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Acidentes de moto custam caro aos cofres públicos e são as maiores causas de invalidez permanente e morte

Karoliny Dias - 11 de fevereiro de 2019 | 08h 06
Acidentes de moto custam caro aos cofres públicos e são as maiores causas de invalidez permanente e morte
Foto: Meiryelle Souza/ Reprodução

Uma matéria publicada Senado Federal afirma que estudos e dados estatísticos apontam aumento do número de vítimas fatais em acidentes de motos, no trânsito. Em 2011, segundo o Senado, dados da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) e do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) dizem que ocorreram 72,4 mil internações de vítimas de acidentes de trânsito. Desse total, 35,7 mil foram vítimas de moto, o que representa quase 50%.

Homens jovens, negros e pobres também são os que mais morrem em acidentes com motocicletas, segundo pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes e da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. A explicação mais plausível é o fato de que 85% dos compradores de motos pertencem às classes C, D e E, que têm menos brancos.

O Ministério da Saúde divulgou estatísticas mostrando que o custo de internações por acidentes com motociclistas pagas pelo SUS aumentou 113% em apenas quatro anos. Entre os anos de 2008 e 2011, os valores gastos passaram de R$ 45 milhões para R$ 96 milhões, ou seja, metade das despesas com atendimento de acidentados no trânsito em geral. Os acidentes crescem mais nos estados do Norte e Nordeste.

São as motos também as responsáveis por 74% de todas as indenizações do Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT). O Brasil gastou, no ano de 2014, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de R$ 124 milhões com mortes, internações e gastos com acidentes envolvendo motos. Foram 12.040 mortes e 95.385 internações.

Mais de 500 mil indenizações por lesões permanentes são pagas, por ano, no país. Dessas, 76% são para motociclistas. O que provoca um impacto econômico e social de grandes proporções. É o que diz a coordenadora do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Feira de Santana, Maísa Macedo. “Normalmente, os acidentes de moto envolvem adolescentes ou pessoas e na fase produtiva da vida. Acamadas, elas deixam de produzir para a sua família e para o Estado. E esse Estado é que passará a mantê-las. Quando se trata de um acidente de moto com lesão grave, o atendimento do Samu é só o início de uma longa sequência de cuidados e procedimentos fundamentais para a manutenção da vida. Essa sequência no atendimento percorre toda a rede de urgência e emergência. As consequências são grandes. O impacto não é somente físico, mas pessoal, familiar, social e econômico, tanto para a família quanto para o Estado”, afirma.

Segundo Maísa, o acidente de moto entra na classificação das urgências traumáticas por causas externas. “Esse tipo de acidente expõe mais a vítima, porque ela não tem a proteção do veículo e, normalmente, anda sem os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) adequados. Alguns utilizam apenas o capacete, mas muitos com a viseira aberta e sem a proteção da mandíbula. É possível ver, também, motociclistas de bermuda e sem sapatos. A falta da vestimenta adequada expõe mais a vitima a lesões corporais, das mais simples até as mais complexas”, observa.

A coordenadora ressalta ainda que o atendimento às vítimas de moto segue o protocolo de atendimento à pessoa politraumatizada. “É um protocolo direcionado e específico, que envolve uma sequência que vai desde a abordagem dos sangramentos extensos e maciços, passando pelas vias áreas, estabilização da respiração, controle da hemorragia, avaliação do estado neurológico, até a análise da vítima para busca de lesões que, porventura, tenham passado despercebidas”, afirma.

As lesões mais comuns são as escoriações nos membros inferiores e superiores. “Sem a vestimenta adequada e com os membros expostos, na dinâmica da cinemática do trauma e se eu estou consciente, naturalmente, meus membros se posicionam na proteção do corpo”, explica, salientando que há, ainda, as lesões de média e alta gravidade, como traumas crânioencefálicos, raquimedulares e torácicos, que acabam comprometendo a vítima em todo o seu sistema de funcionamento.

