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Segurança

O silêncio adoece, diz vítima de violência sexual

Ísis Moraes/ Karoliny Dias - 06 de dezembro de 2019 | 11h 32
O silêncio adoece, diz vítima de violência sexual
Foto: Reprodução

Em uma sociedade machista, é inegável a vulnerabilidade da mulher, que, muitas vezes indefesa, acaba violada e humilhada, em contextos absolutamente normais do cotidiano: andar nas ruas; ir à escola ou à faculdade; pegar um transporte para se deslocar até o trabalho; estar em sua própria casa.

Independente de horário, uma média de 180 mulheres é estuprada, por dia, no Brasil, segundo dados notificados, ou seja, registrados nas delegacias de polícia do país. Em 2018, foram denunciados 66 mil casos de violência sexual. Número considerado o mais alto, desde o ano de 2009, de acordo com dados das Secretarias de Segurança Públicas (SSP) de todos os estados.

Esses números, no entanto, estão longe de representar a realidade. Há um universo desconhecido de casos subnotificados. De acordo com o Ministério Público Federal (MPF) e com o Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), as ocorrências de estupro registradas podem representar, apenas, 10% do total.

Contabilizando as notificações do Sistema Único de Saúde (SUS), isto é, o número de vítimas de estupro atendidas na rede pública hospitalar, e levando em consideração a subnotificação, já que a esmagadora maioria não denuncia, oficialmente, o crime, o Atlas da Violência chegou a uma estimativa assustadora: entre 300 mil e 500 mil estupros, a cada ano, o que eleva, sobremaneira, o cálculo diário. O documento presume que ocorrem de 822 a 1.370 estupros, a cada 24 horas.

Se pensarmos que, por desconhecimento, muitas vítimas sequer se dirigem aos hospitais, por acharem que é necessário um Boletim de Ocorrência (BO) ou outro documento que comprove o estupro, perdemos completamente a noção de quantas vítimas são violentadas, diariamente, nesse país.

Os órgãos competentes também dão conta de que, do total de vítimas, 82% são mulheres. Mas não podemos deixar de refletir que a subnotificação também pode mascarar esse dado, ainda que a maioria das vítimas seja, de fato, do sexo feminino. Vale lembrar que as ocorrências de estupro de homens são pouco descritas e raramente registradas. Mas estima-se que um a cada seis homens foi vítima de violência sexual antes dos 16 anos de idade.

Outro fator que mascara as estatísticas é o fato de o ato libidinoso em homens ser de mais difícil comprovação, especialmente quando o intervalo entre a agressão e o exame sexológico é longo. Nesse contexto, os sinais objetivos para a validação clínica do abuso ou para a identificação do agressor desaparecem, tornando pouco provável a confirmação por meio de pesquisa de espermatozoide e sêmen.

Não resta dúvida, no entanto, que o principal fator que nos afasta do número real de vítimas do sexo feminino e do sexo masculino ainda é a decisão de não registrar queixa. E isso tem inúmeros motivos: medo de sofrer retaliação, por parte do agressor; receio do julgamento que irá receber da sociedade ou, até mesmo, da família; falta de confiança nas instituições públicas; ser menor de idade.

Tudo isso nos leva a refletir que se há um fato incontestável, é que, no Brasil, a cultura do estupro ainda assombra, sobretudo, as mulheres. Frases como essas não são difíceis de ser lidas ou ditas, quando se relata um caso de violência sexual envolvendo uma vítima do sexo feminino: “o que ela queria a essa hora da noite andando sozinha?”; “também, com essa roupa curta, estava pedindo”. Mas enquanto afirmações desse tipo continuarem sendo usadas como justificativa para o estupro, essa cultura se perpetuará.

De acordo com o Centro das Mulheres da Universidade Marshall, nos Estados Unidos, o termo “cultura do estupro” é utilizado para descrever um ambiente no qual essa agressão é predominante e no qual a violência sexual contra as mulheres é normalizada, na mídia e no cotidiano.

