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André Pomponet

O legado dos escritores-jornalistas

André Pamponet - 13 de julho de 2020 | 14h 14
O legado dos escritores-jornalistas
Em literatura sempre tive inclinação por autores que foram jornalistas. No começo não houve, aí, um movimento deliberado, óbvio. Só tempos depois, quando já agregara ao currículo um acervo razoável de obras lidas – para os padrões de um principiante –, é que fui me dar conta da coincidência. Entre os brasileiros, comecei por Graciliano Ramos, que na juventude mourejara em banca de revisão de jornais do Rio de Janeiro. O estilo seco e a escassez de adjetivos, para mim, representaram uma experiência muito marcante.
 
“São Bernardo” e “Vidas Secas” trazem muito desse estilo seco, da economia de palavras comum ao jornalismo. Em ambas as obras se nota o esforço tenaz para suprimir tudo aquilo que não é indispensável, essencial, imprescindível. É óbvio que o texto magistral e a imersão na análise psicológica das personagens vão muito além do jornalismo, torna-os obras literárias perenes. Mas há, aí, o gene jornalístico, sem dúvida.
 
Depois – quando já estava na redação do extinto Feira Hoje – investia parte do salário numa daquelas coletâneas de grandes autores que se vendiam em bancas de jornal. Através de uma delas fui apresentado a Albert Camus, o notável escritor franco-argelino. “O Estrangeiro” – uma das mais importantes estreias da literatura mundial – me fascinou logo nas primeiras frases.
 
O magnífico romance sobre um sujeito mediano, exposto a uma rotina enfadonha, e que depois mata um árabe da praia, foi impactante. Afinal, como é que alguém conseguia dizer tanta coisa – e, sobretudo, estimular a imaginação do leitor – escrevendo magras cem páginas? Levou tempo, mas mais à frente fui aprendendo – principalmente em relação ao jornalismo – que recorrer às expressões precisas e ao formato enxuto comunica mais que as narrativas caudalosas, que as torrentes de palavras.
 
Naquela mesma época li “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. À semelhança de Camus, também ele militara no jornalismo. Essa militância legou evidente influência sobre sua literatura: seu mais destacado romance – uma novela, sob critérios mais rigorosos –, “O Velho e o Mar”, é um relato curto, sem firulas, sobre a pesca de um peixe gigantesco por um velho pescador solitário.
 
Hemingway viajou pelo mundo e produziu reportagens em vários continentes. Ele até se aventurou pela formulação teórica, lançando uma coleção de regras que deveriam ser aplicadas no cotidiano do jornalismo. A concisão e a objetividade, obviamente, figuravam entre as recomendações, que o acompanharam também quando abandonou as redações para se dedicar à literatura.
 
Anos depois, quando percebi a feliz convergência entre jornalismo e minhas predileções literárias, dediquei mais atenção aos autores que encararam a labuta das redações em algum momento da vida. Entre eles, Gabriel Garcia Marques, autor do monumental “Cem anos de Solidão”. Esse, o avesso daquela literatura concisa, mas jornalista mesmo enfronhado no realismo fantástico.
 
Essa gente produziu literatura a partir de trajetórias jornalísticas. Mas houve quem produzisse jornalismo com alta qualidade literária. Também me aventurei lendo autores do naipe de John Reed e Truman Capote, dois jornalistas norte-americanos dos mais brilhantes. Eles, porém, ficam como matéria-prima para um próximo artigo...
 


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