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  • Feira de Santana, quinta, 20 de junho de 2019

Cultura

Criação e resistência

Valdomiro Santana - 06 de junho de 2019 | 15h 28
Criação e resistência
Foto: Divulgação

O que primeiro nos instiga a ver e pensar cada um dos trabalhos dos seis artistas que integram a exposição Chroma-Skhema — pinturas e desenhos, em cartaz no Museu de Arte Contemporânea MAC de Feira de Santana, de 24 de maio a 24 de junho de 2019, é, na origem do que criaram, seu inconformismo diante da tela e papel virgens. Por que esse inconformismo? Porque a tela e o papel, na verdade, não estão virgens, puros, mas virtualmente entulhados de clichês, nesta era chamada de “pós-moderna”, que se diz a “civilização da imagem”.

O que, no entanto, se verifica é outro fenômeno, como observa Deleuze: “uma civilização do clichê, na qual todos os poderes têm interesse em nos encobrir as imagens, não forçosamente em nos encobrir a mesma coisa, mas em encobrir alguma coisa na imagem”.

Na medida em que a espetacularização de tudo é o que interessa ao mercado, pouco importa que o olho se sature de repetições, simulacros, estímulos grotescos ou do choque pelo choque — de tudo, enfim, que é mentalmente indigente e rapidamente descartável. Num mundo assim, o que fez cada artista desta mostra no ato solitário de sua criação foi, primeiro, resistir à falsa impressão da tela e papel virgens, onde todas as expectativas do que é “interessante” já estavam postas. Por isso apagaram, rasgaram, neutralizaram completamente a virtualidade desses clichês.  

E, ao fazer isso, o que redescobriram foi a novidade do que poderia nascer: a composição de sensações, a qual nunca é uma composição técnica, que é o trabalho do material, mas uma composição estética. Técnica aprende-se, domina-se, mas nunca uma obra de arte é feita por técnica ou pela técnica. É na composição estética que o artista se individualiza, conquista, a cada vez, uma expressão pessoal em que as sensações, por ele criadas, vibram e dialogam, ou se agregam e se fendem.

No caso das obras desta exposição no MAC, em que há uma variedade de técnicas e de suportes, de temas e de propostas poéticas, o que merece a atenção e reflexão de cada visitante é, no momento do olhar (uma, várias vezes), a força do ato de criação destes seis artistas: Anderson Marinho, Ed Carlos Santana, Evaldo Oliveira, Jean Lima, Mike Sam Chagas, Olímpio Pinheiro. Ao criar o que se prolonga como impacto na inteligência e na sensibilidade dos visitantes, eles, os seis, provam ser a obra de arte a única coisa no mundo que resiste à morte, à mistificação de tudo, à pobreza de pensamento, à vergonha.

 

*Valdomiro Santana é jornalista, escritor, mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e editor da UEFS Editora.



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