A dor que um crime como esse pode gerar é indescritível. A repórter Karoliny Brito conversou com uma vítima de estupro. Transcrevemos, abaixo, o relato. É forte e doloroso. Trata-se da história real de uma mulher que convive, todos os dias, com a culpa e com a dor de ter sido vítima desse tipo de violência, em dois momentos de sua vida.

As palavras utilizadas podem ser chocantes, pois descrevem atos sexuais e de violência. Atendendo a solicitação da vítima, preservamos a sua identidade. Respeitamos o seu direito ao anonimato. Aos 36 anos, ela recomenda aos pais: “encorajem as meninas!”

 

O RELATO, NA ÍNTEGRA:

“O primeiro crime de violência sexual aconteceu na minha infância. Dos sete aos 12 anos, um amigo da família abusava de mim todas as vezes que tinha oportunidade. Meu pai trabalhava viajando muito e, algumas vezes, eu precisava dormir na casa dos meus padrinhos, por conta da logística para a escola, já que eles moravam vizinho de onde eu estudava e o filho deles era meu colega de sala.

Na casa dos meus padrinhos, morava um sobrinho deles, que, na época, já era adulto. Ele tinha 30 anos. No início, eu não entendia direito o motivo de ele sempre entrar no quarto onde eu dormia e tocar minhas partes íntimas. Masturbava-se e me obrigava a fazer sexo oral nele. Eu não sabia o que era aquilo e não tinha o discernimento de entender e contar aos meus pais ou aos meus padrinhos.

Fui crescendo e aquilo acontecendo sempre que eu precisava ir para a casa deles. Eu não sei explicar o porquê de nunca, em um período de oito anos, ter tido coragem de contar a alguém. Por muitos anos, já na minha fase adulta, eu me culpava por aquilo. Mas, hoje, eu entendo que a culpa não era minha, por não ter tido a coragem de falar. A culpa era dele, que é um psicopata, doente. Quando ele foi embora da cidade, eu chorei de joelhos e agradeci a Deus. Mesmo sendo apenas uma criança, entendi que era a resposta às minhas orações. Que era a forma de Deus acabar com aquilo tudo.

Mais recentemente, há quatro anos, em janeiro de 2015, eu voltava de uma confraternização, com umas amigas, em Salvador. O prédio onde eu morava não tinha garagem para dois carros. Por isso o do meu companheiro ficava na garagem e o meu na rua. Estacionei, desci do carro e um homem me pegou pelo braço. Ele me jogou dentro de um carro, me obrigou a beber algo e lembro que ele colocava uma toalha molhada no meu rosto. Outro homem dirigia o carro. Acordei na madrugada, num matagal. Era um local deserto, próximo ao aeroporto de Salvador. Eu não sentia meu corpo. Doía tudo. Eu não conseguia me mexer. Cerca de 30 minutos se passaram até eu conseguir entender o que poderia ter acontecido. Fui lembrando, aos poucos. Minha roupa estava amontoada perto de mim. Minha bolsa, com meus pertences, mas o celular não.

Eu não conseguia ver uma forma de pedir socorro. Não havia casas. Tentei levantar e percebi sangue. Doía tudo e eu não conseguia andar. Orei por uns 30 minutos. O dia estava amanhecendo e passou um senhor de bicicleta. Eu não sabia se gritava por socorro ou se me calava e me escondia. Consegui dar sinal e ele se aproximou. Eu não estava vestida. Só me escondia com a própria roupa e chorava. Ele entendeu a minha situação. Quis ligar para alguém da família dele, para pedir socorro, mas eu só pedia que ele ligasse para a polícia e para meu companheiro, que, depois, soube que estava sem dormir, preocupado porque eu não havia voltado para casa.

A polícia chegou e me levou direto para a delegacia. Foi um processo tão doloroso quanto ter acordado e me visto ali, impotente, sem saber o que fazer. Fiz exames, tomei medicações, mas não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. Eu só chorava. Eu queria morrer. Eu não queria que ninguém, além daquele senhor, da polícia e do meu companheiro, soubesse.

