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  • Feira de Santana, terça, 20 de agosto de 2019

Saúde

Planserv: usuários reclamam dificuldades em marcação e médicos alegam falta de reajuste

Daniela Oliveira - 11 de junho de 2019 | 15h 03
Planserv: usuários reclamam dificuldades em marcação e médicos alegam falta de reajuste
Foto: Ilustração

O Planserv, assistência de saúde subsidiada pelo Estado, com o objetivo de fornecer atendimento médico aos servidores ativos e inativos do Estado da Bahia, tem 519 mil beneficiários, divididos entre titulares, dependentes (filhos menores de 18 anos e cônjuges) e agregados (filhos entre 18 e 35 anos e netos). Desse total, cerca de 7,6 mil são de Feira de Santana. Estima-se que haja cerca de 2 mil clínicas e hospitais conveniados ao Planserv, em toda a Bahia.

O plano tem algumas peculiaridades, a exemplo de não aumentar o preço, pago, mensalmente, por meio de desconto em folha de pagamento, variando apenas com o aumento da idade, como os demais seguros de saúde. A participação mensal dos servidores é baseada nos valores das faixas salariais estabelecidas (valor bruto integral/mês, excluídas as parcelas a título de ajuda de custo, diárias, auxílios e abonos pecuniários, adicional de férias, gratificação natalina e aquelas de caráter indenizatório). A tabela dos valores da contribuição com base na faixa salarial encontra-se disponível no site do Planserv (planserv.ba.gov.br). O valor da acomodação em apartamento individual é de R$ 65,00 por membro familiar.

A Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) aprovou, no final do ano passado, um projeto oriundo do Executivo, que reduziu o valor repassado pelo Estado para o convênio de 4% para 2%. A medida gerou uma redução aproximada de R$ 200 milhões do valor investido para manter os serviços prestados.

Por meio de sua Assessoria de Comunicação, o Planserv explicou que não houve uma reestruturação, e sim a contratação de uma empresa gestora. Disse ainda que o convênio continua pertencendo ao Estado, por meio da Secretaria de Administração do Estado da Bahia (Saeb). “O Planserv não foi ‘reestruturado’. A contratação, em 2017, através de licitação, de uma empresa gestora de planos de saúde teve como principal objetivo obter consultoria qualificada, para a melhoria da gestão do plano, seu fortalecimento e modernização. Mas a assistência não foi terceirizada: o plano de saúde dos servidores continua preservado, vinculado à Secretaria da Administração do Estado da Bahia. As decisões relativas ao plano continuam centralizadas no governo estadual, que permanece no comando do convênio”, garantiu.

RECLAMAÇÕES – A Ascom do Planserv também negou a existência de uma possível crise financeira, afirmando que todos os pagamentos aos prestadores são feitos em dia. Mas, apesar de negar que há um limite de consultas e exames, por conveniado, não é difícil encontrar pessoas com dificuldades de marcação, que têm recebido, por parte de clínicas e hospitais, a informação de que “a cota já foi preenchida” ou mesmo que determinados procedimentos não estão mais sendo feitos pelo convênio, devido ao baixo valor pago aos profissionais.

Muitos usuários do Planserv reclamam que não conseguem consultas e exames, especialmente depois das mudanças impostas pelo convênio, desde o início do ano. A professora aposentada Socorro Xavier precisou recorrer a clínicas particulares para realizar alguns procedimentos, por conta da dificuldade de marcação pelo Planserv. “Foram várias tentativas. Quando a gente liga, nunca é dia de marcar. Mandam ligar em uma determinada data, alegando ser esta o dia de marcação, mas, quando ligamos. Informam que já não tem mais vaga. Ligamos pela manhã e já não tem mais vaga. Então precisamos recorrer a clínicas de preços populares. Eu não consegui dermatologista e nem neurologista pelo Planserv”, criticou.

Socorro disse ainda que muitos médicos já não aceitam mais pacientes novos pelo convênio. “Ainda tem a questão de que médicos de muitas especialidades não pegam pacientes novos. Quando informamos que ainda não somos pacientes, as secretárias dizem que o doutor ou a doutora não estão aceitando pacientes novos”, lamentou.

A também professora Claudiana Franco encontrou tantas dificuldades para conseguir agendar a retirada de um cisto, para o pai, que acabou desistindo. “Eu tinha marcado uma consulta no Hospital Emec. Levei meu pai para avaliação com um cirurgião, a fim de retirar um cisto que ele tem nas costas. O médico nos atendeu, mas informou que não está mais realizando o procedimento, porque o valor que o Planserv está pagando não cobre sequer os materiais que utiliza. Ele deu duas opções: procurá-lo em sua clínica e pagar particular ou buscar outro especialista que atendesse pelo plano”, relatou.

Ela disse que chegou a ligar para o Planserv e que o plano indicou outros locais de atendimento, mas não obteve êxito. “Liguei para o convênio e eles me informaram outros locais, dentre eles o Hospital São Matheus. Fiz a marcação da consulta. Meu pai foi atendido e saiu de lá com as requisições dos exames necessários e a indicação de voltar com os resultados, a fim de marcar o procedimento. Entretanto, quando fui marcar o retorno, informaram que o médico também tinha suspendido o atendimento. Até quiseram me informar outro médico, mas meu pai preferiu desistir do procedimento”, lamentou.

