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César Oliveira

O ensino médico, o doente, e a formação de gigantes

César Oliveira - 16 de julho de 2019 | 18h 31
O ensino médico, o doente, e a formação de gigantes

Não se pode ser médico tendo apenas as mãos habilitadas, mas mantendo a alma sem compaixão. Claro que ser médico é ter o dever de exercer a técnica com maestria, e para isso há cursos, reciclagens, treinamentos, artigos, e muitas opções de atualização. Verdade que, com o ritmo que as pesquisas estão ganhando, estamos sempre aquém da informação mais atual, mas podemos combater diariamente o fato que 50% do conhecimento médico é ultrapassado a cada 10-20 anos.

Essa prática está mudando de forma radical com a tecnologia, os algoritmos, a Inteligência Artificial, que tenderão a fazer de forma mais precisa- sem cansaço, sem vieses, e mais barato-, o que fazemos. Há, no entanto, algo mais vasto e poderoso que a técnica, e pelos quais os pacientes se guiam: a confiança, a segurança, que só o médico é capaz de oferecer, pois, o doente é sempre alguém frágil, despido de suas certezas e discursos, de sua infalibilidade.

O doente é, essencialmente, uma lágrima, e tanto maior ela será quanto mais grave for sua doença. É dessa habilidade em lidar com a lágrima do outro que fazemos a separação entre os normais- importantes-, e os gigantes - essenciais. Certo que podemos fazer cursos de psicologia, de relação interpessoal, mas diria que há algo inato, algo de pequeno milagre, na capacidade que cada um tem de acolher um doente em seus medos, seus segredos, e lhe oferecer uma saída, seja a cura, o alívio, ou a mais confortável convivência com o tempo que resta. Na Medicina, não há cais em remansos, e sim, em tempestades.

Quando somos ensinados, ou ensinamos, temos por foco tornar o médico “maximamente eficiente e minimamente invasivo à integridade física, econômica e afetiva do paciente”como digo aos alunos. Cumpro o ofício que me é dado como professor, mas confesso que gostaria muito mais de saber habilitar almas que cérebros, porque domar a técnica, é um dever, uma obrigação, com tempo finito; ensinar uma alma a lidar com o limite, ou escolhas, da vida, é imenso, e, por vezes, tarefa de uma existência inteira.

Exige ler muito para desvendar o humano, ter domínio absoluto das palavras, do tom, da mensagem a ser entregue, pois, ela precisa ser otimista, sem ser falsa; realista, sem ser desesperançosa, esse, talvez, o mais importante item terapêutico. Nós médicos, precisamos ser vendedores de esperança. Em medidas precisas, adequadas a cada momento, pois, sabemos que o que separa o remédio do veneno é mesmo, a dose.

O humano é uma vastidão, e, por vezes, para encontrar sua sensação real diante da doença, da culpa, da aceitação, ou do arrependimento, é preciso debulhar a casca de suas falas- por vezes agressiva,por vezes medrosa, indiferente, arrogante -, limpar esses grãos, e encontrar lá no centro um lugar digno, acolhedor, para esse enfrentamento.

Às vezes, um médico só está completo quando vivenciou suas próprias perdas e aprende a contar de saudade e falta; às vezes, nunca, ficará.

Precisamos falar muito mais sobre isso com nossos alunos. É o que forma gigantes.



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