Demorei uma semana para conseguir voltar à rotina de trabalho. Até hoje, lembro-me de tudo, quando acordo e quando vou dormir. De tudo. Do que aconteceu na minha infância e adolescência e do caso de quatro anos atrás. Eu choro. Eu sinto a mesma dor física, como se tivesse acontecido agora. Mas sigo a vida. Com medo de tudo e de todos. Revoltada por saber que não temos o direito de ir e vir, principalmente nós, mulheres.

Eu já vinha sendo acompanhada psicologicamente, desde os meus 28 anos. Hoje, tenho 36. Na época do ocorrido em Salvador, não queria mais fazer terapia. Eu achava que nada fazia mais sentido, que não adiantava cuidar de mim, porque, a qualquer momento, iria aparecer alguém e acabar com meu psicológico, novamente. Afastei-me, por um ano. Nesse tempo, voltei a morar em Feira e retornei à terapia. Acredito que é muito importante esse acompanhamento, independente do tipo de violência que a mulher sofre. Não sei como é feito esse processo com pessoas que não podem pagar pela consulta, mas, até hoje, sigo pagando particular.

Com relação à ajuda do poder público, acho que falta entendimento. Não só do poder público, mas de toda a sociedade. Eu NUNCA tive coragem de contar sobre o ocorrido a ninguém, com exceção de duas amigas e do meu ex-companheiro. Há o medo do julgamento. Há o medo de as pessoas dizerem que é para aparecer. Há o medo de as pessoas taxarem você de coitadinha. Há o medo de as pessoas duvidarem do que você está falando. São tantas coisas em jogo...

Preferi me calar e cuidar de mim. Hoje, entendo, perfeitamente, que não tive culpa de nada. Eu me solidarizo muito com mulheres que sofrem qualquer tipo de abuso. Não consigo ler as notícias e sair ilesa. Eu sempre choro, peço a Deus pelas mulheres, que elas consigam ser curadas das dores física e psicológica. Não há nada mais cruel do que ser violentada. Não há!

Acho que a sociedade precisa entender isso, sabe? Acho que as mulheres, principalmente, precisam sair dos discursos prontos de internet e fazer algo. Acho que deveriam existir grupos de mulheres, para se ajudarem; algo que todas pudessem ter acesso.

Eu já pensei em sair por aí falando sobre a minha história e encorajando jovens a denunciar esses psicopatas. A coragem que eu não tive naquela época queria que as meninas de hoje tivessem.

Aquele homem que fez o que fez comigo, na minha infância e pré-adolescência, vive uma vida normal, hoje. Impune! Eu não consegui falar, denunciar. Hoje, não adianta mais eu fazer isso. Mas eu queria muito que as crianças e adolescentes de hoje tivessem esse discernimento de contar, de conversar com os pais. Talvez isso se aprenda na escola, talvez conversando com mais velhos. Eu, realmente, acho que algo precisa ser feito.

O meu conselho para alguém que já passou pelo que eu passei é: fale. Fale sobre. Faça acompanhamento psicológico. Se se sentir à vontade, converse, com amigas, sobre. O silêncio nos adoece. Aquilo que eu não fiz, há vinte anos, ensinem suas filhas a fazerem. Ensinem que elas não têm culpa pelos erros dos outros. Encorajem as meninas! Conversem muito com elas.

Se o seu caso é algo parecido com o meu já na fase adulta, procure terapia, denuncie, tente manter sua vida, normalmente. Chore. Chore quantas vezes sentir a dor. Ore. Peça a Deus orientação e que afaste todos os fantasmas de você. Lembre que você não é culpada. Lembre sempre que a sua vida vale mais do que a psicopatia do outro. Vai doer, toda vez que você lembrar, mas sempre haverá outro dia, pessoas e momentos que nos arrancarão um sorriso.”



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