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César Oliveira- Crônicas

Milagre dos namorados

César Oliveira - 30 de abril de 2019 | 20h 59
Milagre dos namorados
Verdade que os príncipes já não andam em cavalos brancos, são cada vez menos nobres e as mulheres tem preferido o ronco do motor ao trote do eqüino, mas nem por isso devemos deixar de acreditar que, em algum lugar, a vida é feita mais de encontros do que de desencontros, e uma mulher te espera de vestidinho e flor no cabelo com um sorriso de infância e certezas de uma vida inteira.
 
É certo que os cientistas com seus aparelhos de positrons e dosagens de neurotransmissores andam a desmistificar a paixão, a transformá-la numa reação química de serotinina e dopamina, com validade máxima de três anos, mas nem por isso vamos deixar que levem para o cérebro nossa memória de amor. Não desembarquemos da nossa Arca de Noé imaginária, em que as espécies entram aos casais e sobrevivem, juntas, muito além do dilúvio e repovoam nossas esperanças, mesmo sabendo que os advogados, já não esperam sequer que passe a chuva das mais brandas, urgente que é, partir do outro.
 
É imprescindível que possamos manter a capacidade de renúncia sem ressentimentos, alegações, ou juízo de valor, e a humildade de andarilhos de sandálias, que deve ter quem jura, aos luares, à boca faminta das noites, ou aos suores dos corpos que é sim, o amor, que lhe toma como viagem e sina.
 
Decerto que, por vezes, já nem há mistérios na mulher que desabotoa o vestido para um homem, tantas vezes que o gesto se repete; e os homens sequer sabem que as estrelas oscilam todas, de leve, no céu, quando ela, somente ela, a mulher de tuas procuras, te chama para dentro do seu próprio destino e gozo, mas nem por isso deixemos de acreditar nas lágrimas das que choram nas entregas, nas confissões dos amantes impossíveis, nem nos amores que se prometem eternamente, porque é dele, deste orvalho e barro, que precisamos para não nos tornarmos avessos ou secos de sentir.
 
Sei que é fato que o amor começa e acaba, às vezes, no mesmo passo de dança, mas nem por isso vamos deixar que nossas falhas de humano nos impeçam de reinventar o sonhar de ontem, e exercitar o pertencer. E não esqueçamos que jamais devemos perder o olhar inaugural, porque, perdido o primeiro olhar, todos os outros serão para remover, dia a dia, um encanto, no delicado equilíbrio entre admirar e luir, entre devoção e indiferença. Pois sabemos que o que salva é frágil, impreciso, mas o que mata é exato. Seja a dor ou a palavra feia, que nunca erra no peito, o coração.
 
Sei que é difícil, que as fragilidades são golpes nas ilusões, e que não sabemos o cultivo exato para amar e permanecer. E que, vida inteira, parece, a cada tempo, longa demais, mas vos peço, como quem já cruzou às águas turvas e morou no lado sagrado do coração, ah, eu peço mulheres, não se desfaçam de sua rede de pescador.
 
Agora, que é dia dos namorados, amem e refaçam o milagre de multiplicação dos peixes. E nunca deixem que, em seus olhos, de oceanos perdidos e enfeites de corais, de danças rituais, de vagas infinitesimais, se teça, apenas, a aspereza da realidade. Pois, ao lado, ou em algum lugar, vindo de todas as encarnações de espera, te aguarda, como um feitiço, um vento que margeia e corteja a lua, não mais teu príncipe a cavalo, que os tempos são outros, mas o homem pra teu melhor amor


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