vida inteira. Quando se torna adulto, o menino percebe, desolado, que aquela sensação pueril se foi. Para nunca mais? Não, às vezes, ela emerge – irreprimível – do peito, fortalecendo a convicção de que a vida vale a pena e se deve prosseguir na caminhada... 
 
 


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