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Cultura

Casarão construído para receber Dom Pedro II espera por restauração há 11 anos

Ísis Moraes - 26 de setembro de 2018 | 17h 02
Casarão construído para receber Dom Pedro II espera por restauração há 11 anos
Foto: Soledade/ Reprodução

Parte importante da história e do patrimônio arquitetônico de Feira de Santana, o casarão colonial localizado na Praça Carlos Bahia, nas proximidades da Igreja Matriz, foi doado ao Serviço social do Comércio (Sesc), pela Prefeitura Municipal de Feira de Santana, em 2007. Na época, a instituição se comprometeu a restaurar o imóvel, mas, 11 anos depois, ainda não há a mínima previsão de quando a comunidade feirense voltará a contemplar a beleza e o esplendor desta que é uma das últimas edificações antigas que resistiram ao tempo, à inércia dos poderes públicos e à voracidade comercial e imobiliária.

Reafirmar o valor histórico do casarão é imprescindível nesse tempo em que quase nada resta do passado feirense. As gerações mais novas não têm qualquer memória do quão bonita essa cidade já foi. Desfigurada, a Feira de Santana atual não oferece qualquer alento aos olhos de quem a percorre cotidianamente. Quase nada além de galpões mal acabados, na maioria das vezes. Nada além de ruas desordenadas, convulsas, inóspitas. E não pode haver enraizamento onde não há símbolos que despertem a nossa memória afetiva. Daí a urgência diante da possibilidade de recuperação de qualquer elemento que nos religue às nossas raízes culturais, princípio identificador de todo grupo social.

FAMÍLIA REAL – Pouca gente sabe, mas o casarão foi construído, entre os anos de 1850 e 1858, pelo Coronel João Pedreira de Cerqueira, importante comerciante e político feirense, com o intuito de hospedar o imperador Dom Pedro II e sua esposa, Dona Teresa Cristina. Entretanto, de acordo com relatos de diversos historiadores, em função de divergências políticas e questões financeiras, o casal imperial, que veio a Feira de Santana em 7 de novembro de 1859, acabou se hospedando na casa do Coronel Joaquim Pedreira, primo e rival do construtor do imóvel. O imponente sobrado que realmente serviu de abrigo à família real ficava na antiga Rua Direita, hoje denominada Conselheiro Franco. Demolido, como quase todos os prédios antigos da cidade, deu lugar ao Centro Empresarial Mandacaru.

O fato, no entanto, não diminui a importância do casarão da Praça Carlos Bahia. A edificação tem um imenso valor histórico e arquitetônico. De estilo Eclético, com clara influência Gótica, demarcada pela presença de inúmeros arcos ogivais e rosáceas, o prédio foi vendido à Santa Casa de Misericórdia em 1865, com a finalidade de abrigar o Imperial Asylo dos Enfermos, que, posteriormente, passou a se chamar Hospital Dom Pedro de Alcântara. A unidade de saúde atendia gratuitamente os doentes da região e funcionou no local por 91 anos, até ser transferida para o bairro Kalilândia.

Logo em seguida, o prédio passou a abrigar o 1º Batalhão de Polícia de Feira de Santana, permanecendo ali até 1985. Segundo os moradores mais antigos dos arredores, muitos estudantes, intelectuais e políticos feirenses, acusados de crime de subversão, foram conduzidos às dependências do casarão e ali interrogados, pelo comando do Regime Militar.

PALÁCIO DO MENOR – Em 1987, o casarão passou a sediar o Palácio do Menor, entidade criada para abrigar crianças órfãs e em risco social. Durante longos anos, a instituição funcionou em condições precárias, já que parte do prédio, quase totalmente em ruínas, corria sérios riscos de desabar. Desativado tempos depois, o imóvel foi relegado ao esquecimento durante muitos anos, até ser doado ao Sesc.

Com a estrutura comprometida pelo tempo e pela falta de manutenção, o casarão, até hoje chamado de Palácio do Menor, passou mais sete anos intocado e inativo, tornando-se motivo de preocupação para historiadores e intelectuais feirenses, que temiam que novos desabamentos impossibilitassem a recuperação da edificação. No início de 2014, no entanto, reconhecendo o valor histórico do imóvel, o Sesc anunciou a restauração, que, segundo a entidade, seria realizada com a supervisão técnica do Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (IPAC).

RESTAURANTE E CENTRO CULTURAL – Na época, o Sesc também divulgou que, no terreno, cuja área tem mais de 6,5 mil metros quadrados, seriam construídos um restaurante-escola, destinado aos comerciários, e um moderno complexo cultural. Para tanto, cerca de R$ 20 milhões seriam investidos. A construção da área anexa foi iniciada em setembro de 2015 e está em fase de finalização. De acordo do Ivson Vivas Magalhães, assessor de Comunicação Institucional do Sesc, o projeto trará grandes benefícios à população. “A Unidade ampliará as ações sociais, culturais e de saúde para a comunidade feirense, com meios de acessibilidade, para oferecer tranquilidade e conforto em seus amplos espaços”, frisou.

O representante da entidade salientou que o restaurante de 234 lugares terá capacidade para fornecer até 1.500 almoços por dia, a preços acessíveis, além de contar com duas salas de treinamento e capacitação. “O Centro Cultural, por sua vez, possui uma área construída de 5,6 mil metros quadrados, com ambientes e equipamentos que possibilitam a realização de atividades artístico-culturais (apresentações e atividades formativas), nas modalidades de teatro, dança, circo, música, artes visuais, audiovisual e literatura. A infraestrutura inclui: teatro italiano de 289 lugares, com recursos cênicos e técnicos de última geração, salas de ensaio e cursos, sala de literatura, sala com laboratório audiovisual, atelier de artes visuais, sala multiuso, camarins, espaço do artista, galerias de arte, café-teatro, biblioteca, foyer e bilheteria”, enumerou, ressaltando que ainda não há uma data prevista para a inauguração, em função de ajustes estruturais exigidos pelo projeto.

RESTAURAÇÃO – A restauração do casarão, no entanto, ainda não começou. A única ação realizada no imóvel, até o momento, parece ter sido a instalação de contenções e de uma cobertura, a fim de evitar infiltrações e novos desabamentos. Questionado sobre o real destino do imóvel, Ivson Vivas disse, por telefone, que o projeto foi encaminhado ao Departamento Nacional do Sesc, cuja equipe esteve em Feira, recentemente, a fim de realizar uma visita técnica, mas não deu maiores detalhes.

Em um segundo contato, por e-mail, o assessor enfatizou que o Sesc mantém o compromisso de restaurar o casarão, preservando suas características originais e que as obras de restauro serão contempladas na segunda etapa do projeto, ainda sem data de início. “Será feita a recuperação do Casarão Colonial, com 785 metros quadrados, tombado pelo IPAC. A antiga sede da Santa Casa de Misericórdia de Feira de Santana será inteiramente recuperada, conservando-se as características arquitetônicas da época (final do Século XIX). Servirá de espaço para atividades culturais e educativas, além de disponibilizar amplo salão para realização de eventos”, sintetizou.

Com a promessa da instituição, resta ao feirense esperar que o erro histórico que culminou na aniquilação compulsiva do perfil arquitetônico da cidade seja, pelo menos, amenizado com a recuperação desse importante referencial da nossa história. Afinal, preservar os sinais do passado, resguardar a memória coletiva, inventariar e estimar a cultura secular significa legar ao futuro o que realmente somos. É preciso resistir à tentação do esquecimento e da indiferença.



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