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  • Feira de Santana, sábado, 16 de novembro de 2019

Cultura

Livros como exercício de resistência

Ísis Moraes - 19 de junho de 2019 | 17h 25
Livros como exercício de resistência
Foto: Ísis Moraes

"Um mundo sem literatura se transformaria num mundo sem desejos, sem ideais, sem desobediência, um mundo de autômatos privados daquilo que torna humano um ser humano: a capacidade de sair de si mesmo e de se transformar em outro, em outros, modelados pela argila dos nossos sonhos".

(Mario Vargas Llosa)

 

“Somos um país que não lê”. Repetida à exaustão, a frase parece ser só um clichê, mas, infelizmente, não é. Apenas uma pequena parcela da população brasileira cultiva o hábito de ler. Com regularidade, então, há menos leitores ainda. Dados de 2016 revelam que os brasileiros leem, em média, 2,43 livros por ano. Índice baixíssimo, se comparado aos de outros países. E que aponta para uma realidade pouco animadora: o comprometimento do seu desenvolvimento futuro, não apenas cultural, mas também econômico, social e político.

A falta de leitura é uma das mazelas históricas desse país e contribui, cada vez mais, para o empobrecimento dos debates, conforme ressalta Davi Lago, escritor e mestre em Filosofia do Direito. Isto porque a prática da leitura é extremamente importante para ampliar o raciocínio, o senso crítico e a capacidade de interpretação de um ser humano.

Claro que há casos excepcionais entre os indivíduos que não leem. Há pessoas que nunca foram alfabetizadas ou que nunca leram um livro, mas que demonstram imensa sabedoria, um senso comum naturalmente aguçado, capaz de ler o mundo com grande inteligência e sensibilidade. Mario Quintana diz exatamente isso – irônico, mas magistral –, em um poema: “A ignorância rasa e simples é coisa honesta e conserva desanuviado o entendimento. Mas Deus te livre, meu filho, da ignorância complicada”.

É da “ignorância complicada” que o Brasil padece. Ela é a regra, especialmente quando a grande massa não tem acesso a uma educação de qualidade, à cultura e, sobretudo, à leitura. É este dispositivo, especialmente, que, na imensa maioria dos casos, promove o amadurecimento do espírito, da perspectiva crítica, da interpretação atenta da realidade, da postura ativa frente a um cotidiano brutal e esmagador. Davi Lago, uma vez mais: “o que é a realidade senão a leitura que fazemos dela?”

Sem o instrumental correto, o povo é um organismo fraturado em milhares de indivíduos, que deambulam em “estado de semicegueira”, como define Marshal Berman, no livro Tudo que é sólido desmancha no ar. Ler é uma forma de resistir às forças que regem o mundo e aliciam o signo humano, alijando-o do centro das decisões. Um povo sem educação, sem cultura e sem leitura não entende a sua real função. Não sabe que também é uma força e que pode exercer a dose certa de pressão, para aliviar seus ombros da carga imposta pelos que controlam seu destino. Talvez por isso esse país assista, passivamente, há 500 anos, ao seu esboroamento.

E como é difícil publicar livros em um país que não lê! Tarefa das mais inglórias, em um mercado editorial onde só as empresas gigantes têm vez; invadido por best-sellers internacionais rasos e dispostos a salvar a complexa humanidade com fórmulas simplistas; onde a literatura de melhor qualidade empoeira ao rés do chão das grandes livrarias; onde, na grande maioria das vezes, os novatos se desencontram do sonho de ver suas primeiras obras espelhadas nas vitrines. O cenário não é animador. Mas há quem resista, por si e pela literatura.

HERA – Em Feira de Santana, cidade que, curiosamente, sempre foi celeiro de grandes escritores (Aloísio Resende, Godofredo Filho, Eurico Alves viveram para provar isso), apesar do parco incentivo à boa formação educacional e do baixíssimo apoio institucional à cultura e à arte, jovens escritores tiveram e continuam tendo a oportunidade de publicar, graças ao trabalho abnegado de alguns escritores, professores e editores, como, por exemplo, Antonio Brasileiro, que, na década de 1960, criou as Edições Cordel, lançando revistas de grande importância na cena literária baiana, como Cordel e Serial.

