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Lixo no centro comercial de Feira: falta de educação ou descaso governamental?

Daniela Oliveira - 13 de março de 2019 | 11h 51
Lixo no centro comercial de Feira: falta de educação ou descaso governamental?
Foto: Ísis Moraes

Quem passa pelo centro da cidade de Feira de Santana, especialmente no final do dia, observa muita sujeira, sobretudo em áreas onde há comercialização de frutas e verduras, por vendedores ambulantes. A situação chega a ser caótica, tanto na Avenida Senhor dos Passos quanto na Rua Marechal Deodoro, pontos nevrálgicos do comércio local. Mas o que está por trás disso? Falta de educação? Descaso governamental? Falta de conscientização, por parte dos ambulantes e transeuntes?

De acordo com a Secretaria Municipal de Serviços Públicos (Sesp), são 83 garis atuando somente no centro da cidade, nos períodos diurno e noturno. A coleta, segundo o órgão, é feita, pelo menos, duas vezes ao dia: no início do fechamento das lojas, por volta das 19 horas, e às 22 horas.

Na Rua Marechal Deodoro, o mau cheiro oriundo, principalmente, do acúmulo de lixo orgânico, incomoda não apenas consumidores, mas também lojistas, comerciários e transeuntes. Nesse local, a Sesp diz que, além dos horários de coleta, varrições são realizadas com frequência, durante todo o dia, por equipes de plantão, justamente por conta do grande volume de lixo. Porém os próprios ambulantes reconhecem que se houvesse uma maior conscientização por parte da categoria, sendo os detritos não descartados de forma irregular, o ambiente seria mais limpo e agradável. 

Comerciante de frutas há 17 anos, Erlene Nascimento acredita que a Rua Marechal Deodoro precisa de uma limpeza melhor, mas admite que a culpa não é somente do poder público. “Quando termino meu turno de trabalho, coloco tudo em um saco e jogo no lixo. Se todo mundo fizesse isso, o local ficaria mais limpo. A culpa não é só do Governo, é também das pessoas. Se cada um fizesse a sua parte, o mundo seria melhor”, argumenta.

Marinalva Ferreira, também vendedora de frutas da Rua Marechal Deodoro, diz que, poucos minutos após a varrição, o local volta a estar sujo. “A limpeza é feita, mas a rua não fica limpa, porque os próprios feirantes jogam lixo, assim que os garis terminam o trabalho”, lamenta, ressaltando que costuma doar a conhecidos os produtos que não estão mais aptos à venda, mas que ainda estão bons para o consumo.

A comerciante Sônia Pereira de Jesus Santos, que trabalha no local há quatro anos, diz que também doa os alimentos que os consumidores não querem comprar, por causa de algum machucado leve ou defeito na casca. “São poucas as pessoas que se preocupam com a limpeza. E, infelizmente, as pessoas não partilham o que sobra. Se os vendedores doassem, teríamos menos lixo”, observa, afirmando ainda que, muitas vezes, doa frutas aos funcionários das lojas próximas à sua barraca.

Outra reclamação levantada por Sônia diz respeito à rede de esgoto do local. “A estrutura de esgoto precisa melhorar. Quando chove, enche tudo. Além da limpeza da rua, é preciso realizar a limpeza da rede de esgoto. Se todos recolhessem o lixo, em dias de chuva, o esgoto não entupiria a ponto de acumular na rua e entrar nas lojas. Seria importante ter uma lixeira grande, para depois a coleta recolher”, sugere.

Outra ideia proposta pela feirante é a instalação de um sistema de coleta de doações de frutas e verduras ainda aptas ao consumo, o que poderia beneficiar até mesmo instituições filantrópicas. “Seria importante, além da lixeira grande, uma caixa para recolher sobras que pudessem ser doadas”, indica Sônia Pereira.

DESPERDÍCIO – A doação de produtos ainda satisfatórios para o consumo humano poderia mesmo ajudar a evitar o desperdício, mas isso ainda não é uma prática comum, nem nas feiras livres de Feira de Santana, nem nos entrepostos de outras cidades brasileiras. No Brasil, estima-se que 30% de todo alimento que é produzido é desperdiçado, desde a colheita até a venda ao consumidor final. As informações são de Claudine Leal, do Programa Mesa Brasil Sesc, que arrecada alimentos, em todo o país, destinando-os a instituições sociais.

Apesar de o desperdício ser ainda muito grande, já se observa uma mudança de postura em alguns comerciantes do Centro de Abastecimento de Feira de Santana, que colaboram com o programa do Sesc. “Aqui, em Feira de Santana, o Mesa Brasil arrecada, no Centro de Abastecimento, de 100 a 300 quilos de frutas, legumes, verduras e hortifrutigranjeiros, por dia”, informa Claudine.

