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César Oliveira- Crônicas

Minha mãe oferta rosas aos santos

César Oliveira - 01 de maio de 2019 | 15h 53
Minha mãe oferta rosas aos santos
Cultivar o deserto como um pomar às avessas, ensina João Cabral. Minha mãe não conhece o verso, mas é possível que o verso saiba de minha mãe. Ela tem 87 anos, mais juízo e disposição do que eu que venho avariado de vários avarios e ventanias. Por isso admiro a disposição com que todas as manhãs ela sai da cidade onde mora e vai pra roça passar o dia -às vezes, vai e volta duas vezes-, cuidar do quintal onde planta de tudo que em se plantando a terra dá. E rosas.
 
Sim, minha mãe planta rosas. Ela sempre plantou rosas. Até nos dias em que nada era possível plantar, ela plantou rosas. Às vezes açucenas, que minha mãe é de jardins e hortas, mas, sobretudo, rosas. Amarelas, vermelhas, grandes, pequenas, brancas, e rosas rosas. A vida inteira ela nunca deixou de plantar rosas. Nas tempestades e nas calmarias; nos dias perenes e nos escassos. Se lhe tirassem um jardim, ela plantava em caqueiros; se lhe faltava caqueiros ela plantava em baldes, até que se inaugurasse um outro jardim, todo dividido com tijolos, em leiras, com folhas pra rezas- sim, ela é dessas- chás, hortaliças e canteiros de rosas.
 
Sim, minha mãe sempre plantou rosas. E sempre riu nas pétalas. Muitas das folhas não passavam simplesmente de gargalhadas. Era muito fácil de ver. Meu pai não sabia enxergar isto e apenas olhava achando aquilo uma perda de tempo, mas deixava. Uma ou outra que podia parecer um choro, uma dor, nunca vingava. Esta, era logo trocada por uma ainda mais viçosa, resistente, bela, de textura delicadíssima e perfume terno, destas que até o orvalho, pela manhã, tem lamento de cair e se arrepende de seu destino de evaporar. Eram as minhas preferidas. Umas eram orgulho, ou travessia, outras eram esmero- podadas, polidas, adubadas- e, algumas, eram verdes, apesar dela dizer que nunca plantou rosas verdes. Estas, acho que só eu as vi. Umas eram rosas confessadas, outras eram distância e falta, mas eram todas flores da senhora das rosas. Às vezes, ela dizia: olha como está linda, olha, olha, admirada e a rosa, por vezes envergonhada, enrubescia.
 
Depois que meu pai se foi, lá na roça, encompridei o quintal, lhe dei um jardim. Desde então, todos os dias, ela vai pra sua arcaica lavoura de regar o deserto , semear, enredar a terra no ofício de fazer seu pomar avesso, e plantar muitas rosas. Ela as colhe a cada dois ou três dias para colocá-las aos pés dos santos de seu quarto e na pequena gruta na entrada da casa, onde ficam os outros. Minha mãe planta rosas e as oferta aos santos. Algum acordo ela há de ter com eles. Eu não sei o que é, mas desde que vi uma rosa verde por lá desconfio que tem algo a ver comigo e os meus. Minha mãe planta rosas. Ela sempre plantou rosas. E eu não sei nada de fé e amor que se pareça com mais do que isto.


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