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André Pomponet

Agenda econômica vai atropelar pauta de costumes?

André Pomponet - 05 de Março de 2019 | 21h 44
Agenda econômica vai atropelar pauta de costumes?

- A Globo é comunista, de esquerda. Por isso que passa essas novelas com mulher beijando mulher.

Essa frase eu ouvi ali no Feira 6, durante um almoço. Três mulheres conversavam na mesa vizinha. Uma delas discorria sobre o comunismo e, obviamente, espinafrava os petistas. Empregava a expressão “comunista” com ampla desenvoltura. Deduzi que, para ela, “comunismo” é tudo aquilo que a incomoda e que a desconforta. Um conceito elástico, que pode servir para rotular muita coisa.

- Não tenho nada contra, não, mas esse negócio de mulher beijando mulher e homem beijando homem na televisão não está certo. Votei em Bolsonaro para acabar com isso.

Flagrei esse diálogo entre um sujeito que aguardava ônibus no Corredor da Vitória, em Salvador, e um vendedor de frutas. Apesar do reparo, parecia indignado com esse papo de liberdade de expressão e, sobretudo, com o direito do outro de exercer a própria sexualidade. Julgava que esses casais tinham que se beijar às escondidas.

Tanto a comensal do Feira 6 quanto o passageiro do Corredor da Vitória eram pobres. Gente modesta, vestida com roupas simples, gastas pelo uso. Votaram na pauta de costumes cujo amplo apelo mobilizou multidões nas eleições do ano passado. Imagino que compartilham também do discurso de “menos impostos” que seduziu tanta gente.

Retrocesso econômico

Parece que, antes dessa agenda conservadora sair do papel, essa gente vai marchar muito com a pauta econômica que o governo Jair Bolsonaro está sacando da algibeira. A “pauta de costumes” vai ficar em segundo plano; as draconianas reformas econômicas estão à frente na fila e mobilizam – se é que a expressão é cabível diante do caos político – e têm que sair logo para atender as pressões do “deus mercado”, que encarna os interesses dos donos do Capital.

Para começar, vem aí a reforma da Previdência que, na prática, vai restringir ainda mais o direito à aposentadoria pelos mais pobres. Esses, primeiro, foram atropelados pela revogação da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT no governo Michel Temer (MDB). Caso sobrevivem até os 60 anos – enfrentando todo tipo de restrição no acesso a serviços públicos essenciais – poderão desfrutar de uma espécie de “auxílio-miséria” no valor de R$ 400. É o que propõe o governo.

O pacote, porém, não se esgota aí. “Privilégios” como o vale-transporte e o auxílio-alimentação já estão na alça de mira. Tudo para reduzir os custos do patronato. Isso não deve importar à classe média baixa que, há tempos, vive a fantasia de que é “empreendedora” – eufemismo para precariedade – e que, com o auxílio divino, vai se tornar empresária de sucesso lá adiante.

Vai levar tempo para o brasileiro perceber que se enfiou num tremendo buraco. E vai pesar no bolso. Depois da crise legada pelo petismo, vem a avassaladora redução de direitos como alegada alternativa para se sair da crise. Mas muitos não se importam. Para eles, basta que ande a “pauta de costumes”.

Mas será que essa agenda interessa aos donos do Capital?



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