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Segurança

Ação da PM previne violência doméstica no George Américo

08 de março de 2015 | 09h 30

Vítimas e agressores recebem visitas regulares dos policiais

Ação da PM previne violência doméstica no George Américo
Tenente Juliana: índice alto de agressão a mulheres motivou ação preventiva

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A música alta na casa de Adriana Batista de Jesus, 38 anos, não era falta de educação. Era perversidade. Uma estratégia do marido, para abafar os gritos da mulher que ele espancava. Quem conta é a mãe da vítima, Vera Lúcia Batista de Jesus, 55 anos. Um relato assustador.

"Por várias vezes ela apanhou dentro de casa e até mesmo na frente das crianças. Ela já foi parar quatro vezes no hospital, fora as vezes em que ficou machucada mas não foi, por medo. Ele já jogou água quente no ouvido dela, já jogou paralelepípedo na cabeça. Ela hoje tem marcas dessa violência por todo o corpo. Na boca, no olho, teve um dentre quebrado. Fora as ameaças que meus netos sofriam constantemente. Ele ameaçava minha filha de estupro e até mesmo as crianças. Ele já chegou a jogar uma neta minha de 4 anos contra a parede, era um terror constante", relembra dona Vera.

O agressor foi preso por duas vezes. Depois da primeira, quando foi solto após dois meses, passou a ameaçar mãe e filha. "Quando saiu da primeira vez, ele passava na porta daqui de casa e me ameaçava simulando um tiro na cabeça. Nem o pão eu conseguia mais sair para comprar, precisei tirar meu neto do colégio porque não tinha como levar", afirma Vera.

Atualmente está na cadeia e mesmo assim mete medo. "Ele liga para meu telefone de dentro da cadeia ameaçando minha filha de morte. Diz que vai arrancar a cabeça dela e enfiar em uma estaca. Diz que tem quem faça isso por ele aqui fora", teme.

De acordo com a Delegacia Especial de Atenção à Mulher (DEAM) foram registradas até agora em 2015, 92 queixas de mulheres agredidas. Somente na primeira quinzena de janeiro foram 50.  Pelos registros da delegacia de homicídios, três mulheres foram assassinadas este ano.  Em 2014, 24 mulheres foram assassinadas, 13 sofreram tentativa de homicídio e 2.621 registraram queixa de violência doméstica.

Sensibilizados pelos altos índices de violência doméstica na área de abrangência da  Base Comunitária do bairro George Américo, policiais militares criaram o projeto ‘Base Comunitária do George Américo Contra a Violência Doméstica’.

A ideia é acompanhar os casos registrados pela polícia, levar segurança para as vítimas e evitar a reincidência. É o que tem ajudado a família de Vera e Adriana. Com o projeto, Vera passou a se sentir mais segura e voltou a sair de casa para comprar pão e levar o neto na escola. "Todos os policiais que vêm aqui me dão muito apoio. Temos a vigilância da polícia. Ainda temos medo de quando ele sair da cadeia, mas com as constantes visitas dos policiais, ficamos mais seguros e isso é bom", comemora.

Outra vítima, Adriane Silva Santos, 30 anos, avalia que o projeto trouxe de volta a tranquilidade para seu lar. Na primeira vez em que foi agredida, ela chamou os policias da base comunitária e o marido dela foi encaminhado imediatamente para a delegacia para ser ouvido. "Ele chegou a passar uma noite lá, mas depois desse dia e com as constantes visitas dos policiais à minha casa, que conversam sempre comigo e com ele, ele melhorou bastante. Passou a me respeitar mais. Nós já brigamos novamente depois disso, mas não é mais como era antes. Então sinto que isso tem ajudado a controlar a situação", afirma.

Idealizadora do projeto, a subcomandante da base, tenente Juliana Magalhães, 38 anos, bacharel em economia pela UEFS, está há 17 anos na Polícia Militar. Para ela o fato de ser mulher influenciou muito na idéia de trabalhar pela diminuição da violência. "O projeto surgiu porque percebemos na base muitas ocorrências de violência contra mulher e isso me inquietou. Então fomos pensar alguma coisa que pudesse fazer para tentar diminuir estes índices", relata.

 O projeto acontece principalmente através das visitas solidárias. Os policiais têm conhecimento de mediação de conflito e conhecimento da lei Maria da Penha. A partir dos relatórios de serviços dos plantões da base, passaram a fazer um recorte dessas ocorrências e passaram a identificar as vítimas e os agressores. As visitas são realizadas tanto às vítimas como aos agressores.

"Colocamos-nos à disposição para a mediação do conflito e passamos a perceber que após estas visitas, o índice de reincidência caiu bastante. O autor da violência passou a perceber que a polícia está presente e com a intenção de evitar a violência. O acompanhamento é contínuo e nessas visitas nós sempre levamos um formulário para ser preenchido. Nele nós questionamos como tem sido a convivência, se houve algum fato novo. Acompanhamos tanto os casais que convivem como os que não convivem mais", explica a tenente.

A idéia do projeto ocorreu em 2012, mas apenas em 2013 ele começou a ser colocado em prática. Naquele ano foram registrados 87 casos. Em 2014 o número reduziu para 73 casos. Uma redução de 16% da violência doméstica no bairro e na região atendida pela base. Os casos de violência são principalmente registrados aos fins de semana, quando os agressores estão de folga e normalmente fazem o uso de álcool ou drogas.

"O retorno é muito gratificante, inclusive já houve um fato inusitado quando fomos visitar um agressor e não o encontramos em casa. Ele soube da nossa visita e nos procurou voluntariamente para nos dar satisfação e pediu uma chance, pois ele estava disposto a mudar e não queria agredir mais a esposa", relembra Juliana.

Para a tenente, a receptividade da comunidade em relação ao projeto é muito boa. A educação é muito importante para a diminuição da violência em geral e não somente contra a mulher. "Quando fazemos um trabalho de assistência, estamos passando a sensação de segurança, mas acabamos também educando esta comunidade e deixamos claro que a polícia é parceira da comunidade. A polícia não é só repressiva, ela precisa atuar nestes projetos para prevenir a violência também", reflete.

Prova disso são os índices de violência reduzidos na região desde que a base comunitária foi inaugurada no bairro, em 17 de setembro de 2012.  Para o comandante da base, o capitão Ermillo Lima, 29 anos, bacharel em Enfermagem e há 11 anos na polícia, o maior ganho é o retorno da sensação de segurança na comunidade.

O índice de homicídios no bairro, que já foi o maior da cidade, caiu para próximo do zero. Em 2012 ocorreram 14 assassinatos, em  2013 foram 5 e em 2014 apenas 1. Os índices de apreensões de drogas e armas têm aumentado gradativamente, trazendo um resultado positivo também nas ações de combate à violência.

Sobre o projeto, o capitão afirma que o comprometimento dos policiais da base faz toda a diferença.  Não ha idéia de expansão ainda, mas acreditam que o Comando Geral da Polícia possa abraçá-lo como referência. São 82 policiais na base (contando com o comandante e o subcomandante) trabalhando 24 horas por dia.



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