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André Pomponet

Indicadores são desfavoráveis aos negros em Feira II

André Pomponet - 10 de maio de 2018 | 11h 57
Indicadores são desfavoráveis aos negros em Feira II

Em texto anterior discutimos a condição desfavorável do negro na Feira de Santana, com base em dados de 2010 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Apesar das visíveis e persistentes desigualdades, o Brasil atravessa uma fase de voraz supressão de direitos e de negação da exclusão secular. Os números – que retratam uma realidade distante, mas que pouco se transformou – reafirmam o desafio e podem ajudar a embasar políticas governamentais. Isso caso o tema permaneça na agenda pública, o que é incerto, dada a dura maré reacionária em curso.

Uma frase já célebre afirma que, no Brasil, pobreza tem cor. É a cor da pele dos afrodescendentes, em geral, e dos negros, em particular. Na Feira de Santana a assertiva também é válida: em 2010, o percentual de negros extremamente pobres era de exatos 6%; entre os brancos, o índice correspondia a menos da metade: 2,98%.

Entre aqueles considerados pobres a proporção é quase a mesma: os negros representam 17,32% e os brancos bem menos: 9,87%. Noutras palavras, o risco de ser pobre, para quem é negro, representa quase o dobro em relação aos brancos. Indicadores muito palpáveis – como a remuneração do trabalho – ajudam a demonstrar essas estatísticas.

Em 2010 o desemprego afligia mais os negros do que os brancos: 10,84% contra 8,20%. O índice de formalização do trabalho – a famosa carteira assinada – também era mais favorável aos brancos: 58,55% contra 50,24%. Essa precariedade se reflete sobre a remuneração: enquanto os brancos embolsavam, em média, R$ 1.748,02, os negros recebiam montante inferior à metade: R$ 871,33.

Remuneração

A desigualdade na média se reflete, obviamente, sobre a remuneração pelas diversas faixas salariais: os negros lideram entre aqueles que recebem até um salário-mínimo: 29,4% contra 17,99%; na faixa posterior – até dois mínimos – a “vantagem” se mantém: 81,63% contra 64,23%; mas se inverte entre quem recebe até cinco salários mínimos: 95,37% recebem até essa soma, enquanto entre os brancos essa diferença cai para 86,68%.

Lá se vão oito anos desde que o levantamento foi feito. E pouca coisa, efetivamente, mudou desde lá. Pior: a situação deve ter se deteriorado a partir de 2015, quando a implacável crise econômica em curso abalroou os brasileiros. Mais expostos à pobreza e à precariedade no trabalho, certamente os negros padeceram mais com a crise.

De positivo, desde então, houve a consolidação da política de cotas nas universidades públicas. Foi um passo louvável, mas que, isoladamente, é incapaz de reverter essas desigualdades históricas. Como não se avaliam políticas públicas com frequência e com a necessária transparência, não se sabe exatamente o alcance da medida.

De qualquer forma, os desafios seguem abissais. Sobretudo porque a ofensiva contra direitos duramente conquistados segue avassaladora. É o caso – só para rememorar – da reforma trabalhista e das investidas contra políticas sociais elementares, como nas áreas de saúde e educação. São essas políticas que beneficiam a população mais pobre – e negra – que necessita mais de serviços públicos.



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