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André Pomponet

A 100 dias das eleições, debate ainda é fraco

André Pomponet - 04 de julho de 2018 | 11h 46
A 100 dias das eleições, debate ainda é fraco

Foi intenso o foguetório comemorando a vitória da Seleção Brasileira sobre o México. Também cresceu o número de feirenses ostentando camiseta amarela, acompanhando os jogos pela tevê, animando-se com a perspectiva de que a equipe alcance a final da competição. O ceticismo inicial – legado do traumático 7 a 1 aplicado pela Alemanha, na Copa passada – vem cedendo lugar a um otimismo ainda moderado, mas crescente. É um bafejo positivo, depois de anos de tantas agruras coletivas.

Logo na sequência da Copa do Mundo, começa a campanha eleitoral. Seria bom que o brasileiro – e o feirense – dedicassem a mesma atenção ao pleito que vai definir o futuro do País nesse momento de tantas incertezas. Mas, como todos sabem, nem sempre é assim. E a reforma eleitoral forjada por Eduardo Cunha (MDB-RJ) e o “Centrão”, há dois anos, contribuem para tornar tudo pior.

O período de campanha foi substancialmente reduzido – o que favorece quem está no exercício do mandato – e a aguardada renovação política tende a se frustrar. O curto intervalo de campanha também apresenta outro grave efeito colateral: há menos tempo para o debate de ideias, para que o eleitor conheça aquilo que o candidato pensa.

A manobra do “Centrão” – legislando em causa própria – coincidiu com um momento em que, ironicamente, o País mais precisa de debate e discussão sobre seus rumos. O candidato que lidera as pesquisas está preso, o segundo colocado, por sua truculência, dispensa comentários e todos – sem exceção – gravitam numa geleia geral da qual não se extraem ideias. Pelo menos até agora, a menos de 100 dias das eleições.

Revezes

Depois de mais de um ano de intensa propaganda sobre a “retomada” da economia milhões de brasileiros seguem enfrentando o desemprego, o achatamento nos salários e rendimentos e a escassez de oportunidades. Prometia-se o paraíso depois da festejada – e lesiva – reforma trabalhista, o que não se confirmou. Afinal, o desemprego se mantém em patamares assustadores. Propostas para o tema, porém, não se ouvem.

No Congresso Nacional e no Palácio do Planalto, o brasileiro segue sendo fustigado com vigor. Num dia, aprovam a ampliação do uso de agrotóxicos na produção de alimentos, o que vai impactar sobre a saúde do brasileiro; no outro, promovem mudanças nos planos de saúde, forçando o cidadão a gastar mais quando for ao médico. Isso só nos últimos dias, quando aproveitaram o embalo da Copa do Mundo.

Também passou no Congresso a elevação do percentual da multa para quem desiste da aquisição de imóvel na planta e o governo decidiu adiar a ampliação da duração dos cursos de formação de professores. Os exemplos são citados de maneira descuidada, mas refletem o que vai mudando no Brasil à revelia da sociedade. Em comum, todas as mudanças visam facilitar a vida de quem priva da intimidade dos atuais donos do poder. Para dano do conjunto da sociedade.

Que desenvolvimento?

Enquanto o Brasil vai mudando à moda de Michel Temer (MDB-SP) – o mandatário de Tietê – o brasileiro perde chances sucessivas de discutir e influir sobre decisões que afetam sua vida de maneira direta. Pelo jeito, nem mesmo durante a campanha eleitoral esse hábito saudável vai ser adotado. Tudo indica, a propósito, que o conteúdo dos debates vai ser ainda mais pobre que nas eleições passadas.

A segurança pública, por exemplo, vai dominar parte das discussões. E sob um prisma truculento: mais armas, mais munição, enrijecimento na legislação penal e nenhuma referência à dimensão social da violência, amplificada pela exclusão, pelo desemprego, pela oferta de serviços públicos precários. Hoje, Filipinas e Turquia tornaram-se exemplo para o Brasil na área. Sem dúvida, um péssimo sinal.

Sobre o mais, até aqui, paira um mistério denso. Nos próximos dias, talvez, venham a público os planos de governo dos candidatos à presidência. Provavelmente trarão abstrações, generalidades, platitudes. É improvável que sirvam a um debate mais consistente. Arrastando-se esse cenário até as eleições, nas urnas os brasileiros estarão, talvez, legitimando um salto no escuro.



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