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  • Feira de Santana, segunda, 10 de dezembro de 2018

Cultura

Jazz contra a aridez comercial

Ísis Moraes - 19 de novembro de 2018 | 14h 10
Jazz contra a aridez comercial

Feira de Santana abre as portas do sertão para o mundo. E aqui, onde a terra inicia seu largo processo de sequidão, também começa a se delinear todo o universo místico, plural, culturalmente fértil, povoado de signos, cores, imaginários, sons, que é o sertão. No entanto, o que domina é a ideia de que a cidade de Eurico Alves, Raimundo de Oliveira, Godofredo Filho, Amélio Amorim, Graça Ramos, Juraci Dórea, Roberval Pereyr, Antonio Brasileiro, Olney São Paulo, Edvaldo Boaventura, Carlos Pitta, Luiz Caldas, Beto Pitombo, Dionorina, Timbaúba é, justamente, o oposto.

Sobre Feira paira, injustamente, a coroa de espinhos da aridez cultural. Porque o fato é que essa cidade dá, todos os dias, mostras de que áridas são, apenas, as forças que regem o seu funcionamento cotidiano e material. Na contramão da brutalidade mercadológica, seus artistas, tão castigados pela falta de apoio, escolhem, sempre, resistir às forças do capital, que vê tudo como produto potencialmente vendável, menos a arte.

Nas tardes pesadas de domingo, mortas pelo descanso do comércio, um grupo de músicos insiste, quase solitariamente, em doar ao seu torrão natal os mais belos e originais acordes. Movimento único na cidade, e pouco visto no Brasil, o Jam na Cuca surgiu há quatro anos, por iniciativa da produtora Juliana Oliveira e dos músicos Tito Pereira (piano) e Gilmar Araújo (guitarra), integrante do Grupo Quaternária, cuja formação conta também com Rogério Ferrer (piano, saxofone e acordeon), Anderson Silva (contrabaixo) e Adson Junior (bateria).

De acordo com Juliana Oliveira, no início de 2014, durante uma apresentação do Quaternária, na tradicional Jam no MAM, evento realizado no Solar do Unhão, em Salvador, é que a ideia nasceu e tomou forma. “Inspirados pela Jam mais antiga e famosa do estado e percebendo a maturidade do movimento instrumental em Feira de Santana, eu e Gilmar convidamos Tito para integrar a produção, que formataria e colocaria em prática o projeto Jam na Cuca”, relata.

A produtora conta que foi o irmão, Ailton Júnior, que acabou batizando o projeto, ao fazer um trocadilho entre a sigla do Centro Universitário de Cultura e Arte e a palavra “cabeça”, que, no jargão popular, também é chamada de “cuca”. “Por isso Jam na Cuca e não no Cuca”, explica ela, enfatizando ainda que, desde então, o projeto não parou mais, ampliando significativamente o seu alcance, até se tornar um marco e uma referência entre as iniciativas musicais locais.

Para Juliana Oliveira, estava claro que Feira refletia um momento e um ambiente propícios ao crescimento do projeto, uma vez que fervilhavam shows de jazz, capitaneados por grandes bandas e músicos, o que tornava a cidade um celeiro de artistas muito produtivos e competentes. “Era necessário, entretanto, ousar e realizar algo maior, mais amplo, com a intenção de fortalecer e dar maior visibilidade à cena musical, visando ampliar o público e também formar futuras gerações de ouvintes da música instrumental”, lembra.

Ela ressalta ainda que a intenção de ocupar os espaços institucionais de cultura da cidade também se revelava fundamental. “E não tardou em pensarmos no Cuca, que, naturalmente, mostrava ser o local ideal para a realização projeto, por todas as suas características físicas e também pelo fato de abrigar as aulas de música da Uefs; além de ser um espaço musical tradicional, devido ao Seminário de Música, que o espaço abriga há décadas. Apresentamos, então, o projeto à direção e o acolhimento foi imediato”, diz a produtora.

BANDA BASE – Segundo Tito Pereira, a formação da banda base do Jam na Cuca foi consequência de um grande movimento de música instrumental, que fervilhou, em Feira, um pouco antes. “Há grandes músicos na cidade, que sempre gostaram de música instrumental, especialmente do Jazz. Mas ninguém havia pensado em realizar um projeto como esse. E o Jam na Cuca acabou surgindo, naturalmente, dessa movimentação artística. Muitas bandas foram importantes no processo de construção dessa iniciativa. É o caso da Gatos Pingados, de Jorge Galeano, Adson Júnior, Leno e Sérgio Canhoto, da qual eu também fiz parte, em 2005, junto com Zé das Congas, quando ela voltou com uma nova formação”, lembra.

Com o fim da banda Gatos Pingados, Tito Pereira conta que fundou o Ânima Trio, ao lado de Sérgio Canhoto e Flaviano Gallo. O grupo passou a se dedicar à música vocal, mas nunca deixou de dar ênfase também à música instrumental. Paralelamente, surgiu a banda Quaternária, que foi decisiva para a criação do projeto. “A Quaternária era uma banda só de estúdio; não fazia apresentações. Era um grupo de músicos, até maior que a banda, que se reunia, na casa do também maestro Rogério Ferrer, para tocar músicas conhecidas por todos, mas sem qualquer ensaio. Fazíamos sessões musicais pautadas na improvisação, como forma de estimular a criatividade, aprender e colocar em prática nossos conhecimentos”, ressalta.

