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André Pomponet

Bahia se destaca no genocídio juvenil

André Pomponet - 13 de junho de 2018 | 08h 30
Bahia se destaca no genocídio juvenil

É estarrecedora a escalada de homicídios no Brasil e na Bahia, divulgada no Atlas da Violência 2018. Os números, referentes a 2016, assumem dimensão ainda mais dramática quando se projeta o futuro do Brasil a partir de 2019: pouco se fala em pacificar o País, reduzir a assombrosa quantidade de assassinatos. Pelo contrário: faz sucesso, na corrida presidencial, quem alardeia que pretende enrijecer a legislação, distribuir armas, estimular mais matança para – ironicamente – elevar a segurança pública, assegurar tranquilidade ao cidadão.

Se isso funcionasse, a Bahia estaria às vésperas de se tornar um paraíso na terra. Afinal, aqui se extermina em escala genocida, sobretudo quem é jovem. Em 2006, por exemplo, foram mortos 1.947 jovens com idade entre 15 e 29 anos. Dez anos depois, essa cifra saltou para 4.358. Acréscimo de estarrecedores 123,8%. O estado é recordista nacional: na sequência aparece o conflagrado Rio de Janeiro, com 3.386 mortes.

Quando o critério é taxa de jovens mortos por cem mil habitantes, a Bahia escorrega para um modesto quarto alugar – índice de 218,4 – atrás de Sergipe (280,6), Alagoas (240) e Rio Grande do Norte (237,3). Famoso pela violência endêmica, o Rio de Janeiro ocupa posição modesta no ranking, não indo além das 166,7 mortes de jovens por cada grupo de cem mil.

Os números apontam que os negros também costumam figurar com muito mais frequência na alça de mira dos assassinos. Em 2006, morriam 25,6 negros por cem mil habitantes; dez anos depois, foram 52,4, salto de 104%. Ser branco garante mais segurança: a taxa era de 7,2 e passou para 15,6 no mesmo intervalo. Noutras palavras, morrem mais de três vezes mais negros.

Explicações

Tornou-se enfadonho repisar as alegações para a escalada da violência no Brasil. Até a primeira metade da década diziam que o tráfico e o consumo de drogas – sobretudo o crack, cuja epidemia parece começar a arrefecer – eram as principais razões. Com a emergência das facções criminosas, isso passou a ser a principal explicação.

O problema é que não existe nenhum levantamento consistente sustentando esses argumentos. Trata-se, basicamente, de palpite. Como morrem jovens, negros, pobres, residentes em periferias ou bolsões de pobreza, a reação é de indiferença, às vezes até de alegre impiedade. Há quem opine que se mata pouco e que é necessário matar ainda mais. Conforme já indicado, até candidatos à presidência da República enxergam o problema sob esse prisma.

Autoridades policiais Brasil afora dizem que a morte violenta é o caminho de quem envereda pela criminalidade, que é necessário evitar as drogas, etc. Em outras palavras, reconhece-se a incapacidade do Estado de conter a violência no País, de reduzi-la a patamares aceitáveis. É inquietante constatar isso, principalmente para quem circula pelas ruas.

Armar o cidadão também é uma maneira sutil de reconhecer a incompetência do Estado em relação à segurança pública. Como julgam a via institucional falida, defendem o salve-se quem puder: quem quiser que enfie uma arma na cintura e se disponha a trocar tiros por aí, caso seja ameaçado.  Afinal, “bala trocada não dói”, como diz o velho ditado da malandragem.

Em suma, hoje o cenário já é trágico. Mas pode piorar muito a partir de 2019, conforme se intui a partir das entrevistas de alguns candidatos à presidência da República...



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