Mais tarde, já na década de 1970, Brasileiro, reunindo seus mais talentosos alunos do Colégio Estadual de Feira de Santana, fundou, junto com eles, o Grupo Hera, responsável pelo surgimento da Revista Hera. E tamanha era a qualidade da publicação, que projetou, nacionalmente, o nome da cidade, chamando a atenção até mesmo de escritores consagrados e críticos literários renomados, como Carlos Drummond de Andrade, cuja carta enviada ao grupo estampa a contracapa da edição fac-similar que reúne todos os números de Hera, publicada pela Fundação Pedro Calmon, em 2010, e Affonso Romano de Sant’Anna.

“Tanta bobagem passando por poesia é publicada, com destaque, na imprensa do Rio e São Paulo, que ler esses poetas de ‘Hera’ é um refrigério. A poesia é um mistério. Ela sopra onde quer. Enquanto alguns zumbis perdidos na pós-modernidade ficam alardeando a morte da arte e a morte da poesia, ela surge generosa, jovem e necessária. Como nesses poetas de Feira de Santana”, disse Affonso Romano, em entrevista à Rádio Metrópole, no dia 4 de janeiro de 2013.

Antonio Brasileiro foi convocado a ensinar a enfadonha e pouco relevante Educação Moral e Cívica imposta pela Ditadura Militar e, subvertendo-a, abriu caminho ao surgimento de algumas das mais importantes vozes líricas da literatura brasileira contemporânea. Deve-se a essa iniciativa, a revelação de inúmeros bons poetas. Mas não apenas. Hera, mais que uma confraria que publicava uma revista de excelente qualidade poética, foi um movimento que se desdobrou em inúmeros outros projetos, dos mais diversos campos artísticos e do conhecimento.

OFÍCIO DE EDITOR – Um desses desdobramentos, em especial, nasceu da vontade de dar corpo àquilo que de melhor se fazia no campo da poesia, na cidade. E foi na prática que muitos autores de Hera aprenderam o ofício de editar livros. Feitas artesanalmente, sem investimentos institucionais e com poucos recursos, as revistas eram editadas pelos próprios escritores do grupo, muitos deles multitalentosos, como o próprio Antonio Brasileiro e Juraci Dórea, ambos também artistas plásticos.

A direção dos números ora era realizada por Brasileiro, ora compartilhada ou assumida por outros membros do grupo, a exemplo do renomado poeta, compositor, editor, desenhista e professor de literatura Roberval Pereyr, outro abnegado, que, até hoje, dá oportunidade a jovens escritores, lançando livros via selos e coleções independentes. “Esse trabalho começou em 1972. Brasileiro dirigiu os dois primeiros números de Hera e, a partir do terceiro, comecei a dirigir com ele. Depois, assumi a direção, mas sempre com a participação de outros escritores, de forma colegiada. Estive à frente de quase todos os 20 números. Algumas vezes com Cremildo Souza; outras com Trazíbulo Henrique Pardo Casas; outras com Rubens Pereira”, lembra.

Na década de 1980, durante a gestão do então prefeito Colbert Martins da Silva, Roberval conta que foi trabalhar na Secretaria Municipal de Cultura. Lá, ao lado de Luciano Cunha e Juraci Dórea, ajudou a fundar a Coleção Olho D’Água. “Essa publicação, que era rodada em mimeógrafo, tinha uma capa fixa, ilustrada com um desenho de Juraci. De autor para autor, só mudava a cor da capa. A coordenação editorial era minha e havia também um conselho editorial. Publicamos nomes como Hélio Porto, Cremildo, Jorge Magalhães e Trazíbulo”, afirma o escritor.