Essa não foi a primeira vez que Claudiana enfrentou problemas com o Planserv. “No passado, minha filha esteve doente e o quadro que ela apresentava precisava de especialistas e exames nas áreas gástrica e reumatológica, além de exames de sangue. Ela morava em Itabuna, só que o Planserv é quase inexistente lá. Até mesmo exames de sangue eu precisei pagar. Ela fez uma colonoscopia, que não foi realizada pelo Planserv. E a biópsia do material tive que pagar também, porque, pelo Planserv, não havia onde realizar a análise do material. Além disso, também paguei consulta com o reumatologista. Até tentei ver se ela poderia vir até Feira fazer, mas, aqui, também não havia especialista que atendesse essa consulta, pelo convênio”, reclamou.

PARALISAÇÃO DE ANESTESISTAS – De fevereiro a abril deste ano, os conveniados do Planserv ficaram sem serviço de anestesia, mesmo para procedimentos já agendados. Na Bahia, há 520 médicos anestesistas associados à Cooperativa dos Anestesiologistas da Bahia (Coopanest), instituição credenciada pelo Planserv.

No período citado, esses profissionais suspenderam seus atendimentos pelo convênio, enquanto tentavam chegar a um acordo, com a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), quanto ao valor dos procedimentos. Segundo o advogado da Coopanest, Adriano Argones, a questão já foi solucionada. “Desde o início de abril, quando o Planserv e a Coopanest chegaram ao acordo que implicou na mudança de portes a estéticos (valor de procedimentos), os atendimentos de anestesiologia estão regularizados”, informou.

INSATISFAÇÃO DOS MÉDICOS – No entanto, outras especialidades permanecem com seus atendimentos suspensos, a exemplo de cirurgias ortopédicas e mastologia. Com a redução de investimentos no plano, aplicados desde o início do ano, houve paralisação dos médicos em todo o estado. Os profissionais deixaram de atender, inclusive, consultas eletivas já agendadas, mantendo apenas serviços de urgência e emergência.

A alegação é que, apesar das várias tentativas de negociação quanto ao valor repassado aos médicos, não se chegou a um consenso. Após conversas, o serviço foi retomado, mas os problemas continuam. O Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia (Sindimed) manifestou-se a respeito da relação com o Planserv, demonstrando toda a sua insatisfação pela forma como os profissionais vêm sendo tratados. “Não existe relação entre os médicos e o Planserv. O Planserv sempre se recusou a negociar honorários com os médicos. Nunca apresentaram sequer uma contraproposta à proposta apresentada pelos médicos há mais de 30 dias”, enfatizou a entidade.

Para o Sindimed, o convênio não tem interesse em prestar um bom serviço. “A verdade é que o Planserv não está preocupado em oferecer um serviço de qualidade aos seus beneficiários. Prefere investir em propaganda, para forjar uma ideia de que vivemos em um mundo de faz de conta”, criticou.

O sindicato disse que o plano não reajusta o valor repassado por consulta há pelo menos três anos e que, no caso de outros procedimentos, o tempo é ainda maior. “Os valores praticados pelo Planserv em pagamento a serviços médicos (consultas, procedimentos cirúrgicos e exames) são baseados em pacotes engessados, que não permitem inclusão de mais de um procedimento. E, nesses casos, a tabela de referência para remuneração é a CBHPM, do ano de 2005. Nos casos não contemplados nos pacotes, os valores são baseados na tabela AMB, de 1992. E não é possível realizar uma série de novos procedimentos, a fim de atender às necessidades dos usuários. As consultas do Planserv não têm reajuste há três anos. Para hospitais e clínicas, os valores também estão congelados há vários anos”, declarou.

No total, 16 especialidades cirúrgicas estão com atendimento suspenso: coloproctologia; cirurgia geral; cirurgia do aparelho digestivo; urologia; mastologia; cirurgia vascular; de ombro e cotovelo; de coluna; de cabeça e pescoço; oncológica; de joelho; de quadril; hemodinâmica; neurocirurgia; otorrinolaringologia e ginecologia.

O sindicato demonstrou toda a insatisfação que a categoria tem com o convênio. “Não resta dúvida de que a classe médica está absolutamente insatisfeita com as práticas do Planserv. Ao oferecer uma remuneração pífia pelos procedimentos médicos e taxas hospitalares, praticando uma política de cotas de atendimento totalmente obscura, com limitação à realização de consultas, exames e internamentos, e ao não incorporar tecnologias e novos procedimentos, o Planserv age de modo irresponsável, pois compromete, sobremaneira, a prestação dos serviços à saúde dos seus usuários, que são o foco principal do atendimento médico e os maiores prejudicados. Sugerimos que ouçam os usuários do Planserv, que têm sofrido toda sorte de limitações impostas, quando mais precisam utilizar o plano de saúde”, apontou.



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