Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • 55 75 99801 5659
  • Feira de Santana, sábado, 22 de janeiro de 2022

André Pomponet

Camelôs e ambulantes alavancam “retomada” econômica

André Pomponet - 07 de Março de 2018 | 14h 18
Camelôs e ambulantes alavancam “retomada” econômica

Resultados preliminares indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 1,04% em 2017. O desempenho vem sendo comemorado com empolgação pelo controverso presidente Michel Temer (MDB-SP) e por seu sisudo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD-GO), que se acotovelam na tentativa de viabilizar as próprias candidaturas à presidência da República. Fala-se em PIB crescendo perto de 4% no final do ano, depois das eleições. E garantem que a vereda da prosperidade foi aberta, com o País retomando o almejado desenvolvimento.

Quem se prende à fria rigidez dos números não consegue entender o que está se passando no Brasil. Basta circular pelas cidades do País para perceber que há muita loja fechada, muita placa de “vende-se” ou “aluga-se”, muita gente circulando à procura de emprego, com a Carteira de Trabalho num envelope ou num desses classificadores transparentes. Muitos sustentam o olhar perdido, vazio, enquanto voltam para casa de ônibus, após mais uma busca infrutífera.

Mesmo assim, os pré-candidatos seguem martelando números positivos, anunciando a prosperidade com sorrisos largos, fáceis. Ano passado, finalmente a sangria do desemprego foi estancada, com geração de algumas centenas de milhares de empregos. Mas há aí pouco mérito dos governantes: é que boa parte dos postos de trabalho foi criada no setor informal, sem registro em carteira e com a precariedade habitual.

O fenômeno é simples: interditado o acesso ao emprego formal – graças à ruinosa crise legada por Dilma Rousseff (PT) – o brasileiro começou a se virar com pode: reúne economias, faz uma guia, compra um produto qualquer e sai vendendo pelas ruas das cidades; ou abre uma microempresa e vai aventurar prestar serviço barato para quem precisa ou dispõe de alguma folga financeira.

Feira de Santana

Basta circular pelas ruas centrais da Feira de Santana para confirmar o fenômeno. Cocada, biscoito, utilidades plásticas, tranqueiras importadas da China, brinquedos, capa para celular, tudo é visível pelas calçadas feirenses. Aqui ou ali fica-se sabendo que o cidadão perdeu o emprego formal e, agora, aventura-se com uma banquinha, tentando garantir algum para comprar o pão, o café, o feijão ou pagar uma conta de água ou de luz.

Pelas ruas comerciais dos bairros feirenses o fenômeno se repete: cresceu assustadoramente o número de bancas que mercadejam acarajé, pastel, coxinha, quibe, cachorro-quente; multiplicaram-se os que acoplam vasilhames plásticos em bicicleta para vender salgados o suco em frente às poucas obras em andamento ou defronte às clínicas no centro da cidade.

Quem dispõe de carro próprio aventura-se vendendo ovo – símbolo maior da dura crise econômica –, beiju ou cuscuz de tapioca e até detergente, anunciando seus produtos com estridentes autofalantes pelos bairros populares. Alguns aguardam dias melhores dirigindo como motoristas de aplicativo ou, simplesmente, transportando passageiros clandestinamente, no popular “ligeirinho”.

Médio Prazo

A “correria” – expressão popular comum nas periferias – do brasileiro sem opções de sobrevivência foi apropriada com cínica desfaçatez pela trupe encastelada no poder. E a imprensa glamourizou o antigo bico ou biscate: virou “oportunidade de negócio”, que “empreendedores” aproveitam para garantir um trocado a mais no fim do mês. O palavrório rebuscado, porém, é incapaz de encobrir a precariedade.

O que se pode esperar no médio prazo? O mesmo cenário mesquinho. Afinal, há aí, já, leis trabalhistas sob encomenda para formalizar a precariedade; a terceirização se tornou uma política de Estado; e direitos elementares, como a aposentadoria, estão se tornando luxo injustificável, coisa de excêntrico. Entre os presidenciáveis, ninguém debate essas questões. Apresentar projeto, então nem pensar.

Dissemina-se, conforme se viu, que o pior já passou, que o País vem melhorando. É questionável: primeiro é necessário que se trace um rumo. Nos últimos quatro anos o Brasil passou a funcionar na base do improviso sem subterfúgios. Dilma Rousseff engendrou o caos e seu sucessor, Michel Temer, sem projeto, tornou o balcão um fim em si mesmo. Vemos aí os resultados. Outubro dirá se vai se continuar na mesma toada. Ou não. Sempre há espaço para piorar.



André Pomponet LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

CHARGE DO BOREGA

As mais lidas hoje