Funcionando em todo o país, o programa ajuda instituições de caridade, além de reduzir o percentual de alimentos que são jogados fora. “O Programa Mesa Brasil Sesc é uma rede nacional de combate à fome, que promove segurança alimentar e nutricional. Temos um slogan, no programa, que é: ‘Busca onde sobra e entrega onde precisa’. É justamente isso que fazemos: a mediação entre o parceiro doador do alimento que perdeu o ponto de venda, mas que ainda pode ser consumido e as instituições receptoras, sem fins lucrativos, que fazem atendimento nas áreas de creche comunitárias, comunidades terapeutas e abrigo de idosos”, explica.

De acordo com Claudine Leal, o programa não funciona apenas de forma assistencialista. Também capacita os envolvidos. “Para que o programa não seja de base meramente assistencialista, focado somente na doação, realizamos também ações educativas, tanto na área social quanto de nutrição, o que faz com que realizemos promoção institucional. Os colaboradores das instituições e os coordenadores se capacitam aqui. E isso faz com que o programa não seja só a entrega do alimento, mas também o fortalecimento da parte estruturante”, salienta.

Em Feira de Santana, o Mesa Brasil também recolhe alimentos em redes de supermercados, distribuidoras e com produtores rurais, beneficiando dezenas de instituições. “Assistimos 47 instituições sociais de forma sistemática e mais 30 instituições de maneira esporádica. Quando recebemos grande quantidade de alimentos, disponibilizamos para instituições em uma lista de espera. As 47 instituições sociais que atendemos sistematicamente somam 7.700 pessoas, aproximadamente, todas beneficiadas pelo programa e pela doação de alimentos”, informa.

Claudine acredita que, para diminuir o desperdício, é necessário um trabalho de conscientização. “O desperdício pode ser evitado de várias formas, mas passa, sobretudo, pela conscientização, pela mudança de comportamento. O consumo consciente é uma dessas mudanças: comprar somente o que será consumido, e não em excesso. Reutilizar o que sobra, em outras preparações, é outro bom exemplo. Então, realmente, é uma questão de mudança de comportamento, que precisa ser adotada em todas as etapas de produção, e não apenas no consumo final. É fundamental realizar uma colheita cuidadosa, promover um transporte mais eficiente. Apenas isso pode evitar desperdícios”, pontua.

DOENÇAS – Além do desperdício, outro grande problema atrelado ao descarte inadequado do lixo diz respeito a doenças transmitidas por animais, que, na maioria das vezes, são atraídos por restos de alimentos ou que se reproduzem na água empoçada em cascas de frutas e recipientes jogados a céu aberto, além das enfermidades transmitidas pelo contato direto com os resíduos.

De acordo com a médica Lorena Matos, são várias as doenças que podem ser adquiridas através do contato com o lixo: o tétano (infecção aguda e grave, causada pela toxina do bacilo tetânico e que compromete o sistema nervoso); a hepatite A (doença infecciosa aguda que provoca inflamação no fígado); a dermatite de contato (inflamação da pele); o cólera (infecção intestinal aguda); e o tracoma (conjuntivite grave, que pode levar à cegueira) são algumas delas. Isso sem contar os diversos problemas de saúde relacionados a animais atraídos pelo lixo, como moscas, mosquitos, baratas e ratos.

Para a médica, há várias formas de prevenção. “É importante o uso de equipamentos de segurança, para quem trabalha diretamente com a coleta e seleção do lixo, além de observação de hábitos de higiene”, cita, ressaltando a importância de se evitar o acúmulo de lixo.

Não depositar resíduos, principalmente inorgânicos, nas vias públicas ou em áreas residenciais também é crucial para se evitar a proliferação de mosquitos, como o aedes aegypti, responsável por doenças como a dengue, a zika e a chikungunya. Segundo a Secretaria Municipal de Saúdede Feira de Santana, de janeiro até o dia 21 de fevereiro desse ano, já foram feitas 1.617 notificações de dengue, com 600 casos confirmados e três mortes registradas.

O mosquito coloca seus ovos em água parada, daí a importância de não deixar lixo a céu aberto, já que pneus, garrafas, cascas de ovos e de coco, embalagens ou objetos que possam acumular água, mesmo em quantidade mínima, podem servir de criatórios para o inseto.

LIXEIRAS – Se, para alguns, o problema do lixo no centro de Feira de Santana passa pela ausência de lixeiras, o chefe de gabinete da Secretaria de Serviços Públicos, Deibson Cavalcanti, acredita que se trata de uma falta de consciência por parte das pessoas. “Há locais em que acabamos de colocar uma lixeira e ela é arrancada ou destruída por vândalos. Além disso, há ainda aqueles que as usam de forma irregular, a exemplo de destinação de sacos de areia e entulho”, lamenta.

De acordo com Deibson Cavalcanti, nos últimos três meses, pelo menos 200 novas lixeiras foram instaladas, na cidade, tanto em substituição às antigas quanto em locais onde antes não havia esse tipo de equipamento. A previsão, segundo o gestor, é de que mais 40 novas lixeiras sejam instaladas, nos próximos dias.



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