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César Oliveira

Gripezinha sim, gripezinha não

César Oliveira - 22 de março de 2020 | 10h 46
Gripezinha sim, gripezinha não

Gripezinha sim

Dráuzio Varella, um bom e humanista médico- salvo no caso da entrevista trans-, Bolsonaro, e outros, tem dito que é uma gripezinha do vírus chinês e sido crucificados por isso. Eles estão certos? Sim, estão, essa é mesmo uma gripezinha. A mortalidade média situa-se na faixa de 2,3 a 3%, ou seja, 97% dos pacientes que contraírem a doença irão sobreviver. Esses dados são influenciados porque boa parte do mundo não faz teste maciço, então não é feito diagnóstico dos casos pouco sintomáticos, o que baixaria ainda mais a taxa de mortalidade.  Olhando os dados de hoje temos 315.796 casos e 13596 mortos, confirmando a baixa letalidade.  A gripe sazonal mata em torno de 250,000 pessoas no mundo todo ano. Tem taxa de mortalidade de 0,5 a 1%, com o mesmo perfil de aumento em idosos e indivíduos com comorbidades.  A gripe suína tem mortalidade de 0,02% e a SARS, que já foi uma outra ameaça chinesa, em torno de 9,6%, portanto, como eles dizem essa é sim, uma gripezinha sim. Do ponto de vista epidemiológico eles estão certos. Mais ciência e menos lata, por favor.

 

Gripezinha não

Ora, o que faz então o mundo estar em estado de histeria? Porque esse vírus tem um poder de contágio assombroso, uma evolução extremamente rápida nos casos graves para uma dependência de assistência ventilatória precoce e porque ninguém que ser um número na estatística de morte, afinal, há sempre uma chance. E aqui entram os fatores complicadores. O primeiro é o aumento da taxa de mortalidade em idosos, e portadores de doença crônica.  A mortalidade em crianças e jovens é ínfima, abaixo de 60anos é de 1,3%, entre 60-70a é de 3,6%, de 70 a 80a é de 8.0% e acima de 80 é de 15 a 21%. Em alguns países, como EUA, no entanto, 40% dos internados tinham menos de 55 anos. O segundo fator é a incapacidade de assistência hospitalar para os pacientes que necessitam do hospital e os 30% que precisam de UTI. A nossa rede hospitalar foi sucateada de 2010 a 2018 com perda de 34 mil leitos e aqui na Bahia, 3000 leitos, que farão falta. Temos 14 mil leitos de UTI que já estão ocupados e não temos respiradores suficientes.  O ridículo investimento de R$1 real / habitante em saúde nos cobrará, agora, esse descuido. Portanto, é grande a chance da doença contagiar nossos idosos, e, contagiados, não terem a chance de sobreviverem. Além disso, a influenza tem vacina, o contágio é muito menor, e sua mortalidade é continuada e não com esse perfil geométrico. Considerando-se esses aspectos- e eles não podem ser desprezaods-, essa não é uma gripezinha não.  Tenho alertado desde o início que é uma falha grave essa abordagem.

Enfrentamento

Já que estamos diante de um cenário de alto contágio, baixa capacidade de resposta, ausência de tratamento e mortalidade alta em grupos de risco, temos duas maneiras de enfrentamento: isolamento social e testagem maciça, ou as duas combinadas. Há sucessos nas duas ações.  A Coréia fez pouco isolamento, mas fazia 15 mil testes por dia e isolava quem era detectado. Isso reduziu a multiplicação do vírus. A quarentena era severa, e punida. Tinha pulseiras com chip de localização e tudo mais. A China fechou o país, fez muitos testes e controlou seu vírus Chinês. Sim, Chinês. Espanha e Itália, não fizeram nenhuma das duas medidas e vivem o caos na saúde. Argumenta-se que o teste maciço poderia dar falso negativo, embora não se saiba em que percentual. Ora, ainda que dê 20% é melhor 20 espalhando o vírus do que 100. É lógica elementar. O Brasil optou por uma quarentena meia boca, com teste só em internados ou casos com contato e agora o governo anuncia mudança de estratégia e vai comprar testes para fazer testagem ampliada (ainda vai comprar, o que acho uma falha, mas antes tarde do que nunca.

 

Economia

O governo tem de pensar na economia? Tem sim, não está errado, pois, uma deflação será outro caos e deve buscar o melhor equilíbrio entre proteção e contenção e garantia de abastecimento de suprimentos, remédios, insumos, e todo mais necessário ao funcionamento do país. Aeroportos, estradas, precisam estar disponíveis para manter as pessoas assistidas, mas deslocamentos desnecessários, em áreas positivas devem ser desestimulados.  Restrições e isolamentos devem ser específicos, controlados, monitorizados. Cultos, igrejas, devem sim ser fechadas, pois Singapura e Coréia já mostraram que suas maiores fontes de disseminação foram eventos religiosos.

 

Política

A politização da pandemia por alguns políticos, e parte da imprensa, é tão doentia quando a COVID-19. O governo tem agido bem, na maioria absoluta das ações, mas Bolsonaro tem sido infeliz em suas  declarações.

 

Final

Siga sem pânico, mas com disciplina, proteção e cuidado.

 



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