Anos depois, na década de 1990, já professor de Teoria da Literatura da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Roberval diz que voltou a editar essa coleção, em parceria com Juraci, que, à época, trabalhava na Secretaria Municipal de Cultura. “Fizemos mais dois números, com a mesma capa, mas com outras características. Desta feita, como premiação dos concursos que realizamos através do Núcleo de Criação Literária, coordenado por mim e por Brasileiro, na universidade”, relata.

O setor nasceu de uma iniciativa anterior, também empreendida por Roberval. Quando foi ensinar na Uefs, o escritor conseguiu aprovar um projeto chamado Oficina de Criação Literária. Ele próprio ministrava as atividades e, a partir delas, acabou criando a Coleção Bocapio. As revistas traziam um desenho de Antonio Brasileiro, na capa, e serviram de veículo para a divulgação de muitos jovens e promissores poetas, sobretudo alunos da universidade, que participavam da atividade extracurricular. “Publicamos dois números e também o livro Rua dos Espelhos, de Anne Cerqueira. Mais tarde, quando Brasileiro foi ensinar na Uefs, foi que criamos o Núcleo”, explica.

Através dele, muitos livros foram publicados. Destaque para o volume de poesia intitulado Sete Faces, das autoras baianas Ângela Vilma, Anne Cerqueira, Gleide Gavim, Jecilma Alves, Norma Gomes de Melo, Suani Vasconcelos e Telma Siqueira. Com apresentação da saudosa escritora baiana Myriam Fraga, que foi diretora da Fundação Casa de Jorge Amado, a obra marcou as atividades do setor, em função do grande valor literário. “Promovemos vários concursos de poesia também. Lembro que um em homenagem ao poeta feirense Antonio Lopes e outro em homenagem ao escritor soteropolitano Ruy Espinheira Filho. Mas, infelizmente, o Núcleo de Criação Literária não prosseguiu, por falta de condições da Uefs. E também saímos para o doutorado, mas, antes, chegamos a lançar, como resultado desses concursos, justamente os números da Coleção Olho D’Água”, ressalta.

MULTIPLICADOR DE VERSOS – Incansável no trabalho de divulgar a literatura, por onde passou, Roberval Pereyr abriu espaço para os poetas iniciantes. No Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, rompeu o “marasmo”, reuniu os escritores da Pós-Graduação e da Graduação e criou mais uma revista. “Eu achei aquilo lá parado, então comecei a fazer encontros, oficinas e a trocar poemas com os colegas. Logo criamos um grupo e fundamos a revista Duas Águas, dirigida por mim e pelo poeta carioca Pablo Simpson, uma produção de muita qualidade, com um bom padrão gráfico. Convidamos pessoas de várias partes do Brasil. E, apesar de ter sido só um número, ela rendeu muito, porque houve desdobramentos. Os escritores participantes criaram outras quatro ou cinco revistas. Fui a convidado a publicar em duas delas, a Versal e a Calango. Foi um trabalho que gerou todo um movimento, de modo que, quando voltei para cá, passei vários anos recebendo poemas e livros de pessoas que começaram naquelas oficinas. Foi uma experiência muito interessante”, avalia.

De volta à Uefs, ele criou inúmeras outras coleções. Reativou uma editora, a Estrada, pela qual já havia publicado um livro, na década de 1980, voltando a lançar, por ela, em 2009, o livro Noite Clara, da saudosa poeta feirense Irma Amorim. Contando com a parceria de Wellington Freire, aluno da instituição, à época, Roberval também criou um sebo e uma nova editora, ambos com o mesmo nome. “Inicialmente, criamos o sebo Tulle e, dentro dele, tive a ideia de criar uma pequena editora, homônima, por sugestão de Wellington. Por ela, publicamos vários livros de estudantes e professores. Publiquei também um livro meu. Creio que chegamos a editar uns 11 ou 12 números. Das editoras que fundei, foi a que mais lançou livros. E ela ainda está na ativa, porque, como é uma editora alternativa, sem registro, não tem uma periodicidade. Vamos publicando”, observa.

