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  • Feira de Santana, sábado, 15 de agosto de 2020

André Pomponet

Pachamama

André Pamponet - 08 de julho de 2020 | 14h 24
Pachamama
Em agosto de 1988 vivi uma curta aventura infantil: visitei uma chácara nas cercanias da Feira de Santana. Foi numa inesquecível tarde de inverno. Chovia miúdo e nuvens brancas – de um tom encardido – se estendiam por todo o céu. Ventava frio naquela campina extensa ao norte da Princesa do Sertão. Um vizinho – falecido já há muitos anos – convidou meu pai e, obviamente, fui a tiracolo, encantando com a inesperada oportunidade de me afastar dos limites da cidade.
 
Na Caravan antiga – cor de cobre fosco – que balançava terrivelmente, com aquele ininterrupto rangido metálico, ele foi louvando a natureza, o bucolismo da vida rural, enquanto a garoa reluzia sob a luz baça da tarde lá fora. Ali na BR 116 Norte o motor roncou e o veículo enveredou por uma das ruas laterais do Parque Ipê. Bem lá adiante, desembocamos numa estrada estreita, de piso arenoso, ladeada por chácaras.
 
– A terra é uma mãe! 
 
Exclamou o vizinho, comovido, quando desenterrou algumas raízes de aipim do solo esbranquiçado. Colheu também umas espigas de milho nos fundos da casa modesta, malcuidada. Lembro também do feijão-de-corda, de um verde viçoso, de uns abacaxis que aguardavam, pacientes, amadurecer. Guardou tudo no porta-malas da antiga Caravan, estacionada no terreiro.
 
A chuva cessara, mas o vento frio avançava pela vegetação, açoitando quem saíra sem agasalho. Na chácara miúda, árvores esparsas – lembro de uma jaqueira robusta, de uns humildes coqueiros sertanejos, de troncos inclinados – e um terreiro acanhado, cujo chão arenoso refletia a luz pálida da tarde. “A terra é uma mãe”, repetia o vizinho – os olhos cintilantes –, satisfeito com aquela colheita.
 
Quando a Caravan despontou no Sobradinho, roncando aflita, as lâmpadas nos postes lançavam uma luz mortiça. Os feirenses voltavam apressados do centro da cidade, descontentes com o frio inusitado, com aquele prolongado período chuvoso que se estendia até às consagradas noites vazias de agosto.
 
Agosto ainda não chegou, mas o conturbado 2020 guarda semelhanças com aquele inverno distante. Chove há tempos e inesperadas garoas dissipam as lembranças do verão escaldante. No campo, muita gente já colhe o que plantou desde março, quando vistosas tempestades se desprenderam do céu. O estio imprevisto dos últimos dias, porém, lançou alguma inquietação:
 
– Rapaz, tem que voltar a chover senão o pessoal perde o feijão. A planta não aguenta esse sol, não – Comentou, no curto bate-papo desses tempos de pandemia, um morador da Matinha dos Pretos. Sorriso amplo, ele espanta-se com a fartura para quem tem seu pedaço de chão.
 
Esteticamente, a tarde de ontem (07) foi de uma tristonha garoa: poças no chão, vento frio, céu com tez de lâmina de aço, escassos passantes pelas ruas desertas, longos silêncios rompidos por vozes distantes. Quem labuta no campo, no entanto, enxergou foi o tom vivo das lavouras e, talvez, tenha esfregado as mãos como Fabiano, de “Vidas Secas”, do mestre Graciliano Ramos, que já mencionei aqui... 
    
 
 
   
 


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