André Pomponet
Semana passada passei pelo Terminal Rodoviário de Salvador. Era início de noite. Lá fora, longo engarrafamento: quem chegava do interior penava. Imprecações, impropérios e buzinas estridentes denunciando a agitação. Lá dentro, uma atmosfera melancólica acolhia quem preparava-se para embarcar. Afinal, como se sabe, talvez já na semana que vem a capital baiana disporá de um novíssimo terminal rodoviário funcionando em Águas Claras.
Aproveitei o tempo de espera para relembrar antigas viagens, incontáveis embarques e desembarques naquela estação. Tentei despertar algum saudosismo, em vão. O concreto funcional e indiferente da construção, os letreiros apagados, o piso encardido, as luzes débeis que ameaçam ser engolidas pela escuridão afastavam o sentimento.
Melhor dedicar atenção aos descuidistas em permanente circulação por ali. Um deles foi, retornou, fingindo pressa, o olhar atento à procura de uma carteira, de um celular, de uma bolsa; outro cumprimentava balconistas, circulando, gingando, à vontade examinando as prateleiras quase vazias dos estabelecimentos comerciais.
Fiquei pensando que nos últimos 15 anos Salvador experimentou mudanças revolucionárias na mobilidade urbana. Metrô, BRT, VLT, estações e terminais modernos, novas avenidas, viadutos e corredores de tráfego. Tantas inovações sinalizam para uma importante redução no tempo de deslocamento da população. Ou, em outras palavras: mais qualidade de vida.
O pensamento azedou quando lembrei da Feira de Santana. Ultrapassada, a cidade aguarda transformações no seu sistema de transportes que a coloquem no século XXI. Foram poucos os avanços desde o tempo dos vales estudantil e transporte de papel. A cidade cresceu, espichou-se, alargou-se, praticamente sem nenhuma mudança estrutural no transporte público.
Assim, a Feira de Santana também merece atenção do governo estadual em relação à mobilidade. Agora que Salvador ganhou até uma moderna rodoviária, alardeada como uma das melhores do Brasil, bem que as atenções do governo estadual podiam se voltar para a Princesa do Sertão. Aqui há muito o que fazer em mobilidade e em transporte público.
Uma nova rodoviária aqui, por enquanto, é dispensável. Mas intervenções em mobilidade – como vem acontecendo em Salvador – seriam muito bem-vindas.
Antigamente o 4 de dezembro marcava o início do ciclo de festas populares da Bahia. Nesta data celebra-se Santa Bárbara no catolicismo, e Iansã, no Candomblé, no singular sincretismo só visível na outrora chamada Boa Terra. Até fevereiro, grandes manifestações religiosas se sucediam, destacando a Bahia por sua religiosidade: Nossa Senhora da Conceição da Praia logo a 8 de dezembro, Bom Jesus dos Navegantes no primeiro dia do ano, Lavagem do Bonfim na segunda quinta-feira de janeiro, Iemanjá em 2 de fevereiro.
As demonstrações de fé, na Bahia, sempre se misturaram à profana celebração da vida com o Carnaval, com as gigantescas festas de largo que compartilham datas e espaços com as próprias festas religiosas. Devoção e diversão não eram antônimas às margens da Baía de Todos os Santos, que irradiava uma cultura quente, pulsante, plena de vida e de fé.
Pela antiga tevê Itapoan acompanhava, magnetizado, as longas transmissões destas festas em Salvador. Isso nos anos 1980, quando as emissoras disputavam o posto de quem tinha mais a cara da Bahia. Cidade Baixa, Ribeira, Bonfim, Avenidas Sete e Carlos Gomes, Campo Grande e Praça Castro Alves iam se tornando familiares a quem acompanhava o profano Carnaval e os sagrados ritos católicos.
Naquela época, a atmosfera era densa da energia de ser baiano. “Ser baiano é estado de espírito”, dizia-se, antes da expressão ser apropriada por interesses mercantis e políticos. Mas tudo foi mudando aqui e alhures, as vivas culturas locais atrofiaram-se, absorvidas pelos padrões homogêneos da produção e do consumo. Mas aqui já vai filosofia demais.
A volta grande no texto foi para saudar o 4 de Dezembro aqui na Feira de Santana e sua principal celebração: o caruru que é ofertado no Centro de Abastecimento, celebrando Santa Bárbara mas também Iansã. Vejo o anúncio da distribuição de três mil pratos de caruru, além do samba-de-roda, indispensável na manifestação religiosa.