Lucro? Nenhum. Editar livros de forma independente, no Brasil, nunca deu dinheiro a ninguém. “A Tulle, por exemplo, funcionava assim: eu chamava um aluno ou professor para publicar. Quando era professor, ele pagava a edição; quando era aluno, eu pagava e dizia: vá vender os livros. Ninguém conseguia vender. Na verdade, só um aluno meu, Rodrigo Damasceno, conseguiu vender um dos dois livros que editei dele. Foi o único que conseguiu pagar, mais ou menos, a edição. Terminei custeando todos os outros, mas já sabia que seria assim mesmo, que não teria retorno”, lamenta, em tom divertido.

É que quem faz um trabalho desse porte e dessa grandeza não caminha conforme as engrenagens. Para essas pessoas, a recompensa é outra e ela, na visão do próprio poeta, está muito além do que o poderio capitalista pode alcançar. “É um trabalho difícil, mas muito bom. Eu sempre gostei de fazer isso. Quando edito e publico o livro de uma pessoa, sinto o mesmo prazer de quando é um livro meu. Eu vejo nascer, então isso, para mim, é gratificante. Ver a alegria de um autor novo diante de sua primeira obra (muitos lançaram o primeiro livro comigo) me satisfaz. E tem a ver também com um trabalho de base, de manter a literatura circulando, e com essa vontade de descobrir autores novos. Isso sempre foi fundamental, para mim”, diz o escritor.

Pereyr, que também criou, pelas Edições Cordel, a coleção Beiço de jegue não é arroz doce, um sistema de cooperativa que publicou livros de diversos autores, jovens e experientes, como Luiz Antonio de Carvalho Valverde, Valdomiro Santana, Joaquim Gama, Tito Gonçalves e Bruna Carvalho, destaca que, infelizmente, hoje, no Brasil, há mais poetas do que leitores de poesia. “Mas o infelizmente, nesse caso, é para quem não lê. Porque a literatura e a arte, de modo geral, ainda são coisas nas quais podemos nos agarrar. Não tenho esse saudosismo de achar que a poesia está por baixo. Acho que a poesia está é por cima. Quem está por baixo é quem está longe dela. Não vou me preocupar com isso, do ponto de vista individual, mas lamento, porque a humanidade consumista, estúpida e cega está indo, literalmente, para o beleléu: de carro, de avião, de trem, de metrô”, ironiza.

RESISTÊNCIA – Como a sociedade atual parece brutalmente dominada pelo consumismo, Roberval diz ter plena consciência de que trabalhos literários mais qualificados têm um alcance material limitado. “O alcance espiritual, no entanto, não pode ser medido. Que eles penetram é um fato, mas as forças contrárias são imensas, porque globais, nacionais e permanentes. Esporádicos e sem possibilidade real de atingir a grande massa, vão alcançando pequenos grupos de pessoas, que, provavelmente, são as que vão tentar conseguir salvar alguma coisa da humanidade, daqui para frente”, vislumbra.

Para Roberval Pereyr, escrever poesia e editar livros são formas de se opor ao que está posto. “Há muitas maneiras de resistir. Até com o silêncio se pode resistir. Acho que a gente só não pode se omitir. Devemos resistir como nos é possível. Mas, para isso, é preciso manter uma visão aberta e atenta. A saída para tudo isso não é individual. Mas o criador cria de qualquer maneira, em quaisquer circunstâncias, por isso a literatura é uma forma de resistência”, adverte o poeta, que também integra a comissão organizadora da Feira do Livro de Feira de Santana (Flifs) e edita a série Prosa e Verso, publicação oriunda das oficinas de criação literária ministradas, pelo escritor Luís Pimentel, durante o evento.

EDSON MACHADO E O MAC – Todo o trabalho de dilatar o tão fechado universo editorial, para estendê-lo a quem, talvez, jamais tivesse a oportunidade de publicar os primeiros versos, não teria sido possível sem as parcerias citadas anteriormente e sem o apoio do chefe da Divisão de Artes Plásticas e Literatura da Fundação Egberto Costa, Edson Machado. De acordo com Roberval Pereyr, o trabalho do atual diretor do Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana (MAC) foi e tem sido fundamental no processo de difusão da literatura, da arte e da cultura.

