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César Oliveira- Crônicas

Geração fotoholic

César Oliveira - 01 de maio de 2019 | 15h 57
Geração fotoholic
Estamos vivendo uma espantosa cultura da aparência, antes do conteúdo; do mostrado antes do vivido; do narrado, antes do memorizado. O registro externo dispensa a memória de guardar e imortalizar o instante, pois, ele será compartilhado e arquivado em nuvens e arquivos, tornando-se mais significativo não pela experiência per si, mas por quanto likes e curtidas conseguiu produzir. Já não somos o fato, mas a versão.
 
         Desde que, em 2013, o Dicionário Oxford anunciou que um novo verbete - selfie- seria incluído em suas páginas tive plena certeza que o apocalipse da discrição havia se instalado e ovo da serpente tinha sido chocado.  Lógico que muitos usam as redes para fins profissionais e há, acreditem, os que usam com moderação, mas a grande parte se dedica a um exibicionismo cansativo depois de tantas poses repetidas e pratos fotografados. A vida virtual, com todo seu falso glamour e felicidade, desperta inveja digna de merecer tiro, porrada e bomba, e torna-se impositiva de um estilo de vida impossível de ser sustentado. Todos, ao fim, querem ser iguais e a vida  um enredo único e hedonista.
 
         Para manter o ritmo – afinal, as poses sofrem de senilidade precoce-, e a vida atualizada, os usuários, especialmente os jovens, produzem fotos em quantidades industriais e exercem um apurado serviço de controle de qualidade da linha de montagem. Ao fundo, todos têm a esperança que sua vida editada  seja tão atraente quanto o que achamos que os outros imaginam. 
 
         A geração fotoholic, como a denominei, é  capaz de arriscar a vida por uma curtida. Pesquisas mostram que 33% dos jovens fazem selfie quando dirigem; há relatos de cirurgia pra aparecer melhor e, inclusive, inacreditavelmente, mortes : queda de ponte, edifício, chifrado por touro, eletrocutado em trilho do trem, baleado com pistola, caindo do Taj Mahal, em uma perigosa compulsão pela imagem perfeita.  Segundo site americano as mulheres (entre 16 e 25 anos) gastam 5 h semana em selfie, com uma média de três fotos ao dia.  Elas fazem 7 selfies antes de achar a melhor, sendo que 1/3 faz pose sexy para atrair pretendente, 14% usa selfie para causar inveja. O estudo indica que 72% dos entrevistados tiram fotos com familiares e amigos. Em segundo lugar está “eu com fundo de paisagem ou natureza” (34%), seguido de “eu sozinho” (29%).   
 
Algumas pesquisas a ligam à insegurança e objetificação do indivíduo. Segundo o psicólogo Jesse Fox, “pessoas que têm um grau alto de auto-objetificação postam mais selfies, o que leva a mais feedback dos amigos online, o que os encoraja a postar ainda mais fotos de si mesmos.”.
 
         O fenômeno cultural do “selfie” expõe cruamente o desejo humano de ser notado, admirado, reconhecido, o que flerta com o pecado preferido do diabo: a vaidade.  Há uma mistura de costumes e informação, sendo uma expressão social que traz o risco de resvalar para o culto excessivo a aparência, transformando a vida em uma espécie de reality-show narcísico, com personais-seguidores - inclusive a Receita Federal-, que muitas vezes resulta em um ego inflado, por idealizar  que tudo que o rodeia é aceitação e aplauso, sendo muitas vezes difícil escapar do autoengano. 
 
         Como em todo lançamento comportamental a geração fotoholic ainda precisa aprender a dosar o uso das opções da internet para saber a exata medida que separa compartilhamento saudável de obsessão vaidosa e suplemento carencial.


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