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César Oliveira

O porteiro do sono

Cesar Oliveira - 15 de maio de 2018 | 19h 00
O porteiro do sono
Todo pai se inventa como necessidade perene- embora sejamos biodegradaveis, temporários-, como se nós mesmos, filhos, um dia, não tivéssemos saído pelo mundo a eliminar a dependência.
 
Lembro que meus filhos, quando pequenos, não dormiam sem que eu contasse uma história que inventava para eles. Primeiro para um, depois para o outro. Na noite seguinte, ao inverso. Eu era uma espécie de porteiro do sono. Com as palavras, lendas, aventuras, eles riam, imaginavam mundos longínquos e misteriosos, planetas todos de água, casas sonolentas, e dormiam como cúmplices a esperar, ansiosos, a noite seguinte.
 
Depois que contamos a primeira história, que os empurramos no primeiro brinquedo, explicamos a primeira dúvida, achamos que o ofício será infinito; cremos que nunca vai ser preciso parar, e que eles nunca aprenderão o caminho do sono, sozinhos. Até que um dia- meu filho já havia renunciado, na sua dureza masculina-, minha filha perguntou se eu sabia que ela era a última menina do colégio que o pai ainda contava histórias. A pergunta, devastadora, foi um choque em meu coração, e sei que ela própria hesitou antes de tornar palpável uma realidade já existente, e adiada por nós dois, embevecidos com a fantasia, mas ela precisava anunciar que uma outra se inaugurava ali e na etapa seguinte- cumprido o aviso prévio- o jogo seria sem treinador.
 
Filhos partem, inevitavelmente, partem, e filhos, sabemos, não costumam voltar. Serão, dia após dia, mais autossuficientes, terão as respostas necessárias e suas próprias portas para serem abertas antes do dormir. Nós, pais, tentaremos sobreviver ao dilúvio, ao vácuo, permanecendo distante o bastante para não sermos redatores de escolhas; mas próximos o suficiente para sermos alcançáveis, pois, não desistimos do zelo a distância. Com sorte, envelheceremos e partiremos sem lhe pesarmos; com o tempo natural, a finitude nos tornará dependentes e exigirá que eles velem nossas limitações.
 
Enquanto o último abraço não vem, carregamos a angústia do substituível com  a serenidade de quem faz uma renúncia difícil, mas cheia de orgulho, e o medo de ser silêncio e desconhecimento, na alma deles.
 
Talvez, talvez, para alertar os filhos, não custe dizer que meu pai nunca me contou histórias, mas sua falta há oito anos é um desamparo tão imenso quanto a noite em que perdi meu emprego de porteiro do sono.


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