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  • Feira de Santana, domingo, 18 de agosto de 2019

César Oliveira

Aos garotos do Flamengo

César Oliveira - 12 de fevereiro de 2019 | 17h 08
Aos garotos do Flamengo

Os garotos eram bons de bola, não se pode negar. Jovens, já a tratavam com a intimidade que só os amantes de longa duração conseguem ter. Nisso, está um tanto da beleza do futebol: embora seja a mesma bola e o mesmo lance, nenhum jogador o comete como o outro. Há sempre alguma coisa de inaugural, de reinvenção, ao longo dos tempos, desde que foi criado há mais de 2000 anos e os ingleses lhe deram essa forma moderna.

Por isso, há qualquer coisa de divino- e podemos falar de divino no nosso futebol, pois, Pelé, o inventor da realeza, maior de todos, é brasileiro, e, Baiaco, baiano-, quando um garoto entra em campo, recomeçando, com ou sem pernas tortas, a refazer as pegadas na grama deixadas por seus ídolos- no Flamengo, por Zico, um dos grandes-, e vai afinando, polindo a arte bruta que será, muitas vezes, a sua, e de sua família, tábua de salvação.

Não, não é um garoto que entra em campo, é um projeto, um resgate de vida possível, seja por uma defesa impossível de ser feita que é feita, um passe num espaço inexistente, que é criado, ou um gol, essa sentença de glória e morte, em uma peleja de dois times, que consagra o autor e arrasa de êxtase o coração da torcida.

Ah, há tanto a ser narrado, a ser celebrado, tanta beleza, em um garoto que entra em campo, em um craque que ensaia e anuncia seus espetáculos de magia, que as três deusas que fiam o fio da vida, por vezes se distraem. E quando elas se distraem, como se distraíram no meu Flamengo, vem uma dor tão lancinante, uma dor tão terrível de ser doída, que não é dor possível de ser imaginada.

E a morte pelo fogo, inocentes e indefesos, em um alojamento improvisado que os encarcerou em um forno de metal, executado com gambiarras, sem autorização, notificado trinta vezes da ilegalidade- como trinta vezes e continuou a funcionar?-, e, provavelmente, necessário por falta de planejamento e montado para redução de custos em uma equipe milionária, passa da tragédia, para a morte culposa; do acidente, para a estupidez absoluta e indispensável de punição. Serão infinitos lances amputados de suas existências, centenas de gols, que nunca acontecerão, incontáveis abraços de suas famílias que ficarão no ar, no vazio, no não acontecimento. E eles não serão refeitos.

Os garotos eram bons de bola, não se pode negar, mas seus sorrateiros adversários- a irresponsabilidade e a morte- sabiam driblar melhor. Agora, só nos resta gritar seus nomes nos estádios para que nunca esqueçamos das glórias que lhe sonegamos-  cobrando as responsabilidades-, e para que saibam que estarão sempre nos encantando, imaginariamente, com os lances geniais que só eles criariam. E descansem, com o jogo da vida cumprido



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