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André Pomponet

A imprudência dos motociclistas na Feira

André Pomponet - 30 de janeiro de 2019 | 20h 04
A imprudência dos motociclistas na Feira

No domingo (27) fez um dia radiante na Feira de Santana. Na manhã dourada de sol – são sempre deslumbrantes as manhãs ensolaradas de domingo – vi uma grávida a bordo de uma moto lá no Sobradinho. Não era nenhum início de gravidez: a barriga, muito nítida, arredondada – talvez de uns cinco meses, pelo menos –, esgarçava o tecido do vestido curto de estampa floral vermelha. Não viajava escanchada na moto, não, porque não conseguiria se aboletar: ia de lado, indiferente às curvas e às manobras do piloto, que guiava com displicência.

Riam, talvez se divertindo com aquela aventura irresponsável. E o riso era num cruzamento, no meio dos carros. Esse relato – nalgum lugar civilizado – provavelmente causaria surpresa, espanto e indignação. Mas, aqui na Feira de Santana, não: aqueles mais zelosos pela vida certamente se indignam; mas surpresa e espanto certamente não causa, porque isso na cidade é corriqueiro.

Quem nunca viu um casal – muitas vezes devidamente protegido por capacete – conduzindo uma criança no meio, sem nenhum tipo de proteção? Quem nunca testemunhou um condutor ou o acompanhante transportando cargas volumosas, arriscando-se e pondo em risco a vida de quem transita pelas cercanias? Situações do gênero são comuns na cidade.

Sábado (26), por exemplo, na Maria Quitéria, duas mulheres equilibrando-se numa ‘cinquentinha’ conduziam dois bojudos sacos de uma conhecida loja de eletrodomésticos. Iam, tranquilas e lentas, na faixa da esquerda. Às vezes, migravam para a faixa da direita e, em seguida, retornavam, sem sinalizar nem nada. Os exemplos são incontáveis, quem quiser flagrar qualquer coisa basta sair de casa e aguardar – durante alguns poucos instantes – numa via movimentada qualquer.

Sequência de infrações

Nunca esqueci uma sequência de infrações de trânsito que testemunhei no cruzamento da avenida Sampaio com a Comandante Almiro, em 2006: uma jovem – também a bordo de uma famigerada ‘cinquentinha’ – ultrapassou pela direita, ziguezagueou à esquerda, voltou à direita, parou sobre a faixa de pedestres, aguardou alguns instantes e, em seguida, avançou com o sinal vermelho. Estava sem capacete e com salto plataforma.

O número de mortos e feridos em acidentes de trânsito – sobretudo aqueles envolvendo motociclistas – é catastrófico no Brasil. Alguns defendem mais fiscalização, mais conscientização, mais punição. Sem dúvida, essas medidas são indispensáveis: há quem reclame que há uma ‘indústria de multas’ no País, mas a verdade é que há espantosa subnotificação. Se não fosse assim, certamente o número de acidentes seria muito menor.

É absurdo, também, o número daqueles que ficam inválidos ou cuja recuperação exige longos períodos de afastamento do trabalho. Ambas as situações implicam em custos adicionais sobre assistência social e Previdência. Ironicamente, isso é ignorado no debate sobre esses temas. É que fere interesses poderosos e, obviamente, há silêncio.

Transporte Público

Países avançados priorizam investimentos na infraestrutura de transporte público. Indiscutivelmente, é o caminho mais seguro, menos poluente e que assegura maior mobilidade, particularmente nas grandes metrópoles. No Brasil, porém, isso passa longe das prioridades dos governos: aqui, prevalece uma espécie de populismo automobilístico, com governos abdicando de impostos que poderiam ser arrecadados e investidos em transporte público. Tudo para favorecer as montadoras.

Que fazer? O momento do País é tão turbulento que chamamentos ao diálogo, ao entendimento, à concertação entre os poderes e à articulação entre as instâncias federativas soa ingênuo, até pueril. Mas é fundamental que a questão – crucial, mas mais uma entre tantas urgências – siga sendo debatida e colocada pela imprensa.

Por enquanto, resta circular com a cautela que o feroz trânsito brasileiro exige e ir testemunhando absurdos como os mencionados acima. E seguir desassossegado – com o mesmo desconforto de uma noite de domingo e seus presságios – à espera de que algo mude no penumbroso cenário da política brasileira...



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