Parceiros de longa data, inúmeros são os trabalhos que editaram juntos. “Edson já publicou centenas de livros. E a maioria dos que eu editei também teve a participação dele, que cuidou de toda a parte de diagramação e montagem dos exemplares. Ele desenvolveu uma técnica muito boa e realiza um trabalho de grande qualidade. Dialogamos constantemente e se não fosse por ele, provavelmente, os livros, se saíssem, não sairiam com o padrão desejado. Talvez nem tantos números fossem publicados. Ele está sempre disponível e nunca cobrou para ter lucro. Nunca teve lucro. Sempre realizou esse trabalho por amor ao movimento”, observa Roberval.

O escritor, que coordena uma das coleções realizadas pelo MAC, a Aldebarã, diz que gostaria ver o trabalho feito no museu ampliado. “O MAC é muito importante e presta um grande serviço à cidade e à Bahia, em nome da Prefeitura Municipal de Feira de Santana, através do trabalho que Edson desenvolve. Ele faz algo que quase ninguém faz mais, no mundo e, especialmente, no Brasil. No Nordeste, nem se fala. Então, isso merece não apenas reconhecimento, mas um maior apoio e divulgação, porque é algo que não pode parar”, enfatiza o escritor, sugerindo que a Governo Municipal distribua os livros das Edições MAC nas escolas da Rede Municipal, criando uma política de divulgação da literatura feirense.

Há 23 anos atuando na direção do MAC, Edson Machado conta que a instituição, além de realizar exposições mensais de artes plásticas e visuais, já publicou, no mínimo, 400 livros, entre cordel, prosa e poesia. “Esse projeto nasceu por iniciativa de Juraci Dórea, quando diretor de cultura de Feira. Começou com a publicação de um cordel do saudoso Antonio Alves da Silva, que sempre estava solicitando apoio. Em 1996, quando o museu veio para esse prédio da Rua Geminiano Costa, tivemos a ideia de começar a publicar com impressoras caseiras mesmo, mas de boa qualidade. E passamos a fazer pequenos livros. Roberval, Antonio Brasileiro, Ângela Vilma, Antonio Gabriel Evangelista e Telma Siqueira nos deram grande apoio, coordenando as coleções. E várias foram surgindo. A primeira foi a POUI, de Brasileiro, que marcou bastante, porque eram livros muito bem acabados e porque publicamos escritores já renomados. Mas a ideia principal era dar espaço aos estreantes, então, ao longo dos anos, criamos várias coleções, a fim de atender a esse propósito, como é o caso da Nova Letra, da Conto Contemporâneo e da Poesia Contemporânea”, ressalta.

O MAC, que também dá espaço a desenhistas iniciantes, através da Coleção Rabiscos, trabalha com tiragens pequenas, de 100 a 200 exemplares, confeccionados artesanalmente, nas dependências do próprio museu. Ele explica que a instituição não tem como atender a uma grande demanda e que a publicação dos livros funciona apenas como um incentivo inicial aos artistas que se destacam e são aprovados pelos coordenadores das coleções, que costumam ser muito rigorosos no processo de seleção, primando sempre pela qualidade.

No caso dos autores consagrados, Edson diz que continua havendo coleções destinadas a eles. Geralmente, essas publicações são uma forma de agradecimento, pela colaboração prestada ao museu, seja coordenando edições e coleções, seja ministrando oficinas ou participando das comissões julgadoras do Concurso Municipal de Poesia, realizado, anualmente, pelo MAC. A 5ª edição, por sinal, está com inscrições abertas até 25 de junho.

