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André Pomponet

A literatura como antídoto ao isolamento

André Pomponet - 02 de abril de 2020 | 08h 01
A literatura como antídoto ao isolamento

É necessário reconhecer que o isolamento social imposto pela epidemia de coronavírus oferece algumas – poucas – vantagens. Uma delas é a reaproximação – para quem aprecia os bons livros – da literatura. Na rotina normal é necessário esforço para manter os vínculos com os grandes autores: o trabalho, o trânsito, o convívio social, as aporrinhações do cotidiano, tudo isso impõe um pesaroso distanciamento. Com algum tempo disponível, é possível reatar esses laços.

Meses atrás gente consagrada da literatura brasileira foi alvejada por uma controversa medida do governo de Roraima: Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade – entre outros grandes escritores – figuraram numa index da Secretaria de Educação daquele estado. O escândalo – felizmente medidas do gênero ainda repercutem muito mal – abortou a iniciativa. Mas é bom ficar atento.

Lembro de uma piada antiga, que circulou durante a ditadura de Getúlio Vargas, lá em meados dos anos 1930: um obtuso censor impediu a publicação, num jornal, de um trecho do Sermão da Montanha. O autor do célebre discurso? Ninguém menos que Jesus Cristo. A anedota – alguns afirmavam que foi fato – atestava a indigência intelectual de quem pelejava contra o universo das letras.

A pitoresca index laica lá de Roraima alveja Euclides da Cunha – ironicamente “Os Sertões”, em muitos trechos, exalta o Exército, que conduziu aquele massacre – e Machado de Assis, coitado, que sempre manteve distância prudente de controversas questões sociais. É provável que a censura ao “Bruxo do Cosme Velho” se devesse mais à sua linguagem rebuscada – para os grosseirões da extrema-direita – que às suas sofisticadas incursões psicológicas.

Pois bem: confesso a posse não apenas de “Os Sertões”, como de parte da prolífica produção machadiana. Vício antigo: aqui ou ali é bom revisitar a jornada de Euclides da Cunha pelo inóspito sertão baiano ou imergir nas intrincadas análises psicológicas de Machado de Assis, com sua literatura aparentemente rósea para os pouco sofisticados.

Lê-lo provoca prazer redobrado a quem se aventura pelas ruas do centro antigo do Rio de Janeiro. Quem, leitor do “Bruxo do Cosme Velho”, envereda indiferente pela rua do Ouvidor, pela rua da Quitanda, pela Lapa? Prenhes de História, aquelas artérias estão também impregnadas do espírito de Machado de Assis.

Por enquanto, ninguém se arvorou a ampliar a index, estendê-la para o Brasil inteiro, adotá-la de fato. Então, durante o inevitável isolamento, é bom devassar a bela literatura brasileira, conhecer seus grandes autores, não temer se perder e, lá adiante, se achar novamente.

Aqui há o hábito mesquinho de desmerecer as grandezas de fato que o País produz. Gente como Euclides da Cunha, Machado de Assis e Mário de Andrade figuram – com certeza – no rol dos grandes brasileiros. Merecem toda a reverência e, sobretudo, a leitura e a releitura de sua inestimável contribuição.



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