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André Pomponet

O delicado ofício de lecionar no Brasil

André Pomponet - 23 de maio de 2019 | 12h 36
O delicado ofício de lecionar no Brasil

Dar aula está se tornando uma profissão perigosa no Brasil. E não apenas porque os professores correm o risco de sofrer agressões de alunos iracundos num desses acessos de violência que, às vezes, alguém filma. Os professores também estão sendo filmados por alunos hostis que farejam “ideologia de gênero”, “marxismo cultural” ou “comunismo” em qualquer frase. Às vezes, essas imagens originam denúncias, mas, na média, provocam mesmo é balbúrdia nas efervescentes mídias sociais.

Todo dia gente que não entende de educação saca da algibeira medidas que visam “endireitar” a formação de crianças e jovens brasileiros. Na média, trata-se apenas de tentativas de cercear a liberdade do professor em sala de aula. Há quem enxergue bruxaria ou pedofilia num simples conto infantil. Até a anacrônica “educação domiciliar” resolveram desenterrar.

Temperando tudo, existem as tiradas patrioteiras. Há quem acredite que educação se resume a cantar hinos patrióticos, decorar datas marcantes, recitar locais célebres e memorizar nomes das grandes personagens da pátria. Isso sob uma disciplina militar, digna de quartel. Método e infraestrutura adequada nas escolas costumam figurar nos discursos desses “especialistas”. Afinal custa dinheiro, que vem minguando, como todo mundo sabe.

Os mesmos que defendem constrangimentos e restrições em sala de aula pregam, ardorosos, toda a liberdade para as polícias apertarem o gatilho em suas incursões. Afinal, enxergam que o Brasil enfrenta uma guerra não declarada e que é necessário exterminar inimigos. Esses adversários, a propósito, são os negros e pardos, jovens, pobres, residentes nas favelas e periferias, embora poucos admitam.

Professores com constrangimentos crescentes e policiais com toda a garantia para promover a matança que parte da elite tanto anseia Brasil afora. Esses são os pilares do Brasil tosco, colérico, primitivo e raso que emergiu a partir da derrocada do petê, embora não faltem inclusive “esquerdistas” entusiasmados com essa perspectiva.

Só que isso não passa de uma pulsão de Tanatos, de uma inclinação pela morte, pelo extermínio físico do outro. Qual país alcançou o desenvolvimento exterminando parte da sua população e, ao mesmo tempo, negligenciando a educação e perseguindo professores? Isso está mais próximo do Afeganistão e da Síria que, propriamente, da Suíça ou da Holanda.

Quem se desenvolve investe em ciência e tecnologia e qualifica sua população. Isso costuma se desdobrar em inovação e produtividade, molas-mestras do êxito econômico hoje. O caminho é sempre longo, árduo e envolve superar o misticismo e a superstição, tão comuns em sociedades pouco avançadas como a brasileira.

Não é o que pretendem os governantes brasileiros, como se vê. No Brasil do futuro de muitos, enquanto as crianças aprenderão “criacionismo” e patriotadas na escola, as polícias apertarão o gatilho nas vielas das periferias e favelas de sempre.



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