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  • Feira de Santana, segunda, 19 de agosto de 2019

André Pomponet

Sensação de que o trabalho infantil cresce em Feira

André Pomponet - 15 de julho de 2019 | 18h 32
Sensação de que o trabalho infantil cresce em Feira

Nos intervalos das conversas, entre goles cerveja e a mastigação do tira-gosto, os freqüentadores dos bares feirenses costumam ser abordados por incontáveis ambulantes. Vendem de tudo: amendoim cozido ou torrado, meias, cintos, pen drives e cd´s, capas de celular e mais uma infinidade de quinquilharias. A maioria é homem que, com a crise, perdeu o trabalho modesto e foi forçada a recorrer a essas empreitadas pelas ruas feirenses. Às vezes, vêem-se mulheres, mercadejando os mesmos produtos.

Profunda e interminável, a crise ampliou muito o contingente de pessoas que tentam sobreviver vendendo coisa miúda pelas mesas dos bares. A pele parda ou preta, a origem periférica, a instrução escassa e a distância do mercado formal de trabalho são características comuns. Tragicamente, a faixa etária vem se ampliando: quem observa com alguma atenção nota que cresceu – e muito – o número de crianças nessas atividades.

Boa parte é bem jovem: há meninas que não chegaram, sequer, aos 10 anos de idade; alguns adolescentes apregoam, súplices, seus produtos, mas já exibem traços de revolta no lábio contraído e no olhar arisco; quase todos circulam andrajosos e não é raro se ver criança descalça pisando o asfalto pegajoso das ruas feirenses.

- Tio, compra pra me ajudar...

É a forma mais comum de abordagem. Às vezes insistem um pouco mais, com aqueles trejeitos tipicamente infantis. Então seguem adiante, em muitos casos sob o olhar atento de um adulto que explora esses infelizes. O drama do trabalho infantil sempre esteve presente no centro da Feira de Santana. Mas vem se acentuando desde 2015, com o início da recessão, conforme apontado. Aumentou também a quantidade de mendigos e pedintes, o que inclui crianças, até mesmo de colo.

Em momentos como esse as iniciativas de proteção social deveriam ser fortalecidas. Mas, no Brasil e na Feira de Santana, aconteceu o contrário: caiu o número de famílias que contam com benefícios como o Bolsa Família. A austeridade seletiva abalroou justamente os mais pobres e ajuda a amplificar a miséria.

Piorando tudo, está aí Jair Bolsonaro (PSL-RJ) defendendo o trabalho infantil. Muitos julgam que suas declarações polêmicas são tentativa de encobrir a desastrosa gestão que ele conduz com exímia imperícia. Pode até ser. Mas não deixam de refletir a visão de mundo do controverso mandatário e o papel que ele vê reservado para os mais pobres.

A miséria e a exclusão estão aí, visíveis aos olhos de todos. Espantosamente, não existe nenhuma proposta para contê-las, atenuá-las. Ao contrário: as medidas draconianas adotadas nos últimos anos tendem a tornar tudo muito pior. Teto de gastos, revogação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), desmonte da Previdência e sucateamento dos serviços públicos integram o roteiro da exclusão.

E crianças que deveriam estar na escola vagam entre as mesas dos bares, confirmando que, no Brasil, o futuro se parece cada vez mais com o passado...



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