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Cultura

Memória e História se entrelaçam em projeto criado pela Prefeitura Municipal

Ísis Moraes - 05 de dezembro de 2019 | 15h 13
Memória e História se entrelaçam em projeto criado pela Prefeitura Municipal
Foto: Acervo Memorial da Feira/ Reprodução

A relação entre memória e história é fundamental para a manutenção da nossa identidade, pois nela reside o que somos, enquanto povo, em três espaços temporais: passado, presente e futuro. Quando destruímos nossos referenciais materiais e entregamos nossos bens imateriais ao esquecimento, perdemos a nossa essência e relegamos a nossa existência às engrenagens que movem o mundo, sem qualquer resistência. E existir não deve ser um exercício maquinal. Existir pressupõe gravar, no tempo, a marca indelével do que nos constitui como indivíduos pertencentes a uma coletividade. Não sobrevivemos, à voracidade do tempo, sozinhos.

Embora a construção das narrativas sobre o passadoseja uma questão controversa, porque há, nela, o que o sociólogo Michael Pollak chama de “zona de sombras”, isto é, a interferência inevitável de elementos subjetivos de natureza discursiva, interpretativa, afetiva, moral, social, ideológica, identitária e até mesmo política, o que faz da memória um lugar de negociação cultural e a história transitar, portanto, no interstício traiçoeiro entre a lembrança e o esquecimento, é um mecanismo essencial para resgatar o que está, temporalmente, distante e preservar nossas origens, modo de vida, cultura.

Mas acessar a memória coletiva por meio da memória individual é apenas uma forma de se conhecer o passado. Arquivos e obras de arte também são cruciais para a recomposição desse intrincado tecido histórico composto por pessoas, personagens e lugares. E cabe aos historiadores, pesquisadores, memorialistas, artistas e jornalistas a tarefa de lançar luz sobre o passado, dando, aos cidadãos comuns, a oportunidade de entender, pertencer e se identificar com o local onde vivem.

Nunca é demasiado lembrar que, sem memória, uma cidade não tem história. E foi justamente pensando nisso que a Secretaria Municipal de Comunicação Social (Secom) lançou, no dia 7 de outubro, o projeto Memorial da Feira, uma plataforma digital para compartilhamento de produções audiovisuais próprias e de fotos, vídeos e documentos pertencentes a acervos pessoais, que retratam ou estão relacionados com a Feira de Santana antiga.

De acordo com o jornalista Valdomiro Silva, que comanda a Secom, a proposta de criar um local para a salvaguarda desse material foi aceita, de imediato, pelo prefeito Colbert Martins Filho. Segundo ele, a prefeitura deu todas as condições necessárias para a implantação do projeto, que tem por objetivo a divulgação da memória histórica, cultural, arquitetônica e afetiva da cidade.

O secretário de comunicação diz ainda que o portal tem atualização permanente e que o tratamento dado ao material veiculado é absolutamente rigoroso quanto à autenticidade e à credibilidade, a fim de garantir que os conteúdos sejam fontes fidedignas de pesquisa. “O material é bastante plural e diz respeito a tudo que possa ter alguma relevância na formação da cidade: personagens políticos, intelectuais e culturais; figuras que tenham marcado suas trajetórias através de trabalhos sociais ou que tenham atuado na nossa economia; festejos populares; templos religiosos; prédios públicos e particulares significativos; visitas ilustres. É bastante coisa”, enumera.

Valdomiro Silva ressalva que, embora interativo, o canal não tem o intuito de travar batalhas, discussões ou polemizar sobre posicionamentos diversos. Ele lembra, no entanto, que toda a comunidade está convidada a contribuir com o acervo. “Buscamos, apenas, o registro histórico dos fatos, inclusive apresentar mais de uma versão, caso haja controvérsias. Mas qualquer pessoa pode cooperar com a pesquisa ou disponibilizar fotos, vídeos e documentos de seus acervos pessoais. Basta dirigir-se à Secom e procurar o jornalista Marcondes Araujo, que é o organizador do projeto, ou enviar o material através do e-mail memorialdafeira@gmail.com”, convoca.

Desde a sua concepção, o Memorial da Feira vem contando com a colaboração de alguns pesquisadores da cidade, a exemplo do jornalista Adilson Simas, do professor Raimundo Gama, do memorialista Antonio do Lajedinho, do artista plástico Juraci Dórea, da professora Cíntia Portugal, do jornalista Dimas Oliveira, do historiador Helder Alencar, do arquivista Alonso Amaral, do fotógrafo Antônio Carlos Magalhães e do professor Carlos Mello, além da Fundação Senhor dos Passos. “Estamos no início de um trabalho que precisa receber sugestões da sociedade, tanto para ampliar o acervo do portal, quanto para eventuais ajustes, que possam melhorar, cada vez mais, essa ferramenta”, observa o chefe da Secom.