NOVOS LIVROS – Para esse ano, Edson informa que o museu deve lançar mais 15 livros, número que pode crescer, a depender do resultado da Oficina de Criação Literária que Roberval Pereyr ministrará ali, em julho. Se bons poetas forem revelados nessa atividade, ele diz que a instituição se esforçará para publicar os novos talentos. Mas o diretor salienta que o ritmo de publicações já foi maior. Ele lamenta a queda dos últimos anos. Mas ressalta que ela não se deve tanto à falta de recursos financeiros (sempre bem-vindos, é claro), e sim à inexistência de uma equipe fixa de trabalho. “O custo do projeto não é elevado. O que mais faz falta é a ausência de material humano. A confecção de livros é trabalhosa e eu faço tudo sozinho, praticamente. Isso impede o MAC de realizar mais publicações e eventos. No apoio, só tenho estagiários, que são temporários e nem todos têm aptidão para esse trabalho. Essa é a nossa maior dificuldade. Em termos de recursos, a gente sempre dá um jeitinho, mas ter uma equipe fixa é essencial e melhoraria tudo”, almeja.

Edson salienta que sente orgulho do trabalho realizado à frente do MAC e deseja que o projeto continue, no futuro. “Como funcionário público, eu me sinto bem, porque gosto de servir e de atuar na área artística. Sou um leitor voraz e, antes de fazer livros aqui, quando ainda colegial, participei do movimento Poetas na Praça, de Salvador, que fazia livros fotocopiados. Então, já era envolvido com edição de livros. De modo que, quando Juraci chegou à Secretaria de Cultura e começou esse projeto, coloquei toda minha energia nele. Para mim, é uma realização. Sinto que, nesses 23 anos, fiz algo bom, bem feito. Roberval me incentiva muito. Brasileiro e Juraci também nunca deixaram de me incentivar. Fico feliz por fazer algo que beneficia a tantas pessoas. É muito gratificante fazer o meu trabalho. Acho que vim para o lugar certo. Estou em vias de me aposentar e vejo que o trabalho realizado vai deixar uma marca na cidade. Espero que quem venha a coordenar o setor, no futuro, não deixe esse projeto acabar. Ele já mostrou que vale a pena e que é muito importante para Feira de Santana e região”, enfatiza.

Para os escritores que tiveram os primeiros livros publicados pelas Edições MAC, é imensurável o valor do trabalho realizado tanto por Edson Machado quanto por Roberval Pereyr. “Para quem se arvora a publicar um livro, principalmente quando ainda jovem e sem perspectivas de uma editora, ou mesmo sem saber como chegar a uma, projetos assim permitem a novos talentos, mesmo que de forma modesta, dar vida a seus trabalhos e torná-los acessíveis a um público; não é isso que todo escritor quer?! Edson e Roberval são responsáveis por fazer muito de nossa cultura literária andar. Eu, por exemplo, sou uma testemunha disso. Foi através desse projeto que publiquei meu primeiro opúsculo. Foi o início de uma jornada que, espero eu, não termine tão cedo”, lembra o poeta Silvério Duque.

Para o poeta e professor de literatura Adriano Eysen, o trabalho editorial de Edson e Roberval tem grande relevância no cenário literário de Feira de Santana. “Ao longo de mais de duas décadas, já foram publicados diversos autores e autoras da cidade e região. Apesar de ser um trabalho artesanal, é válido ressaltarmos a sua circulação dentro e fora dos espaços acadêmicos. Tive a oportunidade e o prazer de participar do selo MAC, na década de 90 e início do ano 2000. Foi uma experiência fundamental para o meu processo de formação literária e humana”, destaca o autor, que teve quatro livros editados pelo museu: Suspiros das existências (1999), Crepúsculo das almas (2000), Diário de um louco (2001) e Sopros (2002).

O poeta e ensaísta Cleberton Santos considera os diversos projetos realizados pelos dois editores salutares para a Literatura Brasileira. “Acho de fundamental importância para o desenvolvimento da vida literária e das práticas de leitura na cena cultural baiana. Meu primeiro livro, Ópera urbana, é fruto desse trabalho editorial desenvolvido por Edson Machado, no MAC. Ele e Roberval são figuras marcantes na trajetória de vários escritores iniciantes, em Feira de Santana. Considero que ambos fazem parte de uma História do Livro no Brasil”, enaltece.



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