É uma longa tradição que – ainda bem – se mantém por aqui. Principalmente nestes tempos de cisões, cizânias, intolerâncias, divisões políticas, religiosas, geográficas. Afinal, celebrar Santa Bárbara e Iansã é manter viva uma Bahia que, noutros tempos, orgulhava-se do seu sincretismo religioso.
O sobrenome mais popular em Feira de Santana é Santos. Exatas 131.889 pessoas ostentam o sobrenome, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. A informação constitui uma das novidades divulgadas no recente levantamento. No site da instituição é possível conferir até uma descrição: "O sobrenome Santos tem origem portuguesa, espanhola e religiosa. Ele surgiu como abreviação de 'Todos os Santos' e era atribuído às pessoas que nasciam em 1º de novembro, data celebrada pelos cristãos como o Dia de Todos os Santos. Além disso, o sobrenome foi amplamente adotado por cristãos-novos, nome dado aos judeus convertidos ao cristianismo, durante a Inquisição".
Na sequência, como é fácil adivinhar, vem o Silva. Segundo o levantamento, há 110.623 Silvas na Feira de Santana. Há, também, uma breve descrição, que traz mais informações sobre sua origem: "Derivado do latim, Silva significa 'selva' ou 'floresta'. É classificado como toponímico, ou seja, sua origem está ligada a um lugar geográfico específico. No caso de Silva, é provável que as pessoas que passaram a usar o sobrenome vivessem em áreas florestais ou com abundante vegetação".
A descrição sobre a origem dos Silvas não para aí: "O sobrenome já era conhecido na Roma Antiga, mas desapareceu com a queda do Império Romano e ressurgiu por volta do século XI, na Península Ibérica. Historicamente muito utilizado em Portugal e difundido com a colonização portuguesa, Silva é hoje o sobrenome mais popular do Brasil e bastante comum nos países lusófonos. Além disso, também é encontrado na Espanha e na Itália, embora em menor escala".
Os sobrenomes mais comuns, na sequência, não são difíceis de adivinhar: Oliveira (55.404), Jesus (52.619) e Souza (41.688), ocupam, respectivamente, a terceira, a quarta e a quinta colocações. Pereira - outro sobrenome comum por aqui - aparece apenas na nona colocação, com 23.054 pessoas. Não recorrerei à descrição da origem dos sobrenomes: quem tiver curiosidade, navega no site do IBGE - IBGE Cidades - e descobre muita coisa interessante sobre a Feira de Santana.
Somadas, as informações qualitativa e quantitativa contam um pouco sobre a origem da cidade, seu processo de formação histórica. É mais do que passatempo, a satisfação de uma curiosidade inútil. Sobre o sobrenome Santos - por exemplo - revela uma intensa presença de descendentes de judeus no Brasil, convertida ao cristianismo em solo europeu e curiosamente invisibilizada por aqui.
Enfim, as informações estão disponíveis e, quem quiser fazer suas próprias descobertas, pode acessar https://cidades.ibge.gov.br/ e aprender mais sobre a Feira de Santana, a Bahia e o Brasil.
Ano que vem entramos na segunda metade da década. Durante todos estes anos a Biblioteca Municipal Arnold Silva – ali na rua Geminiano Costa – esteve em reformas. O equipamento, a propósito, ainda não foi entregue à comunidade. Aliás, nem se sabe quando será. Chegaram a cogitar uma permuta estapafúrdia: transferir o Legislativo para aquele espaço e, em troca, a biblioteca iria para a antiga Cadeia Pública. Depois recuaram, dada a reação dos que tem apreço pelos livros e pela leitura.
Desde 2019 a Biblioteca Municipal está em interminável reforma. Toda uma geração de estudantes perdeu a oportunidade de conhecer o espaço e – quem sabe – desenvolver o gosto pela leitura, o hábito da convivência com os livros, o que poderia abrir as portas para uma vida melhor, sobretudo para os mais pobres.
A Feira de Santana, a propósito, é paupérrima em equipamentos culturais, sobretudo bibliotecas. Na região central da cidade, com acesso aberto à população, não há nenhuma. Repita-se: em funcionamento efetivo, não há nada, uma sequer. Por aí se tira o drama de quem não tem poder aquisitivo para comprar livros e deseja cultivar o hábito da leitura.