Esse tocar sem saber o que vem à frente, de improviso, segundo Tito, é, justamente, o que caracteriza as famosas Jam Sessions. “O termo Jam (geleia, em inglês) vem das iniciais Jazz After Midinight (Jazz Depois da Meia-noite). Isto porque, nos clubes de Jazz dos anos 1950, era comum os músicos se reunirem de madrugada, ao saírem dos seus concertos nas Big Bands, quando o público pagante já havia se retirado, para fazer o que eles mais gostavam, que era improvisar. E, nessas famosas ‘sessões geleia’ (porque mesclavam diversos tipos de Jazz), eles faziam disputas, para ver quem improvisava melhor. Isso se popularizou e acabou ganhando vida própria”, conta.

Tito explica que, a essa altura, a banda Quaternária já havia começado a se apresentar para o público. O movimento, então, começou a ganhar corpo. “Eles participaram das Quartas de Jazz, no Jeca Total; classificaram uma composição no Festival de Música Educadora FM; participaram do Recôncavo Jazz Festival; e tocaram no Jam no MAM. Nesse meio tempo, o Ânima Trio terminou e foi então que, em 2014, resolvemos criar o Jam na Cuca”, complementa.

RECONHECIMENTO – Unidos pela paixão pelo Jazz, estilo musical surgido em Nova Orleans (EUA), entre o final do século XIX e início do século XX, fruto do encontro entre os ritmos e tradições legados pelos escravos africanos e a música de influência europeia, os talentosos músicos da banda base do Jam na Cuca podiam estar tocando em qualquer lugar do mundo, mas escolheram Feira e estão fazendo dela uma referência em Jazz, no Brasil.

“Passei quase um ano em São Paulo, produzindo o álbum Alegria, meu novo disco solo, e, nesse tempo, não vi uma única Jam Session do porte da nossa. Feira de Santana é um destaque, em nível nacional, em termos de Jam. Outra coisa que nos dá a medida da importância do trabalho que estamos realizando é o reconhecimento do produtor da Jam no Mam, que também nos inspirou muito”, destaca Tito.

Realizado quase sempre no primeiro domingo de cada mês (a edição de dezembro será no dia 09), no teatro de arena do Cuca, o evento já chegou a reunir cerca de 300 pessoas em uma única apresentação, número bastante expressivo quando se leva em conta o histórico de público registrado em outros eventos da cidade.

Nos shows, cujos ingressos são vendidos ao preço simbólico de R$ 8, os músicos, preservando a característica original das Jam Sessions, sempre abrem espaço para os artistas presentes tocarem junto com eles, de improviso. “Além de convidarmos alguns músicos e bandas, para eventos específicos, a exemplo de Mou Brasil, Ivan Huol, Marcelo Galter, Joatan Nascimento, Africania e Matita Perê, sempre convocamos os instrumentistas e cantores que estão na plateia a improvisarem conosco, após a execução do repertório autoral”,ressalta Tito Pereira, observando ainda que o grupo também realiza o Varal da Jam, espaço aberto a exposições de arte, artesanato, livros e diversas ações de outros segmentos.

Essas outras iniciativas agregadas ao projeto dão um colorido especial aos eventos realizados pela Jam na Cuca, na opinião de Juliana Oliveira. “Além da música instrumental, abrimos as portas para apresentações de dança, artistas circenses, escritores. E disponibilizarmos um espaço para exposições de arte, artesanato, culinária, fotografia e moda. Com o Varal da Jam, o retorno do público foi sensacional e este se tornou cada vez mais fiel ao projeto, o que nos dá forças para, cada vez mais, continuarmos a fazer da Jam uma referência para os feirenses”, comemora a produtora.

Para Juliana Oliveira e Tito Pereira, a Jam na Cuca é a realização de um sonho. “Começamos um projeto que nos realiza como artistas, como instrumentistas e como compositores. E é por acreditarmos verdadeiramente nele, que estamos oferecendo às novas gerações feirenses o que não tivemos. Incentivamos as pessoas a aprenderem a tocar um instrumento. Todos os músicos da banda base são professores. Temos alunos da Jam. Quatro de nós são alunos do curso de Licenciatura em Música da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Então, ao mesmo tempo em que é uma oportunidade de crescimento profissional para nós, a Jam na Cuca é uma forma de oferecer algo significativo à nossa cidade, que, certamente, entrará para sua história. Tem valido muito à pena, apesar de todas as dificuldades”, revela Tito, que, além de instrumentista, também é compositor e cantor.

MAIS APOIO – Conforme o músico, houve um tempo em que o projeto ficou ameaçado, por falta de recursos. Hoje, a situação melhorou um pouco, com a conquista de alguns editais de cultura e com o apoio de alguns poucos patrocinadores da iniciativa privada, mas a banda, que conta também com o belo trabalho do fotógrafo Anderson Moreira, mal consegue cobrir os gastos com equipamentos. “Pagamos para trabalhar. Doamos nosso tempo. Nenhum de nós ganha cachê. Nem podemos pagar aos músicos que vêm de fora. Muitos artistas de peso no cenário nacional até se interessam em participar, mas não temos como bancar. O evento tem muita força, mas precisamos de muito mais apoio, para fazê-lo crescer ainda mais”, anseia Tito.

Para Borega Melo, guitarrista e vocalista da banda Matita Perê, a Jam na Cuca, além de fidelizar o público, vem proporcionando um congraçamento dos músicos que residem na cidade e dos instrumentistas de fora. “Esse movimento é a mais pura expressão de generosidade artística. Voem, projetem a liberdade do improviso na alma das pessoas!”, deseja.



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