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André Pomponet

Lembranças de Havana VI

André Pomponet - 07 de Dezembro de 2015 | 13h 41
Lembranças de Havana VI

O Malecón é uma extensa avenida que corta a orla de Havana. É muito larga e o trânsito é bastante inferior àquilo que se poderia imaginar. Do trecho onde fica o Hotel Nacional e o Porto de Havana faz-se uma extensa, mas agradável, caminhada. O mar, no final do inverno, amanhece sempre azul-esverdeado, num tom escuro. Uma extensa e larga mureta separa a calçada das rochas escuras pelo limo e, sobretudo, do mar que avança voraz nos momentos de maré alta.

Em alguns trechos da orla as ondas esbarram, furiosas, contra a mureta e invadem a calçada e até mesmo o asfalto da avenida. Á distância o espetáculo é fascinante: o mar recua com um som abafado, formando a onda que ganha corpo e depois avança, num ruído crescente, sobre as rochas e sobre a amurada; uma espuma grossa e parda se forma, alcançando dois ou três metros, brilhando à luz do sol; depois reflui, para formar uma nova onda que tentará a mesma façanha.

De perto, o espetáculo incomoda: o vapor de água fria e salgada borrifa os passantes e atinge os automóveis antigos que trafegam pelo Malecón. Quando as ondas são mais fortes, a força dos respingos no rosto dá a sensação de minúsculas e curtas chicotadas. Ainda assim, é fascinante ver a cor da água mudando infinitamente, regida pelo sol tímido.

Contrastando com a orgia de luzes, cores e formas do mar estão os antigos casarões do outro lado do Malecón. O porto de Havana foi um dos principais das Américas durante a colonização espanhola, devido à sua localização estratégica para fins militares ou comerciais.

Essa condição modelou muito da arquitetura da Habana Vieja e do Malecón: casarões de dois ou três andares se sucedem, com suas múltiplas portas e detalhes caprichados. Lembram as antigas casas de comércio ainda existentes em Salvador, no Recife e nas cidades mais antigas. Sob o silêncio devassado apenas pelas ondas do mar, imagina-se o frenesi dos tempos de efervescência mercantil, que se foram.

As fachadas sem cor e mal-conservadas, até certo ponto monótonas, contrastam com o mar que brinda os passantes com espetáculos multicoloridos. Ainda assim, esses casarões emanam uma poesia profunda que o silêncio amplifica. A lembrança de que são testemunhas inertes de histórias que correm o mundo inspiram no visitante um respeito solene.

Os casarões voltam-se para o mar que vai pra Europa e que trouxe as expectativas, angústias, sonhos e ambições de tantos migrantes. Os sentimentos desses visitantes que chegavam se entranham nessas fachadas antigas, tornando-as mais singulares do que, na verdade, são.

As fachadas do Malecón parecem arder sob os olhares ansiosos de cinco séculos.



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