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César Oliveira- Crônicas

Milagre dos namorados

César Oliveira - 12 de junho de 2019 | 21h 33
Milagre dos namorados

Verdade que os príncipes já não andam em cavalos brancos, são cada vez menos nobres e as mulheres tem preferido o ronco do motor ao trote do eqüino, mas nem por isso devemos deixar de acreditar que, em algum lugar, a vida é feita mais de encontros do que de desencontros, e uma mulher te espera de vestidinho e flor no cabelo com um sorriso de infância e certezas de uma vida inteira.

É certo que os cientistas com suas ressonâncias  e dosagens de neurotransmissores andam a desmistificar a paixão, a transformá-la numa reação química de serotinina e dopamina, com validade máxima de três anos, mas nem por isso vamos deixar que levem para o cérebro nossa memória de amor. Não desembarquemos da nossa Arca de Noé imaginária, em que as espécies entram aos casais e sobrevivem, juntas, muito além do dilúvio e repovoam nossas esperanças, mesmo sabendo que os advogados, já não esperam sequer que passe a chuva das mais brandas, urgente que é, partir do outro.

É imprescindível manter a capacidade de renúncia sem ressentimentos, e a fé , nos que juram  à boca faminta das noites, ou aos suores dos corpos, que é sim, o amor, sua  viagem e sina.

Ainda que, por vezes, já nem haja  mistérios na mulher que desabotoa o vestido, de gesto tão serial, ou que os homens sequer sabem que as estrelas oscilam todas, de leve, no céu, quando ela, somente ela,  te chama para o próprio destino e gozo, não devemos deixar de acreditar nas lágrimas das que choram nas entregas, nas confissões dos amantes impossíveis,  porque é dele, deste orvalho e barro, que precisamos para não nos tornarmos avessos ou secos de sentir.

Sei que é fato que o amor começa e acaba, às vezes, em uma mesma  dança, mas nem por isso vamos deixar que nossas falhas de humano nos impeçam de reinventar o sonhar  e exercitar o pertencer. E não percamos jamais  o olhar inaugural, porque, perdido o primeiro olhar, todos os outros serão para remover, dia a dia, um encanto, no delicado equilíbrio entre admirar e luir, entre devoção e indiferença. Pois, sabemos que o que salva é frágil, impreciso, mas o que mata é exato. Seja a dor ou a palavra feia, que nunca erra no peito, o coração.

Mesmo que as  fragilidades golpeiem  as ilusões, e amar seja um risco, eu vos  peço, que não  se desfaçam das redes de pescador. E , agora,  que é dia dos namorados, refaçam a multiplicação dos peixes. E nunca mais  deixem que em seus olhos de tantos mares , de danças rituais,  se erija, apenas, a aspereza da realidade. Pois, em algum lugar,  te aguarda, como um feitiço, um vento que corteja a lua, alguém,  para reinaugurar em tu, o milagre do amor.



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