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André Pomponet

Caravana de Lula tenta resgatar antiga mística do PT

André Pomponet - 20 de agosto de 2017 | 10h 01
Caravana de Lula tenta resgatar antiga mística do PT

Lula passou ontem (19) pela Feira de Santana em sua caravana pelo Nordeste do Brasil. Na véspera, esteve em Cruz das Almas. Passou também por Salvador e São Francisco do Conde. Fez discursos, recebeu homenagens, participou de reuniões com políticos e negou o tempo todo que já esteja em campanha. É claro que não pode admitir: seria crime eleitoral. Pelo que vi, o calejado ex-presidente tem três motivos para circular Nordeste afora num ônibus confortável, acompanhado por expoentes do petismo.

O primeiro motivo é animar a militância: depois dos últimos revezes, o astral dos petistas caiu, conforme se viu na campanha eleitoral do ano passado, quando o partido sofreu indiscutível derrota na disputa pelas prefeituras; o segundo é ir construindo um discurso e comunicar à militância da legenda, que vai replicá-lo mais tarde; o terceiro é retirar o foco da condenação judicial, dos inquéritos em andamento e da feroz oposição que lhe fazem na Justiça, na imprensa e entre aqueles que pretendem faturar politicamente fustigando-o.

No palco da Estação da Música, Lula se exibiu com chapéu e colete que lembram a indumentária dos vaqueiros, artigos comuns nas feiras-livres do interior do Nordeste. Até um apresentador com jeito de locutor de festa de peão não faltou. À distância, parecia velhinho, abatido, com o cabelo inteiramente branco. Mas era ilusão: quando assumiu o microfone, a voz rouca ganhou entonação firme e o ex-presidente mostrou que está saudável, apesar de já ter passado dos setenta anos.

Foi precedido por um magote de oradores que, objetivamente, tinham apenas a missão de apresentá-lo ao público que chegou à casa de shows ali nas Baraúnas em dezenas de ônibus, vans, e incontáveis carros de passeio. Muitos vieram de fora, trajando vermelho, empunhando bandeiras, exibindo os adesivos distribuídos à farta.

Discurso

Lula elogiou a Bahia, desconfia que já foi baiano nalguma encarnação passada, mencionou uma antiga caravana realizada em 1993, disse que, caso seja candidato, não vai se guiar por pesquisas de opinião para construir seu programa de governo, mas que fará “o que o brasileiro quer”. Atacou os adversários, mencionando a crise econômica, seus efeitos sobre a renda, o emprego, a produção, o crédito. Foi habilidoso, como sempre: falou da recessão como se não tivesse nenhuma responsabilidade sobre ela. É como se o quiproquó econômico não tivesse começado na gestão de Dilma Rousseff, sua pupila.

Também foi hábil apontado os impactos positivos dos benefícios sociais e previdenciários sobre a economia das pequenas cidades nordestinas. Considerou absurdo que os pobres arquem com os custos da reforma da Previdência. Mas não se comprometeu a freá-la, revogá-la, ajustá-la, impedi-la, nada. Apenas mencionou o problema, deixando colocadas infinitas possibilidades para lá adiante, quando chegar à Presidência, caso o consiga.

Por outro lado, Lula foi ácido com a imprensa. Disse que muitos profissionais começam a escrever “apenas para falar mal”. E deixou no ar uma frase dúbia, marota, até ameaçadora, que pode dar margem a inúmeras interpretações: “respeito o jornalista quando é honesto e não respeito quando é desonesto”. Ninguém sabe se Lula comunga da ideia do “controle social da mídia”, que muitos petistas seguem defendendo e que se assemelha – e muito – com uma forma de censura.

Sobrou até para os empresários, sempre generosamente agraciados com créditos e subsídios durante a era petista: Lula chamou-os de “mal-agradecidos”, porque falavam mal do governo mesmo quando beneficiados por esses mimos pecuniários. Mas garantiu que aprendeu com a experiência, tornando-se mais maduro e calejado. Foi uma ameaça à classe empresarial que, maciçamente, apoiou o impeachment de Dilma Rousseff? Não dá para saber, mas o efeito sobre a plateia militante foi ótimo.

"Gente Nossa"

Por fim, Lula recomendou que se vote, para os parlamentos, em candidatos petistas ou alinhados com a legenda: “vamos eleger gente nossa”. Aí mencionou as dificuldades de governar compondo com adversários políticos, sem maioria. Por fim, aproveitou para açoitar a Câmara dos Deputados, responsável pela rasteira que apeou Dilma Rousseff da presidência, ano passado.

Enfim, Lula começou a circular pelo Nordeste com um discurso bem nebuloso. Aqui, flerta com a esquerda, afaga suas visões, abraça suas propostas, empolga a militância; ali, assume ares salvacionistas, coloca-se como opção para retirar o país da crise no qual o próprio petismo o mergulhou, assume ares de caudilho; alhures soa vago, ambíguo, impreciso, justamente para contornar conflitos e dilemas que vão se colocar à frente de quem herdar a presidência da República.

A visão de que Lula está apenas em campanha é limitada. Político hábil, intuitivo, vai sondando o país, testando sua aceitação, verificando o ânimo da militância, perscrutando os grotões. Parece engajado também em sustentar o PT de pé, depois dos sucessivos baques dos últimos anos. Afinal, existe a concreta, plausível, tangível possibilidade de ele ser condenado em segunda instância e rifado das eleições 2018.

Lula deve estar enxergando que o PT se burocratizou e perdeu o encanto de outrora, a velha mística. Na Estação da Música havia bandeiras, camisetas, militantes, slogans, punhos cerrados, sorrisos, palmas e efusão. Mas aquela antiga utopia, que arrastava o povo para os comícios, parece que se perdeu. Resta saber se em definitivo.



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