Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • 55 75 99801 5659
  • Feira de Santana, terça, 26 de outubro de 2021

André Pomponet

Governo Bolsonaro dispensa oposição

André Pomponet - 28 de Janeiro de 2019 | 17h 25
Governo Bolsonaro dispensa oposição

Abstive-me de emitir qualquer opinião sobre o governo Jair Bolsonaro (PSL) durante quase todo o mês de janeiro. Logicamente, não fui movido por nenhum tipo de condescendência: é óbvio que não votei no candidato, mas julguei necessária a trégua, justamente para me precaver em relação a eventuais espasmos de má vontade. Só que bastou um par de dias para ir firmando convicções que o tempo, pelo visto, irá cristalizar. Pelo menos, foi o enredo que prevaleceu neste escaldante e atribulado janeiro.

Uma dessas convicções é que o governo – se é que a expressão é apropriada –dispensa até mesmo oposição: sucessivas declarações desastradas, anúncios sucedidos por reiterados recuos, ausência de planejamento – até mesmo do mínimo rumo, seja ele qual for –, arroubos autoritários e suspeitas de corrupção envolvendo familiares do presidente macularam o novíssimo regime desde seu início, tornando-o o mais corrosivo adversário de si mesmo.

Estupefatos, todos percebem que se perde mais tempo falando de Cuba ou da Venezuela – temas que inflamaram o canhestro e extemporâneo anticomunismo no período eleitoral – que, propriamente, tratando dos problemas do Brasil. A pauta moral é invocada, então, a cada deslize – e olha que já são incontáveis – dos neófitos no poder. Nas redes sociais, há quem enxergue nisso manobra para tergiversar.

O fato é que, pelo jeito, os novos governantes ainda não se deram conta que as eleições terminaram e que é necessário descer do palanque e assumir o governo para o qual foram – democraticamente, enfatize-se – eleitos. Só que a vereda já se tornou pra lá de inóspita: afinal, o déficit de transparência em transações bancárias sob suspeição – o avesso da prometida “nova política” –, que alveja exatamente um dos filhos do novo mandatário recendem à “velha política” e há, no ar, o aroma pestilento do engodo, da empulhação.

Aspectos favoráveis

A favor do novo governo há o fato de que a oposição está acéfala, carente de um discurso minimamente articulado. Afinal, contestações protocolares, mornas manifestações de repúdio, hesitação e – sobretudo – ausência de um projeto alternativo com uma pauta mínima são vexatórios e favorecem a ofensiva contra o povo brasileiro que começou ainda no governo de Michel Temer (MDB-SP), o mandatário de Tietê.

Além disso, o novo regime – com seus apêndices militar, liberal e gospel – não enfrenta nenhuma resistência sistemática, nem do “deus mercado”, nem da imprensa – eterna vil㠖 contrariando o que alegam seus defensores mais exaltados. Pelo contrário: há, no máximo, espantosamente, o desapontamento daqueles que esperavam mais do governo que se inicia.

Jair Bolsonaro, aliás, não pode ser acusado de enganar ninguém: o que ele é e o que ele prometeu fazer – particularmente a liberação das armas – é que está aí, à vista de todos. Aqueles que fizeram a opção eleitoral pelo brasileiro médio – o “tiozão do churrasco”, numa feliz definição – estão colhendo, exatamente, o mandato de um governante medíocre, com suas deficiências e limitações.

Por fim, resta uma observação: o início do mandato de Bolsonaro mostra que o fígado é, sempre, um péssimo conselheiro, sobretudo na hora de escolher governante. Havia opções mais palatáveis e sensatas à direita – Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, João Amoedo – que foram preteridas. Os primeiros resultados já estão aí. Resta preparar o mesmo fígado para o futuro, porque a travessia vai ser longa...



André Pomponet LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

CHARGE DO BOREGA

As mais lidas hoje