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André Pomponet

E se a Feira tivesse crescido às margens do Jacuípe?

André Pomponet - 14 de julho de 2020 | 13h 32
E se a Feira tivesse crescido às margens do Jacuípe?

E se a Feira de Santana tivesse crescido para os lados do Rio Jacuípe? Essa especulação veio à mente quando admirava, aqui da janela de isolado social, aquela espécie vale que a BR 116 Sul percorre, conduzindo ao Jacuípe, na saída da Princesa do Sertão. No entorno, colinas curtas, muito verdes nas manhãs de inverno com o céu limpo. Mais além, montanhas azuis, muito redondas, quase se mesclando com o azul do céu. Dali para a frente, os sertões estendendo-se, infindáveis, em direção ao oeste.

Lá nos primórdios, no século XIX, a antiga povoação foi se expandido voltada para o norte, para São José das Itapororocas. Era de lá que vinham as extensas boiadas que iam abastecer de carne Salvador e o Recôncavo pulsante, prenhes de intensa atividade econômica naqueles tempos. Talvez haja essa reverência inconsciente à pecuária, o que inspirou a antiga povoação voltada em direção àquela direção.

Mas trata-se de mera especulação, exercício que consome tempo nessa época de pandemia da Covid-19. É mais certo que a simetria em relação a São José – importante referência populacional naqueles tempos – deva-se à pragmática inclinação para o eixo vibrante da economia feirense. Afinal, daquelas cercanias emergiam as boiadas que iam ser negociadas na feira-livre das segundas-feiras. Aquele era o rumo habitual de quem palmilhava o sertão.

É possível cogitar, também, que aquela região do Jacuípe tenha sido descartada, lá atrás, por causa do declive constante que vai até a margem do rio. Expandir área urbana recorrendo a um declive – quando se dispunha de uma campina quase perfeitamente plana sem limites – era algo pouco pragmático. E o pragmatismo, como se sabe, costuma nortear muitas decisões econômicas embora, não necessariamente, implique na regra.

Mesmo assim, contornei esses obstáculos e me mantive firme, especulando sobre o hipotético futuro da Feira de Santana às margens do Jacuípe. Imagino que, caso a cidade se estendesse até as barrancas que limitam a lâmina d’água, um prefeito visionário teria, há tempos, investido numa agradável orla fluvial. Um calçadão, quiosques, atracadouros, equipamentos de lazer e restaurantes servindo o peixe pescado ali mesmo magnetizariam o feirense, estacando a migração sazonal para o litoral baiano.

Os efeitos iriam muito mais longe, alcançando outras dimensões da vida. O feirense teria menos essa sisudez, essa índole arredia, essa circunspecção comum entre os sertanejos. A proximidade da água e de seus encantos tornariam o feirense mais irreverente, mais cordial, mas amistoso, como a gente do Recôncavo. A vocação comercial da cidade seria temperada por essa simpatia que, talvez, nos lançasse noutro patamar de civilidade.

Haveria, também, um inequívoco apelo turístico. O burburinho comum às orlas fluviais – com seus rumorosos frequentadores, entusiasmados pela vida – talvez atraísse os endinheirados turistas de negócios. Lá se espalhariam, obviamente, hotéis para acomodar essa gente, com a tentadora vista para o rio. E quantos empregos seriam gerados com a dinâmica própria do turismo?

Tudo isso, porém, é especulação de um começo de tarde ensolarada de domingo. Inútil, porque nada aconteceu e não é possível editar o passado, como é moda entre muitos malucos por aí. Creio que o silêncio dos finais-de-semanas – ainda bem as casacas-de-couro e os bem-te-vis mantém a sonora ração de poesia – favorece esses devaneios, essas absurdas reflexões. Mas, até nisso, há também um quê de cogitação. Enfim, enquanto o “novo normal” não se firma, nos concedemos o luxo dessas estéreis divagações.

Mas que essas especulações entusiasmam o espírito vadio, disso não tenho a menor dúvida...



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