Vá lá que, na rede escolar, existem umas poucas prateleiras com algumas publicações – em salas exíguas – que constituem pequenas e acanhadas bibliotecas. São, portanto, protocolares, meros apêndices de uma inexistente política de incentivo à leitura. Em suma, na Princesa do Sertão, com seus mais de 600 mil habitantes, vive-se o vexame de não se dispor, sequer, de uma biblioteca pública no centro da cidade, municipal ou estadual.
Mesmo assim, nas datas solenes, muitos inflam o peito para alardear as grandezas da Feira de Santana, suas potencialidades e seu espírito progressista. Sem, ao menos, uma biblioteca pública aberta e funcionando? É complicado apostar no futuro deste jeito. Os guardiões da cultura local deveriam atentar para isso.
Dizem que o futuro do conhecimento está no domínio da tecnologia, dos aparelhos eletrônicos. Em grande medida está, sem dúvida. Mas a ancoragem de todo o progresso – queiram ou não – ainda passa pelos analógicos livros impressos. Então, seria bom a Feira de Santana discutir, de fato, a reabertura de sua biblioteca, que até se tornou alvo de um pitoresco escambo com o Legislativo.
Tristes feirenses jovens, triste Biblioteca Municipal que ajudou a instruir gerações de feirenses...
A extrema-direita anda exultante. Depois da matança consumada há duas semanas no Rio de Janeiro, a turba se assanhou, julgando que garimpou o tema ideal para emparedar Lula e o petê. Logo de cara, pretendiam equiparar os crimes cometidos pelos integrantes das facções criminosas ao terrorismo. Banqueiros e a Faria Lima precisaram se mexer para adverti-los sobre as severas implicações econômicas da medida.
Recuaram, mas agora martelam a “bukelização” do Brasil como agenda eleitoral de 2026. A referência é a Nayib Bukele, que governa El Salvador – pequeno país da América Central – com mão de ferro. Lá, o encarceramento em massa se tornou a principal política do governo para combater as gangues que infestam o país.
Superlotação, detenções arbitrárias, desrespeito aos direitos humanos, suspensão de garantias individuais, menores encarcerados. Enfim, o endurecimento conduziu aos resultados já conhecidos. Mas houve impacto na redução dos homicídios e, até aqui, alega-se que a população aprova, embora El Salvador não se distinga muito das ditaduras que, frequentemente, assolam a América Central.
El Salvador é pequeno, com cerca de 6,6 milhões de habitantes. É, também, um país com extensão bem modesta: apenas 21 mil quilômetros quadrados, menor até que o estado de Sergipe. O Produto Interno Bruto (PIB) é compatível com o tamanho do país: só US$ 34 bilhões em 2023.
Implementar uma política de encarceramento em massa num país com essas dimensões é bem menos traumático e imprevisível que no Brasil, com seus 8,5 milhões de quilômetros quadrados, seus mais de 200 milhões de habitantes e sua economia enorme e diversificada. Mas, mesmo assim – implicações éticas à parte – a extrema-direita pretende recauchutar o modelo salvadorenho e adotá-lo.
Nestes tempos de incessantes cobranças sobre austeridade fiscal, fica a dúvida: quem arcaria com os custos do encarceramento em massa, das penas intermináveis, da contratação de mais guardas, mais armamentos e mais equipamentos de vigilância, da construção de mais e mais prisões? Quem bancaria a hipertrofia do Judiciário para julgar mais e mais processos?
Alguns desavisados sustentam que os presos deveriam trabalhar para se sustentar no cárcere. Tolice: a medida funcionaria mais como punição. Os custos com vigilância e a baixa produtividade contrariam qualquer justificativa econômica. Segue, portanto, a indagação: quem arcaria com os custos? A pergunta só deixa de fazer sentido para os lunáticos que defendem o extermínio em massa. Mas isso, obviamente, resultaria em imprevisíveis – e catastróficos – desdobramentos.
Enfim, a prosa está comprida e é preciso arrematá-la. Arremato-a com a pergunta que martela, persistente: quem arcaria com os custos da “bukelização”? É bom pensar direito sobre o assunto. Afinal, soluções simples não contemplam problemas complexos, como alardeia a insensata extrema-direita.