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César Oliveira- Crônicas

A fome

César Oliveira - 03 de maio de 2019 | 19h 39
A fome

                                Dizem os cientistas que a vida nasceu na água, depois do Big Ben. Era uma sopa, uma espécie de caldo mágico, repleto de íons e minerais, nosso sal e pimenta bioquímicos.  Deste lodo, na verdade da combinação de luz, calor, umidade e substrato, nasceu o primeiro organismo vivo, que não deve ter sido lá grandes coisas, muito distante de Afrodite e Apolo, que nos imaginamos. Junto com ele nasceu a fome, - afinal a sopa estava por ali mesmo- e foi esta que o fez devorar aquela canja, indigna de figurar nos cardápios franceses elegantes e com sabor de merenda escolar, mas nutritiva o bastante para nos fazer perpetuar a espécie, afinal como se diz aqui no Nordeste, tempero de comida é fome.

Acontece que, desde que o primeiro ser vivo, tornou-se vivo, ele já olhou para o segundo ser vivo com segundas intenções reprodutivas o que, mais tarde, com o apoio dos motéis, da indústria de preservativo e divãs de psicanálise, ficou conhecido como fome sexual.  Como não tinham nada mais a fazer, nem uma revista de fofoca de dinossauros, um salão de beleza para atualizar a inveja, um programa decente na TV- mal antigo pelo que vemos- e sem planejamento familiar e mensalidade escolar, eles se dedicaram à única coisa que podiam fazer: reproduzir-se . A partir daí vocês conhecem a história. Adão não resistiu a Eva vestida de garçonete, com aquele biquíni sumário de parreira e sua fome atávica nos expulsou do paraíso – uma espécie de condomínio fechado com segurança paga - só para comer uma maçã.

Daí em diante, insaciados, vitimas do apetite eterno, passamos a disputar  comida com gerentes de supermercados, navegadores e, em casos mais graves, com outros animais, nos buffet das recepções.  Verdade que nem mesmo Cristo conseguiu matar a fome universal, ainda que tenha repartido seu pão sem agrotóxicos e seu vinho de safra divina. Aliás, depois deste milagre, ele preferiu ser crucificado a ter que sobreviver neste ramo, sem nenhum apoio a sua microempresa, até porque já estavam reclamando do serviço e pedindo um croissant, um pãozinho francês, um presuntinho pra acompanhar. Não, não, aquilo já estava virando um inferno. Melhor a cruz.  

É por isso que desconfio que foram as necessidades da barriga e não as necessidades da alma que movimentaram o homem em busca do desconhecido e do elo perdido, ou pelo menos, da pousada mais barata e do comida a quilo. Foi a busca de alimento e de terras produtivas que pudessem ser invadidas e cultivadas para nos saciar, que nos levou de um lado para o outro, fez as cruzadas, o cinto de castidade e a riqueza das clínicas de estética.

Não fosse pela fome ainda estaríamos confinados à Mãe África onde o cozinheiro e a sopa eram melhores e não seríamos, hoje, esta diversidade do humano.  Contrariando os filósofos e antropólogos que buscam um motivo nobre para nossa travessia existencial, acho que ela foi o grande graal de nossa evolução. Ou só assim podemos explicar essa fome antropológica, de primeiro organismo vivo, que nos consome, quando ela passa flutuando sobre o eterno, dentro do seu vestidinho, com olhos de mares antigos e apetite infinitesimal. 



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