Maísa Macedo acredita que é preciso trabalhar a prevenção desse tipo de acidente junto à população. “O trabalho tem que ser continuado, na perspectiva da educação e orientação quanto a não andar em alta velocidade, não fazer uso de bebidas alcoólicas quando estiver pilotando, de se comportar no trânsito como um carro e não andar nas laterais, além de usar todos os EPI’s necessários, estar habilitado para conduzir a moto e realizar, sempre, uma direção defensiva”, sugere.

Conforme a coordenadora, desde que o Samu iniciou suas atividades em Feira de Santana, não houve um dia que não fosse constatado um acidente de moto. “Fazemos a abordagem no local e essa vítima é referenciada para as unidades hospitalares”, salienta.

Segundo Maísa Macedo, essas internações hospitalares envolvem toda uma estrutura, que acaba impactando na saúde, de um modo geral, pela longa permanência desse paciente ocupando o leito hospitalar. Quem tem uma lesão grave, pode ocupar um leito por meses, dependendo da gravidade do quadro. Outros pacientes que estão na fila aguardando vagas não conseguem internação, porque o leito está sendo ocupado por uma vítima que está lá há meses. “Essas vítimas têm impacto não somente no Samu, mas na rede de serviços, no custeio de manutenção desses leitos e, consequentemente, na saúde pública”, destaca.

As consequências não se limitam apenas aos pacientes. Suas famílias também são diretamente impactadas com a situação. “Muitos ficam com sequelas temporárias ou permanentes. Em alguns casos mais graves, o paciente pode ficar acamado para o resto da vida”, lamenta.

A rede municipal de Saúde também recebe esses acidentados. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, não há uma estatística específica sobre os atendimentos às vítimas de acidentes de motos, mas, geralmente, os casos mais leves são encaminhadas às Policlínicas, Unidades de Pronto Atendimento (UPA’s) e Unidades Básicas de Saúde (UBS’s). Consultas com clínico geral, curativos, vacinas e outros procedimentos são os mais realizados nessas vítimas.

O diretor do Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), José Carlos Pitangueira, em entrevista ao programa Acorda Cidade, afirmou que quase 2.500 pessoas foram atendidas na unidade hospitalar, em 2018, vítimas de acidentes de moto. “Isso faz com que não consigamos ter um planejamento eficaz. O aumento considerável de acidentes só de um tipo de veículo traz preocupação. Chegará a hora em que não poderemos atender nenhum outro paciente. São acidentes em que não podemos prever”, avalia.

Ainda de acordo com Pitangueira, fazendo a média anual, calcula-se que o HGCA receba sete vítimas de acidentes de moto por dia. Ele disse que o hospital atende, em média, cerca de 2.100 pessoas vítimas de outros tipos de acidentes e 2.480 pessoas acidentadas por motocicletas. Pitangueira salientou que cada paciente custa de R$ 5 a R$ 10 mil aos cofres públicos. “Os que passam mais tempo dentro da unidade podem chegar a R$ 40 mil de internamento”, calcula, informando ainda que, em alguns casos, a ingestão de bebidas alcoólicas é o principal fator que leva a esses acidentes.

PREJUÍZOS PARA A ECONOMIA – Estudos do Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (CPES), da Escola Nacional de Seguros, estimam que, em 2015, o prejuízo com a violência no trânsito foi de R$ 146,8 bilhões, ou seja, 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Em 2016, foram 33.347 mortes e 28.032 de casos de invalidez permanente. Houve uma queda de 32,35% em relação a 2015, quando foram registradas 42.501 mortes e 57.798 casos de invalidez permanente, ocasionando um custo estimado de R$ 217,11 bilhões ou 3,7% do PIB.

Os acidentes de trânsito implicam um grande impacto sobre a Previdência. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) dizem que eles são a principal causa de mortes em jovens de 15 a 29 anos, principalmente do sexo masculino. O site do Ministério da Saúde diz que, no período de 2003 a 2012, a Previdência gastou R$ 10 bilhões em auxílios-doença e aposentadorias por invalidez e um total de R$ 15,6 bilhões em pensões por morte em valores foram corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Estima-se que, no Brasil, o custo total dos acidentes de trânsito para a sociedade representa 5% do PIB, o que equivale a R$ 295 bilhões. Desse total, 2,4% correspondem a custos previdenciários.



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