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César Oliveira

Os afetos perdidos, as culpas, e os mortos

César Oliveira - 22 de junho de 2020 | 11h 05
Os afetos perdidos, as culpas, e os mortos
Ninguém sabe quantos afetos e histórias há em um milhão de pacientes, ou 50.000 mil mortos, por Covid19. Quantas angústias temporárias e quantas dores definitivas terão ficado na alma das famílias, submetidas a uma pandemia inesperada e dolorosa, pois, o luto incompleto e a morte anônima impõem outra perda além da habitual. Quando submetido a uma força incontrolável que lhe tira a vida o humano tende a conformar-se, pois, sabe que não estava no seu alcance, da ciência, ou do poder público lhe salvar. Não repara a falta, mas ameniza a impotência. Entretanto, quando ficamos com a sensação de que nem tudo que era possível para salvar vidas foi tentado, o luto se alonga, a raiva aflora, a dor aguça, a fraqueza da impotência, humilha.
 
No Brasil, que lentamente foi adquirindo a lideranças do número de vidas perdidas, não há como evitar a sensação de omissão, ou erro, das autoridades responsáveis, inclusive, o Presidente da República. O desastre pode ser medido pela demissão de dois ministros da Saúde e um ministério militarizado, com alta densidade de força e limitadíssima densidade de ciência, justamente o elemento mais essencial ao enfrentamento. Como se já não fosse pouco a falta de empatia e de solidariedade que mantém com as vítimas, expressas em frases como é uma “gripezinha”, “vão morrer alguns idosos”, “é invenção da imprensa”, “eu não sou coveiro”, “e dai?”, ele, ainda tentou, ao fim, esconder os números da pandemia e terceirizar a culpa para governadores, que não a podem ter, sozinhos. Até mesmo as boas medidas econômicas não foram corretamente comunicadas, para aliviar a população.
 
Em verdade, o presidente funcionou como força contrária até a atos comprovadamente benéficos de redução da contaminação como uso de máscaras e distanciamento social. Não há relativização possível a respeito da responsabilidade lhe cabe, pois, vivenciamos aqui – nesse ponto não só por ele, mas por muitos-, o mais bizarro e perigoso modelo de enfrentamento a essa doença originária da China.
 
Foi por esse conjunto de falta de liderança central, governadores corruptos, ativismo de redes sociais divulgando informações imprecisas, OMS incompetente, atos irresponsáveis, que construímos esse silêncio fúnebre de 50 mil vozes ausentes- por enquanto-, inaudíveis, mas sinalizadoras de uma ensurdecedora tragédia biológica, política, e sobretudo humana. Não haverá reparações e o tempo não apagará os heróis, especialmente os da saúde, nem esquecerá de cobrar os que contribuíram para ampliar sua magnitude, e retirar vidas do seu caminho natural.
 
As vidas que se perderam antes de serem todas vividas, os afetos que sobraram antes de serem todos esgotados, as memórias que não puderam ser finalizadas, não podem ser apenas soluços perdidos. Elas devem nos lembrar que os sinos dobram por todos nós- ou quase todos- e devemos a elas a compunção por não termos lutado toda luta possível, o enternecimento que a irmandade da dor constrói, e a força de nos mantermos indignados
 


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