Na opinião de Valdomiro Silva, o projeto tem um custo relativamente baixo, se comparado à sua magnitude. “Imagino que esse seja nosso feito mais significativo, para a população, justamente por se tratar de um tema ainda pouco explorado, nas administrações públicas. Também pela longevidade e relevância que o projeto tem e terá daqui a 50 ou 100 anos. É algo que deve permanecer para sempre”, almeja.

DISPONÍVEL – De acordo com Marcondes Araujo, o portal está divido em quatro seções: Panoramas da Feira, Personalidades da Feira, Fotos da Feira e Relíquias da Feira. Ele salienta que, até o momento, o site conta com 235 fotografias antigas da cidade e 30 vídeos, 14 deles produzidos pela própria equipe técnica do projeto e 16 pertencentes a arquivos de terceiros, sendo a maioria catalogada pela Fundação Senhor dos Passos.

Dentre o material de produção própria, o jornalista destaca o minidocumentário no qual o artista plástico Juraci Dórea fala sobre a arquitetura eclética de Feira de Santana, tema de seu último livro, e os vídeos sobre o cineasta Olney São Paulo e os artistas plásticos Raimundo de Oliveira e Carlo Barbosa, que projetaram a cidade no cenário artístico nacional. “Agora, estamos finalizando um vídeo sobre o poeta romântico e abolicionista Sales Barbosa, a partir de depoimento da professora Cíntia Portugal, que fez uma preciosa pesquisa sobre a vida dessa personalidade feirense ainda desconhecida pela grande maioria de seus conterrâneos, e outro sobre a artesã Crispina dos Santos, importante representante da nossa cultura popular, com texto, narração e imagens produzidos por Juraci Dórea”, destaca.

Marcondes Araujo enfatiza ainda que, entre as produções audiovisuais pertencentes a arquivos de terceiros, dois vídeos raros, ambientados na Feira de Santana de 1920, chamam a atenção. “Um foi produzido pelo etnógrafo e jornalista Cornélio Pires e outro pelo viajante alemão Gunther Plüschow. Também merecem destaque três filmes de Olney São Paulo: Pinto vem aí, Um crime na rua e Como nasce uma cidade, além de áudios dos discursos proferidos, pelos vereadores locais, na histórica sessão que resultou na deposição do então prefeito Francisco Pinto, por ocasião do Golpe Militar de 1964”, frisa.

Na seção Fotos da Feira, o jornalista revela que há imagens inéditas da feira livre da cidade, realizadas, por Juraci Dórea, em 1976, um ano antes de sua extinção. “Além disso, destaco uma foto raríssima da visita de Ruy Barbosa a Feira de Santana, cedida pelo professor Raimundo Gama, na qual o jurista aparece cercado por líderes feirenses. Também a fotografia da visita do presidente Getúlio Vargas, em 1933, na qual aparece acompanhado por membros de sua comitiva pessoal, dentre eles o General Góes Monteiro, então ministro da Viação, e o famoso escritor José Américo de Almeida, autor do célebre romance A Bagaceira, publicado em 1928”, menciona, lembrando ainda que mais quatro documentários sobre importantes lideranças políticas do município estão em fase de produção: Chico Pinto, João Durval Carneiro, José Falcão da Silva e Colbert Martins da Silva.

O organizador do Memorial da Feira diz que as postagens têm sido realizadas, pelo menos, três vezes por semana. Para ele, tem sido uma experiência fascinante desenvolver esse projeto. “Está me levando a conhecer melhor a história de Feira de Santana e a estreitar meus laços afetivos com a cidade. Mas estou enfrentando uma dificuldade: a grande maioria das fotos a que tenho acesso carece de informações básicas, como datas e nomes das pessoas que aparecem nelas, mas claro que isso está sendo um desafio prazeroso, pois preciso pesquisar e entrar em contato com vários memorialistas, a fim de conseguir as identificações necessárias para fazer as legendas”, revela.

Dada a importância dessa iniciativa, Marcondes Araújo diz que uma união de esforços é necessária, para facilitar o acesso e possibilitar que as pessoas, sobretudo pesquisadores e estudantes, tenham informações básicas sobre a história de Feira de Santana. O conteúdo disponível no portal pode ser acessado através do seguinte endereço eletrônico: http://www.feiradesantana.ba.gov.br/memorialdafeira/index.asp.



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